Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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Os Desertores

A coragem e a perseverança pode desfalecer diante de uma decepção, de uma ambição iludida, de uma preeminência não alcançada, do amor próprio ofendido, de uma prova difícil. Recuam diante do sacrifício da comodidade, temem comprometer os interesses materiais, receiam do que possam outros dizer, ficam desnorteados com uma mistificação. Não se deserta, mas esfria-se. Vivem para si, e não para os outros, querem o benefício da crença, mas desde que nada lhes custe. Os que assim procedem podem ser crentes; mas são crentes egoístas, a quem a fé não comunicou o fogo sagrado do devotamento e da abnegação. A sua alma custa a desapegar-se da matéria. Fazem número, mas não podemos contar com eles.

Os demais são espíritas dignos da denominação, aceitam todas as conseqüências da doutrina e caracterizam-se pelos esforços que fazem para melhorar.

Sem desprezarem, além do que é razoável, os interesses materiais, consideram-nos o acessório e não o essencial; a vida terrestre é para eles uma travessia mais ou menos penosa; do seu emprego útil ou inútil depende o seu futuro; as alegrias que dá são mesquinhas comparadas às que lobrigam adiante; não recuam diante dos obstáculos que encontram no caminho; as vicissitudes, as decepções são provas que não os desanimam, porque o repouso é o prêmio do trabalho. E por isso que não vemos no meio destes nem deserções, nem defecções.

Também os bons Espíritos protegem, visivelmente, os que lutam com perseverança e coragem, com devotamento sincero e sem pensamento reservado. Eles os ajudam a triunfar dos obstáculos e atenuam as provas, que não lhes podem evitar; ao passo que abandonam, não menos visivelmente, os que sacrificam a causa da verdade pela ambição pessoal.

Devemos incluir entre os desertores do Espiritismo os que se retiram por não concordarem com o nosso método muito lento ou muito rápido; pretendem alcançar mais cedo e em melhores condições o fim, a que nos propomos? Não, certamente, se os guia o desejo sincero de propagar a verdade. Sim, se os seus esforços tenderem somente a pô-los em evidência, a captarem a atenção pública para satisfazerem o seu amor próprio e interesse pessoal.

Tendes uma opinião, que não é a nossa. Não simpatizais com os nossos princípios. Nada prova que a verdade esteja convosco e não conosco.

Podeis divergir em ciência, mas fazei as vossas pesquisas, e nós faremos as nossas; o futuro mostrará quem teve razão.

Não temos a pretensão de ser os únicos capazes de fazer estudos sérios, úteis, e o que temos feito, outros poderão igualmente fazê-lo.

Os homens inteligentes reúnam-se conosco ou fora, e nós faremos as nossas; o futuro mostrará quem teve razão. Melhor, porque será sinal evidente de progresso, que aplaudiremos com todas as veras.

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