Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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Os Desertores

Certos indivíduos, mais perspicazes, lobrigaram o homem na criança que acabava de nascer e tiveram-lhe medo, como Herodes o teve ao menino Jesus. Não ousando atacá-lo de frente, suscitaram quem o sufocasse com abraços, quem lhe tomasse a máscara, a fim de introduzir-se por toda a parte, soprar astuciosamente a discórdia nos centros, espalhar sorrateiramente o veneno da calúnia, lançar o pomo da desavença, arrastar a excessos comprometedores, impelir a doutrina por sendas ridículas e odiosas e simular, depois, defecções.

Ainda há outros mais hábeis: pregam a união e semeiam a divisão, atiram destramente à arena questões irritantes e ofensivas, excitam os zelos de preponderância entre os diferentes centros. Seriam felizes se viessem levantar-se uns contra os outros, por questões de forma ou de substância, por eles suscitadas.

Todas as doutrinas têm tido o seu Judas e o Espiritismo não havia de ser a exceção. São espíritas de contrabando, que, entretanto, trazem alguma utilidade, porque ensinam ao verdadeiro espírita a prudência, a circunspecção e a não se fiar em aparências.

Em tese, é preciso desconfiar de entusiasmos muito calorosos, que são quase sempre fogos de palha, simulacros, calor do momento, que suprem as obras por palavras. A verdadeira convicção é calma, refletida, moderada; revela-se, como a verdadeira coragem, por obras, isto é, na firmeza, perseverança, e sobretudo na abnegação. O desinteresse moral e material é a legítima pedra de toque da sinceridade.

A sinceridade tem um cunho especialíssimo; reflete-se por modalidades mais fáceis de compreender que de definir. Sentimo-la por efeito da transmissão do pensamento, cuja lei o Espiritismo veio revelar-nos e cuja simulação é impossível, porque não se pode mudar a natureza das correntes fluídicas por elas projetada.

Erra grosseiramente quem acredita poder substituí-la pela baixa e servil lisonja, que não seduz senão as almas orgulhosas, é por esta mesma lisonja que as almas elevadas reconhecem a sua ausência.

Não há como substituir o calor pelo gelo.(80)

(80) Desde 1857 o Espiritismo já havia comprovado, através de métodos científicos, a realidade da telepatia e sua importante função nas relações humanas. A prova aí está, nessa referência de Kardec. Somente em meados deste século a Ciência fez a mesma comprovação. — É nosso o grifo do trecho acima, para chamar a atenção do leitor em virtude de sua significação doutrinária. (N. do Rev.)

Se passarmos à categoria dos espíritas propriamente ditos, ainda aí nos acharemos a braços com certas fraquezas humanas, das quais nem sempre a doutrina triunfa imediatamente. As mais difíceis de vencer são o egoísmo e o orgulho, as duas paixões originais do homem. Entre os adeptos convencidos, não há verdadeiramente deserções, porque aquele que desertasse por um motivo de interesse ou outro qualquer, não teria sido verdadeiramente espírita. Pode porém haver defecções.

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