Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo V

Suicidas (continuação)

15. Foi doloroso o momento em que a vida se vos apagou?

R. Menos doloroso que depois, só o corpo sofreu.

16. (Ao Espírito de S. Luís) — Que quer dizer o Espírito afirmando que o momento da morte foi menos doloroso que depois?

R. O Espírito descarregou o fardo que o oprimia, ressentia-se da voluptuosidade da dor.

17. Esse estado sobrevém sempre ao suicídio?

R. Sim. O Espírito do suicida fica ligado ao corpo até o termo da vida. A morte natural é o livramento da vida; o suicida a intercepta completamente.

18. Dar-se-á o mesmo nas mortes acidentais, embora involuntárias, mas que abreviam a existência?

R. Não. Que entendeis por suicídio? O Espírito só responde pelos seus atos.

Esta dúvida da morte é muito comum nas pessoas recentemente desencarnadas e sobretudo naquelas que, durante a vida, não elevam a alma acima da matéria. É um fenômeno que parece singular à primeira vista, mas que se explica naturalmente.

Se a um indivíduo, pela primeira vez posto em estado sonambúlico, perguntarmos se dorme, ele responderá quase sempre que não e essa resposta é lógica: o interlocutor parece que faz mal a pergunta, servindo-se de um termo impróprio. Na linguagem comum, a idéia do sono prendeu-se à suspensão de todas as faculdades sensitivas; ora, o sonâmbulo que pensa, que vê e sente, que tem consciência da sua liberdade, não se crê adormecido e de fato não dorme, na acepção vulgar do vocábulo. Eis a razão porque responde não, até que se familiariza com essa maneira de apreender o fato.

O mesmo acontece com o homem que acaba de desencarnar; para ele a morte era o aniquilamento do ser e, tal como o sonâmbulo, ele vê, sente e fala, e assim não se considera morto e isto afirma até que adquira a intuição de seu novo estado. Essa ilusão é sempre mais ou menos dolorosa, uma vez que nunca é completa e dá ao Espírito uma tal ou qual ansiedade. No exemplo em apreço ela constitui verdadeiro suplício pela sensação dos vermes que corroem o corpo, sem falarmos da sua duração, que deverá equivaler ao tempo de vida abreviada. Esse estado é comum nos suicidas, ainda que nem sempre se apresente em idênticas condições, variando de duração e intensidade, conforme as circunstâncias atenuantes ou agravantes da falta.

A sensação dos vermes e da decomposição do corpo não é tampouco privativa dos suicidas: sobrevém igualmente aos que viveram mais da matéria que do espírito. Em tese, não há falta isenta de penalidade, mas também não há regra absoluta e uniforme nos meios de punição.

O Pai e o Conscrito

No começo da guerra da Itália, em 1859, um negociante de Paris, pai de família, gozando de estima geral por parte dos seus vizinhos, tinha um filho que fora sorteado para o serviço militar. Impossibilitado de o eximir desse serviço, ocorreu-lhe a idéia de suicidar-se a fim de o isentar dele, como filho único de mulher viúva. Um ano mais tarde foi evocado na Sociedade de Paris a pedido de pessoa que o conhecera, desejosa de certificar-se do seu destino no mundo espiritual.

(A S. Luís). — Podereis dizer-nos se é possível evocar o Espírito a que vimos de nos referir?

R. Sim, e ele ganhará com isso, porque ficará mais aliviado.

1. Evocação.

— R. Oh! obrigado! Sofro muito, mas... é justo. Contudo, ele me perdoará.

O Espírito escreve com grande dificuldade; os caracteres são irregulares e mal formados; depois da palavra mas, ele pára, e, procurando em vão escrever, apenas consegue fazer alguns traços indecifráveis e pontos. É evidente que foi a palavra Deus que ele não conseguiu escrever.

2. Tende a bondade de preencher a lacuna com a palavra que deixastes de escrever.

R. Sou indigno de escrevê-la.

3. Dissestes que sofreis; compreendeis que fizestes muito mal em vos suicidar; mas o motivo que vos acarretou esse ato não provocou qualquer indulgência?

R. A punição será menos longa, mas nem por isso a ação deixa de ser má.

4. Podereis descrever-nos essa punição?

R. Sofro duplamente, na alma e no corpo; e sofro neste último, conquanto o não possua, como sofre o operado de um membro amputado.

5. A realização do vosso suicídio teve por causa unicamente a isenção do vosso filho ou concorreram para ele outras razões?

R. Fui completamente inspirado pelo amor paterno, porém, mal inspirado. Em atenção a isso, a minha pena será abreviada.

6. Podeis precisar a duração dos vossos padecimentos?

R. Não lhes entrevejo o fim, mas tenho certeza de que ele existe, o que é um alívio para mim.

7. Há pouco não vos foi possível escrever a palavra Deus, e no entanto temos visto Espíritos, muito sofredores fazê-lo; será isso uma conseqüência da vossa punição?

R. Poderei fazê-lo com grandes esforços de arrependimento.

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