Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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Credo Espírita. Preâmbulo

Indulgente para com as imperfeições dos outros, menos sofrerá com isto; elas lhe excitarão piedade em vez da cólera. Evitando o que possa ser nocivo ao próximo, quer por palavras, quer por obras, procurando tudo o que pode ser útil e agradável aos outros, ninguém sofrerá com as suas relações; assegura a sua felicidade na vida futura, porque quanto mais se apura aqui, mais se elevará na hierarquia dos seres inteligentes, e bem cedo deixará esta de provas pelos mundos superiores, porque o mal que tiver reparado nesta vida, não reclama outras existências reparadoras e porque, na erraticidade, não encontrará senão amigos e simpatizantes e não será atormentado pela visão constante dos que teriam razão para clamar contra ele.

Vivam os homens animados destes sentimentos e serão tão felizes quanto se pode na Terra; e quando a pouco e pouco esses sentimentos ganhem um povo, uma raça, toda a humanidade, o nosso globo passará à ordem dos mundos felizes. Será isto uma quimera, uma utopia? Sim, para quem não crê no progresso da alma; não, para quem acredita na perfectibilidade indefinida.

O progresso geral é a resultante de todos os indivíduos; mas o progresso individual não consiste somente no desenvolvimento da inteligência e na aquisição de alguns conhecimentos. Isto é uma parte do progresso, que nos conduz sempre ao bem; muitos fazem mau uso dos seus conhecimentos; o progresso consiste, principalmente, no melhoramento moral, na depuração do espírito, na extirpação dos maus germes existentes em nós. Este é o verdadeiro progresso, o único que assegura a felicidade da humanidade, porque é a negação do mal.

O homem mais elevado intelectualmente pode fazer muito mal; o que é elevado moralmente só faz o bem; interessa pois a todos o progresso moral da humanidade.

Que importa o melhoramento e a felicidade das gerações futuras a quem crê que tudo acaba com a vida? Que interesse pode este ter em se aperfeiçoar, em se constranger, em dominar as más paixões, em sofrer privações por amor de outros? Absolutamente nenhum. A lógica diz que o seu interesse é gozar da vida por todos os meios, pois que amanhã, talvez, ele não seja mais nada.

A doutrina do nada é a paralisia do progresso humano, porque circunscreve a vista do homem ao ponto imperceptível da presente vida e restringe as idéias, concentrando-as na vida material. Com essa doutrina, nada sendo o homem antes, nada depois, cessando com a vida todas as relações sociais, a solidariedade é palavra vã, a fraternidade, teoria sem base, a abnegação não passa de ridícula ilusão, o egoísmo, com sua máxima, cada um por si, constitui direito natural, a vingança, coisa racional, a felicidade, conquista do mais forte e mais esperto, o suicídio, o fim lógico do que sofre sem esperança.

Uma sociedade assente sobre esse fundamento traz em seu seio o germe de dissolução.

Muitos outros são os sentimentos de quem tem fé no futuro, de quem sabe que as suas aquisições, intelectuais e morais, não serão perdidas, que o trabalho de hoje dará frutos amanhã, que fará, ele mesmo, parte dessas gerações futuras mais adiantadas e mais felizes. Sabe que, trabalhando pelos outros, trabalha para si. As suas visitas não são circunscritas à Terra: abrangem o infinito dos mundos, que serão um dia as suas habitações, entrevê o lugar glorioso de que participará com todos os seres chegados à perfeição.

Com a fé na vida futura, alarga-se o círculo das idéias e o progresso pessoal tem um fim, uma utilidade efetiva. Da continuidade das relações entre os homens nasce a solidariedade. A fraternidade é fundada numa lei natural e no interesse de todos. A crença na vida futura é, portanto, o elemento do progresso, porque é o estimulante do espírito. Só ela pode dar a coragem nas provas, porque dá a sua razão de ser, a perseverança na luta contra o mal, porque mostra o resultado colhido.

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