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A Vida Futura

Agora as noções vagas da vida futura estão abaixo do espírito humano e não correspondem às necessidades criadas pelo progresso, com o desenvolvimento das idéias; tudo em torno do homem deve progredir, porque tudo se liga, tudo é solidário em a natureza: ciências, crenças, cultos, legislação, meios de ação. O movimento para diante é irresistível, porque é a lei da existência dos seres. Tudo o que ficar atrás, abaixo do nível social, será posto de lado, como trajes usados, e por fim será levado pela onda que cresce. Assim não passavam de pueris as idéias, com as quais os nossos avoengos se contentavam, acerca da vida futura; querer pois alguém impô-las ainda hoje é provocar a incredulidade.

Para ser aceita pela opinião e para exercer influência moralizadora, a vida futura deve apresentar-se como coisa positiva, quase tangível, capaz de suportar o exame; deve satisfazer à razão, sem lhe deixar sombra de dúvida. E no momento em que a deficiência de noções sobre o futuro abre a porta à dúvida e à incredulidade, que novos meios de investigação são facultados ao homem para penetrar esse mistério e fazer-lhe compreender a vida futura em sua realidade, em seu positivismo, em suas relações íntimas com a vida corpórea.

Por que tão pouco se cuida daquela vida? Entretanto ela é uma atualidade, pois que se vê, em cada dia, partirem para aquele destino desconhecido milhares de criaturas. E tendo cada um de nós de partir fatalmente, podendo soar a todo o instante a hora da partida, é natural cuidar-se do que será depois dela. Por que não se cogita então disto? Simplesmente porque é desconhecido e não se teve, até agora, meio de conhecê-lo.

A ciência inexorável veio afastá-la dos lugares em que a havia colocado. Está perto? Está longe? Perde-se no infinito?

As filosofias do passado não respondem, porque não sabem. Então limitam-se a dizer: "Será o que for"; daí proveio a indiferença.

Ensinam que o homem será feliz ou desgraçado, conforme viver bem ou mal. Mas isso é tão vago! Em que consiste, na verdade, essa felicidade ou essa desgraça? O quadro, que nos sintam, quer de uma, quer de outra, está tão em desacordo com a idéia que fazemos da justiça divina, aparece semeado de tantas contradições, inconseqüências e impossibilidades radicais, involuntariamente, que somos assaltados pela dúvida, quando não caímos na incredulidade absoluta. Podemos então dizer: assim como erraram, quando localizaram a futura morada das almas, também se enganaram acerca das condições da felicidade e do sofrimento futuros. Como viveremos nesse mundo desconhecido? Teremos uma forma, uma aparência? Se lá não possuímos corpo, como termos sofrimentos físicos? Se os felizes nada fazem, a perpétua ociosidade, em vez de recompensa, lhes será um suicídio, a não ser que aceitem o nirvana do Budismo, que não é mais desejável.

O homem só se ocupará da vida futura quando vir nela um fim nitidamente definido, uma situação lógica, respondendo às suas aspirações, resolvendo as dificuldades do presente, quando não encontrar aí o que a razão não possa aceitar.

Se se preocupa com o dia de amanhã é porque esse dia se liga intimamente à vida de hoje; entre um e outro há perfeita solidariedade; do que se faz hoje, depende a posição de amanhã e do que se fizer amanhã dependerá a do dia seguinte; e assim por diante.

Assim deve ser para ele a vida futura, quando esta não mais se perder nas nuvens da abstração, mas for uma atualidade palpável, o complemento necessário da vida presente, uma das fases da vida geral, como os dias são fases da vida corpórea; quando vir o presente agir sobre o futuro, por força natural e principalmente quando compreender a reação do futuro no presente; quando, em uma palavra, vir o passado, o presente e o futuro encadearem-se por inexorável necessidade, como os dias de ontem, de hoje e os de amanhã na vida atual: então as suas idéias mudarão completamente, porque verá na vida futura não somente um alvo, mas também um meio, não um efeito remoto, mas atual. Então essa crença exercerá forçosamente e, por conseqüência natural, uma ação preponderante no estado social e na moralidade.(70)

É sob esse aspecto que o Espiritismo nos faz encarar a vida futura.

(70) A expressão: não apenas um alvo, mas um meio, pode parecer estranha, pois o alvo é evidentemente mais importante que o meio. Kardec refere-se ao fato de, nas religiões antigas, a vida futura ser apresentada dogmaticamente como um fim definitivo para a alma. No Espiritismo, com o princípio da evolução e consequentemente da reencarnação, a vida futura se desdobra em numerosas fases, em sucessivos estágios de encarnação e vida espiritual. Deixa assim de ser um alvo definitivo e passa a ser apenas o meio para se atingir o alvo. Mas o alvo, por sua vez, se engrandece e passa a exercer influência maior sobre os homens e a sociedade. (N. do Rev.)

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