Livro selecionado: "Obras Póstumas "

ÍNDICE

Página Anterior

A Tiara Espiritual

Aquela senhora deixou Paris no ano seguinte e eu não a vi senão oito anos depois, em 1866, tendo as coisas caminhado muito neste intervalo. Então disse-me ela:

— Lembrai-vos da tiara espiritual por mim predita? Ei-la realizada.

— Como assim? Eu não estou, que o saiba, sentado no trono de S. Pedro.

— Não; mas não foi isso o que vos anunciei. Não sois de fato o chefe da doutrina, reconhecido pelos espíritas de todo o mundo? Não são os vossos escritos que fazem a lei? Os vossos adeptos não se contam por milhões? Há algum nome que tenha, mais que o vosso, autoridade, em matéria de Espiritismo? Os títulos de sumo sacerdote, de pontífice, mesmo de papa, não vos têm sido espontaneamente dados? Partem dos vossos adversários por ironia, bem sei, mas isso não deixa de ser a maior prova da influência, que eles vos reconhecem: pressentem o vosso papel e esses títulos ficarão.

(100) Esta atitude positiva de Kardec se confirma em toda a sua obra e em toda a sua vida. E dizer que até hoje o acusam de místico, não no bom mas no mau sentido! Leia-se, a propósito: Vida e Obra de Allan Kardec, de André Moreil. (N. do Rev.)

Em suma, tendes conquistado, sem procurá-la, uma posição moral, que não há quem vo-la possa tirar, porque quaisquer trabalhos, que se façam depois de vós, ou concorrentemente convosco, não vos roubarão o título de fundador da Doutrina. Desde esse momento, possuís, portanto, de fato a tiara espiritual, isto é: a supremacia moral. Vedes pois que estou com a verdade. Credes agora um pouco mais nos sinais da mão?

— Menos que nunca, e estou convencido de que, se alguma coisa vistes, não foi na mão, mas em vosso próprio Espírito, o que vou prová-lo: admito na mão, como no pé, nos braços e nas demais partes do corpo, certos sinais fisiognomônicos; mas cada órgão apresenta sinais especiais, segundo o uso a que é destinado e suas relações com o pensamento; os sinais da mão podem ser os mesmos que os do pé, dos olhos, etc.

Relativamente às dobras interiores da mão, a sua maior ou menor acentuação é devida à natureza da pele e à maior ou menor abundância do tecido celular e como essas partes nenhuma relação fisiológica têm com os órgãos das faculdades intelectuais e morais, não podem ser-lhes a expressão. Admitindo mesmo esta relação, poderiam elas fornecer indícios sobre o estado presente do indivíduo: nunca, porém, serem sinais presságios de coisas futuras, nem de acontecimentos, que não dependem da sua vontade.

Na primeira hipótese, eu admitiria, em rigor, que, com o auxílio destas linhas, se pudesse dizer que uma pessoa possui essa ou aquela aptidão, essa ou aquela inclinação; o mais vulgar bom senso, porém, repele a idéia de se poder ver aí: se a pessoa foi casada, ou não, e quantas vezes, quantos filhos teve, se é ou não viúva, e outras coisas semelhantes, como pretende a maior parte dos quiromantes.

Entre as dobras da mão há uma bem conhecida de todos com a figura distinta de um M.; se ela é profundamente marcada, é, asseveram, presságio de vida desgraçada; mas a palavra Malheur é francesa e não nos esqueçamos de que as equivalentes nas diversas línguas não começam por aquela letra; donde se segue que aquelas linhas deviam tomar variadas formas em relação às diversas línguas.(101)

(101) Estas considerações sobre a Quiromancia provam mais uma vez o espírito positivo desse homem que tinha a paixão da pesquisa, segundo Richet reconheceu. Sua explicação do fenômeno da predição pela leitura das mãos é a que hoje sustenta a Parapsicologia. (N. do Rev.)

Quanto à tiara espiritual, é, evidentemente, uma idéia especial, excepcional, de algum modo individual, e estou convencido de que não achastes esta palavra no vocabulário de algum tratado de quiromancia. Como pois vos veio ela ao pensamento? Por intuição, por inspiração, por uma espécie de presciência inerente à dupla vista, que muitas pessoas possuem sem o saber.

A vossa atenção estava concentrada sobre as linhas da mão, aplicastes o pensamento a um sinal em que outra pessoa teria visto coisa diversa, ao qual vós mesmos teríeis atribuído uma significação diferente em outro indivíduo.(102)

(102) O problema da interpretação ou tradução consciente da percepção inconsciente é colocado nesta passagem nos termos exatos da conclusão parapsicológica atual. Kardec antecipou, há mais de um século, a posição a que chegariam os cientistas de hoje. (N. do Rev.)

Página Anterior

Copyright 2004 - LAKE - Livraria Allan Kardec Editora
(Instituição Filantrópica) Todos os Direitos Reservados