Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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X. Allan Kardec e a Nova Constituição

"Pois bem! O que me forneceu esse suplemento de recursos foram as minhas obras. Digo-o com satisfação: foi com o meu próprio trabalho, com o das minhas vigílias, que satisfiz, em grande parte, ao menos, às necessidades materiais da instalação da Doutrina. Concorri em larga escala para a Caixa do Espiritismo. Os que me ajudaram na propagação das obras não poderão dizer que trabalharam para me enriquecer, pois que o produto de todo o livro vendido, de toda assinatura da Revista, aproveita à Doutrina e não ao indivíduo.

Mas não bastava prover ao presente; era necessário também pensar no futuro e preparar uma fundação, que pudesse servir a quem me substituísse na grande tarefa. Essa fundação, a cujo respeito não devo ainda falar, prende-se a propriedade que possuo, e é por esse motivo que vou nela aplicando parte da minha renda a fim de melhorá-la. Como estou longe dos milhões, com que me presentearam, duvido muito que apesar das economias, os meus recursos me permitam dar a essa fundação o complemento que anseio ver em minha vida; mas sua realização está no plano dos meus guias espirituais. Se eu o não fazer, outros farão, mais cedo ou mais tarde.

"Entrementes elaboro os planos.

"Longe de mim o pensamento de vaidade em tudo o que fica exposto; foi precisa a perseverança de algumas diatribes para eu romper o silêncio sobre determinados fatos, que me dizem respeito. Mais tarde, aqueles que têm sido desnaturados pela malevolência serão trazidos à luz por documentos autênticos; não é porém chegado o tempo para essas explicações. O que me importava, por ora, era que ficásseis tranquilos acerca do que a Providência fez passar por minhas mãos, qualquer que seja a sua origem. Eu considero-me simples depositário, até dos que são ganhos por mim, e com dobrada razão, dos que me são confiados.

"Perguntaram-me um dia, sem curiosidade e por simples interesse pela causa, o que faria de um milhão. Respondi que o empregaria, hoje, muito diferentemente de outrora. Outrora o empregaria na propaganda por uma larga publicidade; hoje reconheço que àquilo teria sido inútil, pois que os nossos adversários têm feito, à sua custa, semelhante serviço. Não me colocando naquele período em condições de dispor de grandes recursos, quiseram os Espíritos provar que o Espiritismo deve o êxito à própria força.

"Hoje que o horizonte se alargou, que o futuro se desdobrou à nossa vista, bem diversas são as necessidades. Um capital, como o figurado, teria muito mais útil aplicação.

"Sem entrar em minúcias, que seriam prematuras, direi simplesmente que uma casa especial de retiro espiritual, cujos habitantes colheriam os benefícios da nossa doutrina moral, e a outra parte ser viria para constituir uma renda inalienável: 1.° — para sustentação do estabelecimento; 2.° — para garantir existência independente ao que me substituir e aos que o ajudarem em sua missão; 3.° — para ocorrer às necessidades eventuais de Espiritismo, sem correr o risco de precisar de recursos de ocasião como me acontece, pois que a maior parte dos nossos recursos são fruto do meu trabalho, que acabará.

"Eis o que eu faria; mas, como não me será dada essa satisfação, sei que os Espíritos que dirigem o movimento, de um modo ou de outro, proverão a todas as necessidades a tempo. Também por isto não me incomodo por esse lado e trato do que é para mim essencial — a aceleração dos trabalhos que estão a meu cargo. Feito isto, estou pronto para partir, quando Deus me quiser chamar".

Ao que então dizia, acrescenta Allan Kardec, hoje:

Quando a comissão estiver organizada, faremos parte dela como simples membro, com uma parte na colaboração, sem nenhuma supremacia, título ou privilégio. Embora com parte ativa na comissão, não pesaremos no orçamento, nem por emolumentos, nem por despesas de viagens, nem por qualquer título. Se nada temos até aqui pedido, menos ainda pediremos daqui em diante. O nosso tempo, a nossa vida, todas as nossas forças físicas e intelectuais pertencem à Doutrina. Declaramos pois formalmente que nenhuma parte dos recursos, de que dispuser a comissão, será desviada para o nosso proveito. Levar-lhe-emos, pelo contrário, a nossa quota:

1.° — Pela cessão do produto das nossas obras feitas e por fazer;

2.° — Pela transmissão de bens móveis e imóveis.

Quando a Doutrina estiver organizada pela constituição da comissão central, as nossas obras passarão à propriedade do Espiritismo, na pessoa dessa comissão, que terá a gerência e fará o necessário para a sua publicacão e divulgação. Ela deverá igualmente ocupar-se da sua tradução nas principais línguas estrangeiras.

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