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A Vida Futura

Convém ainda notar que, em qualquer grau de incredulidade, os homens de certa condição social são contidos por considerações humanas. A sua posição obriga-os a seguir uma norma de vida muito reservada. O que eles mais receiam é a desconsideração e o desprezo que, fazendo-os perder a posição que ocupam, os privam dos gozos, que são o seu regalo. Se não têm um fundo de virtudes, procuram parecer que o têm.

Aqueles porém que nenhuma razão possuem para respeitar a opinião pública, que zombam dela — e convir-se-á que não são poucos —, que freio poderá contê-los nos excessos das paixões brutalizantes e dos apetites grosseiros? Em que base apoiar a teoria do bem e do mal, a necessidade de reformar os maus instintos, o dever de respeitar o que é dos outros, quando nada possuem? Qual o ponto de honra para homens que se persuadem de que não passam de puros animais?

A lei, afirmam-no, os há de conter; mas a lei não é código de moral, que afete o coração; é uma força, a que se submetem e de que, quando o podem, escapam; se incorrem nos rigores dela, foi isso um insucesso ou uma imbecilidade, que procuram emendar na primeira ocasião. Aqueles que pretendem que mais merecem os incrédulos que fazem o bem, sem esperança de uma recompensa na vida futura, inexistente, aliás, para eles, sofismam sem nenhum viso de razão. Os crentes também dizem que é menos meritório o bem praticado com vistas nas vantagens futuras. Vão ainda mais longe; estão persuadidos de que o mérito pode ser completamente anulado, conforme o móvel que determinar o ato.

A perspectiva da vida futura não exclui o desinteresse das boas ações, porque a felicidade, que elas nos facultam, é subordinada ao grau de progresso moral. Ora os orgulhosos e ambiciosos, embora façam boas ações, são os menos aquinhoados. E serão tão desinteressados, como pretendem, os incrédulos que fazem o bem? Se nada esperam do outro mundo, não esperam alguma coisa deste? O amor próprio não toma parte nisso? São insensíveis aos aplausos dos homens? Seria este um raríssimo grau de perfeição e acreditamos que bem poucos são a eles impelidos exclusivamente pelo culto da matéria.

Mais séria é esta objeção: se a crença na vida futura é um elemento moralizador, por que é que os homens, a quem é ensinada desde que nascem, são maus? Em primeiro lugar, é preciso saber se eles não seriam piores sem aquela crença, e isto parece indubitável, pesando-se devidamente os resultados inevitáveis do niilismo universalizado. Em segundo lugar, não se vê, observando os diferentes graus da escala humana, desde a selvageria até à civilização, caminharem de frente o progresso intelectual e moral, melhoramento dos costumes e a mais clara idéia da vida futura? Esta idéia, porém ainda muito imperfeita, não pode exceder a influência, que necessariamente exercerá, à medida que fôr sendo melhor compreendida e que se adquiram noções mais justas a respeito do futuro que nos está reservado.(69)

(69) O paralelismo desse desenvolvimento: o intelectual, o moral e o da concepção racional da supervivência resulta da observação histórica e da pesquisa sociológica. Kardec acrescenta uma contribuição importante: a influência dessa concepção na ordem social depende do seu aprimoramento e da sua melhor compreensão através do tempo. (N. do Rev.)

Por mais firme que seja a crença na imortalidade, o homem não se preocupa da alma senão no ponto de vista místico. A vida futura, pouco claramente definida, só vagamente o impressiona; é um ponto que se perde no espaço e não um meio, porque o destino lhe está irrevogavelmente fixado, e nunca lhe foi apresentado como progressivo, concluindo-se então que o homem será, por toda a eternidade, o que era, quando daqui partiu. Além disso, os quadros que se desenham, as condições que se impõem para a felicidade ou para a desgraça, estão longe de satisfazer de modo completo à razão, principalmente num século de exame, como é o nosso. Ela não se liga muito diretamente à vida terrestre; entre as duas não há solidariedade, mas um abismo; de maneira que quem se preocupa com exclusividade de uma, perde necessariamente de vista a outra.

Sob o domínio da fé cega, bastava às inspirações humanas a crença abstrata; os homens se deixavam levar. Hoje, porém, no regime do livre exame, eles querem dirigir-se por si mesmos, ver com os próprios olhos e compreender.

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