Livro selecionado: "Obras Póstumas "

ÍNDICE

Página Anterior

Próxima Página

As Expiações Coletivas

Os franceses de hoje são, pois, os do século passado, os da Idade Média, os dos tempos druídicos; são os verdugos e as vítimas do feudalismo, os que escravizaram ou trabalharam pela libertação dos povos, que tornaram à França transformada, onde uns expiam, em humildes posições, o seu orgulho de raça, e outros gozam do fruto dos seus esforços.

Quando pensamos em todos os crimes daqueles tempos em que a vida dos homens e a honra das famílias eram tidas na mais vil conta, em que o fanatismo acendia fogueiras em honra da divindade; quando pensamos em todos os abusos do poder, nas injustiças cometidas com desprezo dos mais sagrados direitos: quem pode estar seguro de ter as mãos limpas e admirar-se de ver grandes e terríveis expiações coletivas?

Porém das convulsões sociais resulta sempre algum benefício; os Espíritos esclarecem-se pela experiência; a desgraça estimula-os a procurar remédios para os seus males; refletem na erraticidade, tomam novas resoluções e, quando voltam à Terra, procedem melhor. É assim que se faz o progresso de geração em geração.

Não podemos duvidar que haja famílias, cidades, nações, raças culpadas, porque, dominadas pelo orgulho, o egoísmo, a ambição, a avareza, seguem por mau caminho e fazem em comum o que faz, isoladamente, um indivíduo.

Uma família enriquece-se à custa de outra, um povo subjuga outro e plana em seu seio a ruína e a desolação, uma raça procura aniquilar outra, eis porque há famílias, povos e raças, sobre os quais pesa a pena de Talião.

"Quem com ferro fere, com ferro será ferido", disse Cristo. Estas palavras podem ser assim traduzidas: aquele que derramar sangue verá ser derramado o seu; aquele que levar o incêndio à casa do outro, verá ateado o incêndio na sua; aquele que roubar, será roubado; aquele que escravizar ou maltratar o fraco, será fraco, escravizado e maltratado; quer seja um indivíduo, uma nação ou uma coletividade, são solidários no bem como no mal feito em comum.

Ao passo que o Espiritismo alarga o campo da solidariedade, o materialismo a reduz às mesquinhas proporções da existência efêmera do homem, fazendo dela um dever social sem raízes, sem outra sanção além da boa vontade e do interesse pessoal do momento. É uma teoria, um preceito filosófico, sem resultado prático. Para o Espiritismo, porém, a solidariedade é um fato, que assenta numa lei universal da natureza, que liga todos os seres ao passado, ao presente e ao futuro, e a cujas consequências ninguém pode subtrair-se. Isto entra pela mente do mais ignorante.

Quando todos conhecerem o Espiritismo, terão perfeita idéia da verdadeira solidariedade e, por dedução, da verdadeira fraternidade. A solidariedade e a fraternidade não mais serão deveres de ocasião, invocados, muitas vezes, pelo interesse próprio, sem atenção ao de outrem.

O reino da solidariedade e da fraternidade será necessariamente o da justiça para com todos e o da justica será o da paz e da harmonia entre os indivíduos, as famílias, os povos e as raças. Chegaremos a ele? Duvidar seria negar o progresso.

Página Anterior - Próxima Página

Copyright 2004 - LAKE - Livraria Allan Kardec Editora
(Instituição Filantrópica) Todos os Direitos Reservados