Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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A Estrada da Vida

Aparece-lhe então um velho, que lhe fala assim:

— Filho, eis-te no termo da viagem; mas o repouso indefinido causar-te-ia brevemente mortal enjôo e far-te-ia ter saudades daquelas vicissitudes porque passastes e que davam atividade ao corpo e à alma. Vês daqui um sem número de viajantes no caminho que percorreste, os quais, como tu, correm o perigo de perder-se. Tens a experiência, nada mais temes; vai procurá-los e esforçar-te por guiá-los com os teus conselhos, a fim de que cheguem mais cedo.

— Com sumo gosto — responde o homem — mas qual a razão de não haver um caminho reto do ponto de partida até aqui? Isso pouparia aos viajantes o incômodo de atravessar aquelas abomináveis florestas.

— Filho — torna-lhe o velho — pensa bem e verás que muitas são as pessoas que as evitam; aquelas que, tendo já adquirido a necessária experiência, sabem escolher um caminho mais direto e mais curto; essa experiência, porém, é o fruto do trabalho durante as primeiras travessias, de maneira que eles não vêm ter aqui senão por obra de seus méritos.

Que seria de ti se não houvesse experimentado? A atividade que precisaste desenvolver, os recursos de imaginação que te foram precisos para abrires o caminho, aumentaram-te os conhecimentos e desenvolveram-te a inteligência. Sem isto ainda serias tão insciente como no dia da partida. E, ainda, esforçando-te por vencer os impecilhos, contribuistes para o melhoramento das florestas, que atravessastes. O que fizeste é pouco, é imperceptível; mas pensa nos milhares de viajantes que têm feito outro tanto e que, trabalhando para si, trabalham sem que o saibam, pelo bem comum. Justo é que recebam o salário do trabalho, no descanso que aqui gozam. Que direito haveriam a esse descanso se nada tivessem feito?

— Meu pai — responde-lhe o viajante — em uma destas florestas encontrei um homem, que me disse: "Há ali um abismo, que é preciso vencer de um salto; mas, entre mil viajantes, só um o transpõe, os outros caem no fundo duma fornalha ardente e ficam perdidos sem remissão". Eu, porém, não vi tal abismo.

— Não existe o abismo, meu filho; a não ser assim, seria uma cilada abominável armada aos viajantes, que vêm à minha casa. Bem sei que muitas são as dificuldades por vencer; mas sei também que cedo ou tarde as vencerão.

— Se eu tivesse criado impossibilidades para um só homem que fosse, sabendo que ele sucumbiria, teria praticado uma crueldade; quanto mais se as tivesse criado para tantos. Esse abismo é uma alegoria, cuja explicação vou dar-te. Olha para a estrada, no intervalo das florestas; entre aqueles que por ela transitam vês uns que marcham lentamente com ar alegre, vês aqueles amigos que se perderam de vista no labirinto, como são felizes de se encontrarem na saída; mas, ao lado deles há outros que se arrastam penosamente; estão estropiados e imploram a piedade dos transeuntes, porque sofrem cruelmente das feridas que, por culpa sua, fizeram através dos espinhais; serão curados e isto lhes servirá de lição para quando tiverem de atravessar nova floresta, da qual sairão menos contundidos.

— O abismo é a figura dos males que sofrem, e dizendo que em mil só um o vence, o homem teve razão, porque infinito é o número dos imprudentes. Claudicou porém ao afirmar que uma vez caído, ninguém logra sair daquele báratro. Há sempre uma saída para aqueles que querem vir a mim. Vai, meu filho, vai ensinar a saída aos que estão no fundo do poço; vai alentar aqueles que se estão ferindo no trajeto, vai ensinar o caminho àqueles que estão atravessando a floresta.(60)

A estrada é a figura da vida espiritual da alma, em cujo percurso o viajante é mais ou menos feliz; as florestas são as existências corpóreas, em que ele trabalha no próprio e no geral progresso; se alcançou o termo da viagem e volta para ajudar aqueles que ficam para trás, que ainda se debatem, é o anjo da guarda, missionário de Deus, em cuja presença encontra felicidade, como a encontra também na atividade, na prática do bem e na obediência ao Supremo Senhor.

(60) Esta imagem das florestas sucessivas é um recurso didático de Kardec servindo-se da sua experiência de professor. Assim como o mito do véu no O Livro dos Espíritos (item 222) lembra o mito da caverna em A República de Platão, esta imagem das florestas lembra a selva oscura de Dante logo no início da Divina Comédia: Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi ritrovai per una selva oscura / chi la diritta via era smarrita. Ou seja: Em meio ao caminho da nossa vida / encontrei-me numa selva escura / que perdida ficara a via certa. Note-se o dogma da perdição em perfeita consonância nos dois trechos, mas em Kardec explicado como perdição temporária.

Certamente este trabalho de Kardec havia sido escrito para posterior publicação da Revista ou numa dessas brochuras didáticas de que ele se servia para divulgar os princípios doutrinários entre o povo. Válido hoje e sempre, um trabalho como este deve ser melhor aproveitado em pequenos livros ilustrados. Note-se a feliz representação das religiões tradicionais no homem que, em meio de uma floresta, adverte o caminhante quanto à existência do abismo de perdição eterna. O aviso é oportuno, mas contém um erro que só posteriormente vai ser esclarecido. (N. do Rev.)

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