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Credo Espírita. Preâmbulo

É pois um dever gravar esta crença no espírito das massas e é um fato que essa crença é inata com o homem, pois todas as religiões a proclamam. Por que então não tem dado até hoje os resultados que se deviam esperar? É que, em geral, tem sido apresentada em condições, que a razão não pode aceitar.

Assim como a ensinam, ela rompe todas as relações com o presente; desde que a pessoa deixa a Terra, torna-se estranha à humanidade; nenhuma solidariedade existe entre os mortos e os vivos; o progresso é puramente individual; trabalhando para o futuro, não trabalha o homem senão para si, e isto mesmo com um fim vago, indefinido, sem um ponto, em que o pensamento possa repousar com segurança; é, enfim, porque ela é mais uma esperança do que uma certeza material.

Daí resulta, para uns, a indiferença, para outros, uma exaltação mística que, insulando o homem na Terra, é essencialmente prejudicial ao progresso real da humanidade, porque despreza os cuidados com o progresso material, para o qual a natureza lhe impõe o dever de concorrer.

Por mais deficientes, porém, que sejam os resultados, não são eles menos reais. Quantos têm sido encorajados e sustentados nas vias do bem por esta vaga esperança? Quantos se têm firmado à beira do abismo do mal pelo receio de comprometer o futuro! Quão nobres virtudes tem esta crença desenvolvido!

Não desprezemos as crenças do passado, por mais imperfeitas que sejam, uma vez que conduzem ao bem. Elas estavam em relação com o atraso da humanidade; tendo esta, porém, progredido, reclama crenças que estejam em harmonia com as suas novas idéias.

Se ficarem estacionários os elementos da fé e distanciados do espírito perderão a sua influência e o bem que produziram no seu tempo, não o poderão mais produzir, porque já não estão mais à altura das circunstâncias.(136)

Para que a doutrina da vida futura produza, de ora em diante, os frutos que podemos esperar, é preciso, antes de tudo, que satisfaça completamente à razão e à idéia, que formamos da sabedoria, da justiça e da bondade de Deus, que não possa ser desmentida pela ciência, não deixe no espírito nem dúvida, nem incerteza; que a vida futura seja tão positiva como a presente, de que é a continuação, como o dia seguinte o é da véspera. É preciso que seja vista, compreendida, apalpada, por assim dizer, com a mão. É preciso enfim que a solidariedade do passado, do presente e do futuro seja evidente, através das diferentes existências.

Tal é a idéia que o Espiritismo dá da vida futura. O que constitui a sua força é não ser concepção humana, que não teria senão o mérito de ser mais racional, sem mais certeza, porém, que as outras.

É o resultado dos estudos feitos sobre os casos oferecidos pelas diferentes classes de Espíritos, que se apresentam em manifestações mediúnicas, que permitiu explorar a vida extracorporal, em todas as suas fases, desde o mais alto até o mais baixo grau da escala dos seres.(*) As peripécias da vida futura não são pois uma teoria, uma hipótese, mais ou menos provável, mas o resultado de observações.(137) São os habitantes do mundo invisível que vêm para conceber a infinita variedade, que eles oferecem.

Dando a prova material da existência e da imortalidade da alma, iniciando-nos nos mistérios do nascimento, da morte, da vida futura, da vida universal, tornando palpáveis as conseqüências inevitáveis do bem e do mal, a doutrina espírita faz, melhor do que qualquer outra, ressaltar a necessidade do melhoramento individual. Por ela, o homem sabe donde vem e para onde vai, e por que está na Terra; o bem tem um fim, uma utilidade prática; ela não forma o homem somente para o futuro, forma-o também para o presente e para a sociedade. Pelo melhoramento moral os homens preparam na Terra o reino da paz e da fraternidade.

(136) O princípio espírita da tolerância, como se vê neste trecho, decorre de uma compreensão ampla do problema da evolução humana. A fé cega do passado teve a sua razão de ser e produziu os seus frutos de acordo com o seu tempo. Não podemos maldizê-la, mas apenas mostrar que para hoje ela não serve mais, pois estamos na época da razão. O grifo é nosso. (N. do Rev.)

(*) O grifo é nosso. (N. do Rev.)

(137) Os que ainda hoje rejeitam os estudos e as pesquisas de Kardec, que provaram a supervivência espiritual do homem, estão apegados a preconceitos ou atrasados culturalmente. As pesquisas atuais no campo do paranormal comprovam inteiramente a legitimidade dos princípios espíritas. (N. do Rev.)

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