Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo II

A Preocupação com a Morte (continuação)

5 — Esta situação é mantida e prolongada por causas puramente humanas que desaparecerão com o progresso. A primeira é o aspecto sobre o qual se apresenta a vida futura, aspecto que poderia bastar para as inteligências pouco avançadas, mas não poderia satisfazer às exigências racionais de homens de reflexão. Desde que nos apresentam, dizem estes, como verdades absolutas, princípios contraditados pela lógica e pelos dados positivos da Ciência, é que não são verdadeiras. Daí resulta a incredulidade de alguns e para grande número a crença duvidosa. A vida futura é para eles uma vaga idéia, antes uma probabilidade do que uma certeza. Eles desejariam crer, quereriam que fosse verdade e malgrado isso dizem a si mesmos: "Mas se não for assim? O presente é positivo. Ocupemo-nos primeiro dele, o futuro virá por acréscimo."

"E depois, dizem ainda, o que é na verdade a alma? Um ponto, um átomo, uma centelha, uma flama? Como ela ouve, como vê, como percebe?" A alma não é para eles uma realidade positiva. É uma abstração. Os seus seres queridos, reduzidos à condição de átomos no seu pensamento, estão por assim dizer perdidos para eles, não tendo mais aos seus olhos as qualidades que os faziam amados. Não podem compreender o amor de uma centelha, nem o que se pudesse ter por ela, e eles mesmos não se sentem satisfeitos de ser transformados em mônadas. Daí o seu retorno ao positivismo da vida terrena, que lhes oferece alguma coisa mais substancial. É considerável o número dos que são dominados por esses pensamentos.

6 — Outra razão que amarra às coisas terrenas até mesmo as pessoas que acreditam firmemente na vida futura, liga-se à impressão que conservam de ensinamentos recebidos na infância.

O quadro apresentado pela Religião, a esse respeito, temos de convir que não é muito sedutor nem consolador. De um lado vemos as contorções dos danados que expiam nas torturas e nas chamas sem fim os seus erros passageiros. Para eles os séculos sucedem aos séculos sem esperança de abrandamento nem de piedade. E o que é ainda mais impiedoso, para eles o arrependimento é ineficaz. De outro lado, as almas sofredoras e exaustas do purgatório esperando a sua libertação da boa vontade dos vivos que devem orar ou mandar orar por elas, e não dos seus próprios esforços para progredir. Essas duas categorias constituem a imensa maioria da população do outro mundo.

Fazê-las aceitar esses princípios pode ser prejudicial. Ao se convencerem, por exemplo, de que a vida espiritual é superior à material, elas poderão desprezar esta última e negligenciar as oportunidades que a atual encarnação lhes oferece para o progresso e a reparação do passado. E isto não se refere apenas às pessoas incultas ou de inteligência reduzida. Também pessoas inteligentes e cultas podem não estar em condições de compreender o problema, em virtude de longos estágios do passado em que insistiram no materialismo e na descrença. (N. do T.)

Acima dela paira a restrita classe dos eleitos, gozando pela eternidade de uma beatitude contemplativa. Essa inutilidade eterna, sem dúvida preferível ao nada, nem por isso é menos fastidiosa. É por isso que vemos nas pinturas que retratam os bem-aventurados, as figuras angélicas que respiram mais o tédio do que a verdadeira felicidade.

Essa situação não satisfaz às aspirações nem à idéia instintiva de progresso que é a única compatível com a felicidade absoluta. É difícil conceber que o selvagem e o ignorante de senso obtuso, somente por haverem recebido o batismo, sejam colocados no mesmo nível daquele que chegou ao mais elevado grau da sabedoria e da moral, após longos anos de trabalho. É ainda menos concebível que a criança morta em tenra idade, antes de ter consciência de si mesma e de seus atos, goze dos mesmos privilégios, somente por efeito de uma cerimônia a que foi submetida sem nenhuma participação da sua vontade. Esses pensamentos não deixariam de perturbar os mais fervorosos, por pouco que refletissem a respeito.

7 — O trabalho que os faz progredir na Terra não tendo nenhuma influência sobre a felicidade futura, a facilidade com que pensam conquistar essa felicidade por meio de algumas práticas exteriores, a possibilidade mesmo de comprá-la com dinheiro, sem uma reforma séria do caráter e dos costumes, fazem que os gozos do mundo conservem todo o seu valor. Muitos crentes dizem para si mesmos que, se o seu futuro está assegurado pelo cumprimento de certas obrigações formais ou pelas graças que os esperam após a morte, seria tolice fazerem sacrifícios ou sofrerem qualquer coisa em benefício dos outros, uma vez que se pede atingir a salvação trabalhando cada um para si mesmo.

Certamente nem todos pensam dessa maneira, pois há grandes e belas exceções. Mas não se pode negar que não seja esta a atitude da maioria, sobretudo das massas pouco esclarecidas, e que a idéia que comumente se faz das condições para a felicidade no outro mundo não entretem o apego aos bens terrenos e por conseguinte o egoísmo.

8 — Acrescentemos que tudo, nos nossos costumes, concorre para fazer que lamentemos a perda da vida terrena e temamos a passagem da Terra para o Céu. A morte é cercada de cerimônias lúgubres que servem mais para aterrorizar do que para despertar a esperança. Sempre se representa a morte sob um aspecto repulsivo e jamais como um sono de transição. Todos os seus símbolos lembram a destruição do corpo, mostrando-o hediondo e descarnado. Nenhum nos apresenta a alma se desprendendo radiosa dos laços terrenos.(8)

A partida para esse mundo mais feliz é acompanhada das lamentações dos que ficam, como se houvesse acontecido a maior desgraça para aqueles que partiram. Dizem-lhe adeus eterno como se jamais eles pudessem ser vistos de novo. Lamenta-se que tenham perdido os prazeres deste mundo, como se não tivessem de encontrar prazeres maiores no outro. Que infelicidade, dizem, morrer quando ainda se é jovem, rico, feliz e tendo pela frente, um futuro brilhante.

A idéia de uma situação mais feliz apenas passa pela mente, pois não tem raízes suficientes. Tudo concorre, pois, para inspirar o pavor da morte em lugar de despertar a esperança. O homem levará ainda longo tempo, sem dúvida, a se livrar desses prejuízos, mas o conseguirá na medida em que a sua fé se consolide, em que fizer uma idéia mais pura da vida espiritual.

(8) Essa impressão negativa da morte foi intencional. O objetivo era atemorizar as criaturas a fim de se portarem bem na vida. Há uma relação evidente entre essa ameaça da morte e as ameaças de castigos nas escolas, para garantir o bom comportamento dos alunos. Mas esse recurso, que produziu resultados entre homens ignorantes e brutais, perderia o seu efeito na proporção em que a Civilização se desenvolvesse. Aconteceu com ele o que ensina uma lei da Dialética: o que hoje serve ao progresso, amanhã se torna obstáculo e deve ser removido. Mas, por outro lado, essas cerimôrias lúgubres e toda essa ameaça passou para o plano dos costumes, criou raízes populares e se tornou ainda uma das fontes de renda para as organizações eclesiásticas. Tudo isso impediu, até mais da metade do século XIX, que as religiões organizadas, chamadas positivas, fizessem alguma coisa para acompanhar o progresso cultural. Ainda hoje, apesar das reformas em curso, o problema da morte continua na mesma situação analisada por Kardec. (N. do T.)

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