Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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II. Dos Cismas

Se pois uma seita formar-se a seu lado, fundada ou não em seus princípios acontecerá uma das duas — ou esta seita estará com a verdade, ou não. Se não estiver com a verdade, cairá por si mesma, à luz da razão e do senso comum, como tantas outras já têm caído nos séculos passados; mas se as suas idéias forem justas, ainda que sejam num ponto, a Doutrina espírita, que procura o bem e a verdade onde se acharem, assimilará essas idéias de modo que em lugar de ser absorvida, absorverá. Se algum dos seus membros se separar, é que acreditou que pode fazer melhor; se fizer realmente melhor, ela o imitará, se fizer mais benefícios, terá de esforçar-se por fazer outro tanto, ou melhor; se fizer males, a Doutrina o deixará, certa de que, mais cedo ou mais tarde, o bem prevalecerá sobre o mal e a verdade sobre a falsidade. Eis a única luta que travará.

Acrescentemos que a tolerância, conseqüência da caridade, que é a base da moral espírita, lhe impõe a obrigação de respeitar todas as crenças. Querendo ser aceita livremente, por convicção e não por coação, proclamando a liberdade de consciência como um direito natural imprescritível, ela diz: "tenho razão, os outros acabarão por pensar como eu; se não a tenho, acabarei por pensar como os outros".

Em virtude destes princípios, não atirando pedras a ninguém, nenhum pretexto dará a represálias e deixará aos dissidentes toda a responsabilidade de palavras e obras.

O programa da doutrina não é invariável senão quanto aos princípios reconhecidos como verdades verificadas, no que respeita aos outros; ela não os admitirá, como o tem sempre feito, senão a título de hipótese, até que sejam confirmados. Se lhe demonstrarem que está em erro sobre um ponto, ela se modificará nesse ponto.

A verdade absoluta é eterna e, por isso mesmo invariável; quem há porém que a possua inteira?

No estado de atraso dos nossos conhecimentos o que hoje nos parece falso pode amanhã ser reconhecido verdade, por efeito de novas leis descobertas. Isto na ordem moral, como na ordem física. É contra esta eventualidade que a Doutrina deve estar sempre aparelhada. O princípio progressivo, que inscreveu em seu código, será a salvaguarda da sua perpetuidade, a unidade será mantida precisamente porque não repousa sobre o princípio de imobilidade. A imobilidade em lugar de ser uma força é causa de fraqueza e de ruína, porque não segue o movimento geral. Ela rompe a unidade, porque aqueles que querem ir adiante se separam dos que se obstinam em ficar atrás. Seguindo porém o movimento progressivo, cumpre-lhe guardar a maior prudência e livrar-se dos devaneios, de utopias e de sistemas. É preciso andar a tempo, nem muito depressa, nem muito devagar e com conhecimento de causa.(*)

Compreende-se que uma Doutrina assentada sobre tais bases deve ser realmente forte. A experiência, além disto, tem justificado esta previsão. A Doutrina tendo caminhado por esta via desde a sua origem, seguiu avante constantemente, mas sem precipitação, examinando sempre se é sólido o terreno, em que põe o pé, e medindo os passos com respeito à opinião. Tem andado como o navegante: de sonda na mão e consultando os ventos.(129)

(*) O grifo é nosso. (N. do Rev.)

(129) Kardec reafirma, neste trabalho, todas as posições fundamentais da Doutrina Espírita que a caracterizaram desde o início: uma doutrina aberta, estruturada sobre a tríade científica da observação, da experimentação e da pesquisa, avessa ao dogmatismo e ao misticismo e portanto à estagnação, confiante na capacidade humana sempre crescente de conhecer e por isso mesmo infensa também ao dogmatismo materialista. De sonda na mão e consultando os ventos, ou seja, pela investigação humana e a consulta aos Espíritos (pneuma em grego e ruach em hebraico, ambos significando sopro) o Espiritismo avança com a segurança de um navegante experimentado. (N. do Rev.)

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