Livro selecionado: "O Livro dos Espíritos"

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Capítulo X

Ocupações e Missões dos Espíritos (continuação)

577. Quando um homem faz uma coisa útil é sempre em virtude de uma missão anterior e predestinada ou pode receber uma missão não prevista?

— Tudo o que um homem faz não é conseqüência de uma missão predestinada; ele é freqüentemente o instrumento de que um Espírito se serve para fazer executar alguma coisa que considera útil. Por exemplo, um Espírito julga que seria bom escrever um livro que ele escreveria se estivesse encarnado; procura o escritor mais apto a compreender o seu pensamento e a executá-lo; dá-lhe então a idéia e o dirige na execução. Assim este homem não veio à Terra com a missão de fazer a obra. Acontece o mesmo com alguns trabalhos de arte e com as descobertas. Deve-se dizer ainda que durante o sono do corpo o Espírito encarnado comunica-se diretamente com o Espírito errante, e que se entendem sobre a execução.

578. O Espírito pode falir na sua missão, por sua culpa?

— Sim, se não for um Espírito superior.

578-a. Quais são para ele as conseqüências?

— Terá de reiniciar a tarefa; está nisso a punição. Depois sofrerá as conseqüências do mal que tenha causado.

579.Pois que o Espírito recebe a sua missão de Deus, como Deus pode confiar uma missão importante e de interesse geral a um Espírito que poderia falir?

— Deus não sabe se o seu general será vitorioso ou vencido? Ele o sabe, estai certos, e seus planos, quando importantes, não dependem desses que devem abandonar a obra em meio do trabalho. Toda a questão está, para vós, no conhecimento do futuro, que Deus possui mas que não vos é dado.

580. O Espírito que se encarna para cumprir uma missão tem as mesmas apreensões daquele que o faz como prova?

— Não; ele tem experiência.

581. Os homens que são os faróis do gênero humano, que o esclarecem pelo seu gênio, têm certamente uma missão. Mas no seu número há os que se enganam e que, ao lado de grandes verdades, difundem grandes erros. Como devemos considerar a sua missão?

— Como falseada por eles. Estão abaixo da tarefa que empreenderam. É necessário entretanto tomar em conta as circunstâncias: os homens de gênio devem falar segundo o tempo, e um ensino que parece errôneo ou pueril para uma época avançada poderia ser suficiente para o seu século.

582. Pode-se considerar a paternidade como uma missão?

— É, sem contradita, uma missão. E ao mesmo tempo um dever muito grande, que implica, mais do que o homem pensa, sua responsabilidade para o futuro. Deus põe a criança sob a tutela dos pais para que estes a dirijam no caminho do bem. E lhes facilitou a tarefa dando à criança uma organização débil e delicada, que a torna acessível a todas as impressões. Mas há os que mais se ocupam de endireitar as árvores do pomar e de fazê-las carregar de bons frutos do que em endireitar o caráter do filho. Se este sucumbir por sua culpa terão de sofrer a pena, e os sofrimentos da criança na vida futura recairão sobre eles, porque não fizeram o que lhes competia para o seu adiantamento nas vias do bem.

583. Se uma criança se transviar, apesar dos cuidados dos pais, estes são responsáveis?

— Não; mas quanto mais as disposições da criança são más, mais a tarefa é pesada e maior será o mérito se conseguirem desviá-la do mau caminho.

583.a. Se uma criança se torna um bom adulto, apesar da negligência ou dos maus exemplos dos pais, estes se beneficiam com isso?

— Deus é justo.

584. Qual pode ser a natureza da missão do conquistador, que só tem em vista satisfazer a sua ambição e para atingir o alvo não recua diante de nenhuma calamidade?

— Ele não é, na maioria das vezes, mais do que um instrumento de que Deus se serve para o cumprimento de seus desígnios. Essas calamidades são muitas vezes o meio de fazer avançar mais rapidamente um povo.

584-a. Aquele que é instrumento dessas calamidades passageiras é alheio ao bem que delas pode resultar, pois só se propõe um alvo pessoal; não obstante, aproveitará desse bem?

— Cada um é recompensado segundo as suas obras, o bem que desejou fazer e a orientação de suas intuições.

Os Espíritos encarnados têm ocupações inerentes à sua existência corporal. No estado errante ou de desmaterialização suas ocupações são proporcionais ao seu grau de adiantamento.

Uns percorrem os mundos, instruindo-se e preparando-se para uma nova encarnação.

Outros, mais avançados, ocupam-se do progresso dirigindo os acontecimentos e sugerindo pensamentos favoráveis; assistem aos homens de gênio que concorrem para o adiantamento da Humanidade.

Outros se encarnam com uma missão de progresso.

Outros tomam à sua tutela indivíduos, famílias, aglomerações humanas, cidades e povos dos quais se tornam anjos da guarda, gênios protetores e Espíritos familiares.

Outros, enfim, presidem aos fenômenos da Natureza, dos quais são os agentes diretos.

Os Espíritos comuns se imiscuem nas ocupações e divertimentos dos homens.

Os Espíritos impuros ou imperfeitos esperam, em sofrimentos e angústias, o momento em que praza a Deus conceder-lhes os meios de se adiantarem. Se fazem o mal é pelo despeito de ainda não poderem gozar do bem.(1)

(1) Estas anotações de Kardec dão-nos a visão de conjunto das funções dos Espíritos na Natureza e justificam a sua afirmação de que os Espíritos são uma das forças naturais do Universo. As doutrinas espiritualistas que acusam o Espiritismo de não reconhecer a existência de classes de espíritos não humanos desconhecem este quadro. O Espiritismo é monista e considera toda a evolução espiritual como um processo único que se define na Humanidade, mas reconhece as fases pré-humanas dessa evolução. Como vemos acima, os Espíritos estão em toda parte e exercem universalmente a sua ação inteligente. (N. do T.)

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