Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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As Aristocracias

Viu claro, viu a falta de prestígio do poder, que a esmagava e, sentindo-se forte pelo número, aboliu os privilégios e proclamou a igualdade perante a lei.

Esse movimento marcou, em alguns países, o termo do reino da aristocracia de nascimento, que se tornou nominal e honorífica, porque não tem mais o poder de legislar.

Então, elevou-se novo poder: o do ouro, porque com o ouro se dispõe dos homens e das coisas. Foi um sol nascente, diante do qual se inclinaram, como outrora diante de um brazão ou de outro qualquer símbolo. O que se não concedia mais aos títulos, concedeu-se à fortuna e a fortuna teve os seus privilégios.

Começaram, depois, a perceber que, se para alguém fazer fortuna é necessário dispor de inteligência, não precisa tê-la quem adquire a riqueza por herança, sendo os herdeiros mais hábeis para gastar do que para ajuntar, e que, além disso, os meios de enriquecer não são sempre lícitos. Como conseqüência, o domínio do ouro vai, pouco a pouco, perdendo prestígio. Surge uma outra potência, outra aristocracia mais justa — a da inteligência, diante da qual todos podem inclinar-se sem se aviltar, porque ela pertence tanto ao rico como ao pobre. Será a última? É a mais alta expressão da humanidade civilizada?

Não.

A inteligência nem sempre é penhor de moralidade e o homem mais inteligente pode fazer mau uso das faculdades. Por outro lado, a simples moralidade pode não ter capacidade. É, pois, necessária a união da inteligência e da moralidade para haver legítima preponderância, a que a massa se submeterá, confiada em suas luzes e justiça. Será esta a última aristocracia, sinal do advento do reino do bem na Terra. Ela virá naturalmente, pela força dos acontecimentos, e quando os homens daquela categoria forem tão numerosos, que constituam uma imponente maioria, a massa popular lhes confiará os próprios interesses.

Como vimos, as aristocracias tiveram a sua razão de ser, nasceram do estado da humanidade no seu tempo; o mesmo será em relação àquela que tem de vir. Todas tiveram ou terão a sua época segundo os países, porque nenhuma se funda em princípio moral. Só este princípio pode constituir uma supremacia durável, porque será animada por sentimentos de justiça e caridade: supremacia que chamaremos aristocracia intelecto-moral.

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