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VIII. Do Programa das Crenças

Para evitar os inconvenientes da falta de precisão da qualidade espírita, os signatários da profissão de fé tomarão o título de espíritas professos. Esta qualificação, assentando em base precisa e definida, acabará com os equívocos e permitirá aos adeptos, que professarem os mesmos princípios e marcharem pela mesma via, o reconhecerem-se à simples declaração de sua qualidade e, na dúvida, pela exibição do título.

Uma reunião de espíritas professos será tão homogênea, quanto é dado à humanidade. O formulário de profissão de fé circunstanciado e bem definido será o caminho traçado; o título de espírita professo será o laço de união.

Dirão: este título pode ser uma garantia segura contra os homens de duvidosa sinceridade? Garantia absoluta contra a má fé é coisa impossível, porque homens há que zombam dos atos mais solenes; hão de convir, porém, que esta garantia vale sempre mais do que nenhuma. Aquele que, sem escrúpulo, se dá pelo que não é, quando o faz por palavras que voam, recua muitas vezes diante de uma afirmação escrita, que perdura e que pode ser-lhe atirada em rosto, se se afastar do caminho reto. Se é certo que há quem não se prenda por estas considerações, também é certo que o seu número é muito limitado e sem influência. Este caso está previsto nos Estatutos e prevenido por disposição especial, que afastará inevitavelmente das reuniões sérias as pessoas indignas.

Se esse dispositivo der ensejo à retirada de alguns espíritas de boa fé, será porque eles ainda não estão bem seguros de si mesmos; serão os timoratos, que temem ser postos em evidência e os que, em todas as circunstâncias, são sempre dos últimos a se manifestar esperando o rumo que as coisas levam. Com o tempo, uns se esclarecerão e outros se encorajarão; mas até então, nem uns nem outros podem ser contados no número dos firmes defensores da causa.

Quanto àqueles, cuja ausência seria de lamentar, o número será pequeno, com tendência a diminuir.

Uma vez que nada é perfeito neste mundo, as melhores coisas têm os seus inconvenientes; se se quisesse rejeitar tudo quanto os tem, nada ficaria para ser aproveitado. Em tudo é preciso ter em conta as vantagens e os inconvenientes e é evidente que as primeiras sobrepujam as segundas.

Todos os que se intitulam espíritas não se ligarão certamente à constituição mas esta não é senão para os que a aceitarem livremente, porque não têm a pretensão de se impor a quem quer que seja.

Não sendo o Espiritismo compreendido da mesma maneira por todos, a sua constituição apela para os que aceitam o programa adaptado com o fim de lhes dar apoio, quando insulados, e de cimentar a união da grande família pela unidade de crenças. Fiel porém ao princípio de liberdade de consciência, que a Doutrina proclama como direito natural, ela respeita as convicções sinceras e não anatematiza os que têm idéias diferentes, antes aproveitará as luzes que estes possam emitir fora de seu seio. O essencial portanto é conhecer os que seguem a mesma via; como, porém, sabê-lo com precisão? É naturalmente impossível consegui-lo por interrogatórios individuais, além de que ninguém tem o direito de perscrutar consciências. O meio único, mas legal, é estabelecer um formulário de princípios, resumindo o estado dos conhecimentos atuais, que resultam da observação, e que são sancionados pelo ensino geral dos Espíritos, ao qual podem aderir ou não. A adesão escrita é uma profissão de fé, que dispensa investigações e deixa a cada um a sua liberdade.

A constituição do Espiritismo tem pois, por complemento necessário, um programa de princípios definidos no que respeita à crença, sem a qual ela seria obra balda de alcance e de futuro. Este programa, fruto da experiência, será o farol indicador do caminho. Para marchar com segurança, a par da constituição orgânica, é preciso a constituição da fé, um credo, se quiserem, que seja o centro convergente de todos os adeptos. O programa porém, do mesmo modo que a constituição orgânica, não pode encadear o futuro, sob pena de sucumbir, mais cedo ou mais tarde, sob as rodas do progresso. Feito para o estado atual dos conhecimentos, deve modificar-se e completar-se, à medida que venham novas observações demonstrar-lhe a insuficiência e os defeitos. Não devem porém tais modificações ser feitas leviana e precipitadamente.

Devem ser adotadas pelos congressos, quando se reunirem para a revisão dos estatutos e incorporadas ao formulário dos princípios. A constituição e o credo, sempre unidos, acompanhando o progresso, hão de sobreviver aos séculos.(131)

(131) O credo proposto nunca foi adotado. O Espiritismo é uma convicção pessoal, uma mundividência e portanto uma tomada de consciência que independe e rejeita profissões de fé. A Constituição do Espiritismo é uma prova eloqüente do zelo de Kardec pela Doutrina, mas não passa de um documento histórico no tocante à institucionalização da Doutrina. Fora das pretensões institucionais contém, como vimos, trechos valiosos e elevados ensinamentos, formulados com a clareza e a lógica que sempre foram a marca de Kardec. (N. do Rev.)

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