Livro selecionado: "O Livro dos Médiuns "

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Capítulo XVIII

Inconvenientes e Perigos da Mediunidade

7. Mas há crianças que são médiuns naturais, seja de efeitos físicos, de escrita ou de visões. Haveria nesses casos o mesmo inconveniente?

— Não. Quando a faculdade se manifesta espontânea numa criança, é que pertence à sua própria natureza e que a sua constituição é adequada. Não se dá o mesmo quando a mediunidade é provocada e excitada. Observe-se que a criança que tem visões geralmente pouco se impressiona com isso. As visões lhe parecem muito naturais, de maneira que ela lhes dá pouca atenção e quase sempre as esquece. Mais tarde a lembrança lhe volta à memória e é facilmente explicada, se ela conhecer o Espiritismo.

8. Qual a idade em que se pode, sem inconveniente, praticar a mediunidade?

— Não há limite preciso na idade. Depende inteiramente do desenvolvimento físico e mais particularmente do desenvolvimento psíquico.(4) Há crianças de doze anos que seriam menos impressionadas que algumas pessoas já formadas. Refiro-me à mediunidade em geral, pois a de efeitos físicos é mais fatigante para o corpo. Quanto à escrita há outro inconveniente, que é a falta de experiência da criança, no caso de querer praticá-la sozinha ou fazer dela um brinquedo.

222. A prática do Espiritismo, como adiante veremos, requer muito tato para se desfazer o embuste dos Espíritos mistificadores. Se homens feitos são por eles enganados, a infância e a juventude estão ainda mais expostas a isso, por sua inexperiência. Sabe-se também que o recolhimento é condição essencial para se tratar com Espíritos sérios. As evocações feitas levianamente ou por divertimento constituem verdadeira profanação, que abre a porta aos Espíritos zombeteiros ou malfazejos. Como não se pode esperar de uma criança a gravidade necessária a um ato semelhante, seria de temer que, entregue a si mesma, ela o transformasse em brinquedo. Mesmo nas condições mais favoráveis, é de se desejar que uma criança dotada de mediunidade só a exerça sob a vigilância de pessoas experimentadas, que lhe ensinarão, por exemplo, o respeito devido às almas dos que se foram deste mundo.

Vê-se, pois, que o problema da idade está subordinado tanto às condições do desenvolvimento físico, quanto às do caráter ou amadurecimento moral.(5) Entretanto, o que ressalta claramente das respostas acima é que não se deve forçar o desenvolvimento da faculdade mediúnica nas crianças, quando ela não se desenvolver de maneira espontânea, e que em todos os casos é necessário empregá-la somente com grande circunspecção, não se devendo jamais provocá-la ou encorajar o seu exercício pelas pessoas fracas. Deve-se afastar da prática mediúnica, por todos os meios possíveis, as que apresentem os menores sinais de excentricidade nas idéias ou de enfraquecimento das faculdades mentais, porque são evidentemente predispostas à loucura, que qualquer motivo de superexcitação pode desenvolver.

As idéias espíritas não têm, a esse respeito, maior influência que as outras, mas se a loucura se declarar tomará o caráter de preocupação dominante, como tomaria o caráter religioso, se a pessoa se entregasse com excesso às práticas devocionais, e a responsabilidade seria atribuída ao Espiritismo. O que se pode fazer de melhor com qualquer pessoa que revele tendência à idéia fixa é dirigir as suas preocupações em outra direção, a fim de proporcionar descanso aos órgãos enfraquecidos.(6)

Chamamos a atenção dos leitores, a esse respeito, para o item XII da introdução de O Livro dos Espíritos.

(4) As traduções em geral repetem a expressão francesa développement moral, mas a palavra moral não tem entre nós a mesma amplitude de sentido do francês. Não se trata de desenvolvimento moral, segundo geralmente entendemos a expressão, mas do desenvolvimento psíquico da criança, como o próprio texto o indica. (N. do T.)

(5) O texto francês se refere a circonstances tant du tempérament que du caractère, expressões que têm sido traduzidas literalmente, mas que não possuem em português o mesmo sentido. (N. do T.)

(6) Há livros inteiros, de médicos eminentes, atribuindo ao Espiritismo a causa da maioria dos casos de loucura. Kardec, entretanto, já havia advertido, desde a publicação de O Livro dos Espíritos, em 1857, que a causa real não está nas idéias ou nas crenças da pessoa, mas na sua condição mental ou cerebral. O seu conselho de precauções na prática da mediunidade serviu, embora a contra-senso, para fundamentar as acusações contra o Espiritismo. Hoje, felizmente, nos meios científicos atualizados, chegou-se à compreensão da verdade ensinada por Kardec. As pesquisas parapsicológicas, por sua vez, vêm confirmando a tese kardeciana. Só o fanatismo ou a ignorância podem justificar hoje a repetição dessas acusações absurdas. (N. do T.)

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