Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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A Estrada da Vida

Pode objetar-se, perguntando: que proveito se colhe das existências anteriores, uma vez que se não tem consciência das faltas cometidas? O Espiritismo responde, primeiramente, que a lembrança das existências desgraçadas, acumuladas às misérias da vida presente, tornaria esta ainda mais penosa. Foi, pois, um excesso de sofrimento que Deus nos quis poupar. Se assim não fora, qual seria, muitas vezes, a nossa humilhação, tendo presente o que fomos! Quanto ao proveito, inútil é, para melhorarmos, aquela lembrança. Em cada existência damos alguns passos para diante, adquirimos algumas qualidades e despojamo-nos de imperfeições. Cada uma delas é, pois, um novo ponto de partida, em que somos o que nós tivermos feito, em que atendemos ao que somos, sem cuidar do que fomos.

Se, numa existência anterior, fomos antropófagos, que nos importa saber, se já não o somos? Se tivemos uma falta qualquer, de que nos não resta mais sinal, vale isto por questão terminada, de que não temos mais necessidade de tratar. Suponhamos, pelo contrário, que tivemos uma falta, de que só nos corrigimos em parte; certamente, o resto não combatido nos acompanhará na nova existência, em que nos poderemos corrigir. Tomemos um exemplo. Um homem foi assassino e ladrão; castigado na vida corpórea, e na espiritual, arrependeu-se e corrigiu-se do primeiro arrastamento, mas não do segundo; na seguinte existência será somente ladrão, talvez um grande ladrão, mas não um assassino; mais um passo, ele não será mais senão um fraco ladrão; ainda mais, e já não roubará, embora ainda sinta o desejo, que a consciência lhe combate; um último esforço, e tendo desaparecido todo o sentimento do vício, será um modelo de probidade. De que lhe serve para isso saber o que foi? A lembrança de ter acabado no cadafalso não lhe serviria senão de tortura e de humilhação perpétuas. Aplicai este raciocínio a todos os vícios, a todos os erros e reconhecereis que a alma se aperfeiçoa passando pelo cadinho das encarnações.

Não será mais digno da soberana justiça entregar o Senhor ao homem o seu próprio destino, só dependente dos esforços que fizer por melhorar, do que criar uma alma ao mesmo tempo que o corpo, condená-la a tormentos eternos, por erros passageiros, sem lhe dar os meios de correção?

Pela pluralidade das existências, o seu futuro está nas próprias mãos; se gasta muito tempo em melhorar, sofre as conseqüências da demora; é a suprema justiça; mas a esperança nunca o deixa. A seguinte comparação nos faz melhor compreender as peripécias da vida da alma. Suponhamos uma longa estrada, em cujo percurso se encontram, de distância em distância, mas com intervalos desiguais, florestas que é preciso atravessar. Na entrada de cada floresta, a estrada larga e bela é interrompida e só na saída é que continua.

Um viajante segue por aquela via e chega à primeira floresta; aí, porém, não encontra caminho, mas um décalo, onde se perde. A claridade do sol não penetra a espessa abóbada formada pelas árvores; ele caminha sem rumo; porém, afinal, depois de inauditas fadigas, chega aos confins da mata, mas chega alquebrado pelo cansaço, com as carnes rasgadas pelos espinhos, os pés feridos pelas pedras. Ali torna a encontrar o caminho e a luz, e prossegue em sua marcha tratando de curar-se das feridas. Mais longe depara com a segunda floresta, onde o esperam as mesmas dificuldades; já tem, porém, um pouco de experiência e rompe o matagal sem ferir-se muito. Noutra, encontra um lenhador, que lhe indica a direção a seguir e o impede de perder-se.

Daí por diante, aumenta a sua habilidade, os obstáculos são mais facilmente vencidos e, seguro de encontrar na saída o caminho desbravado, alenta-se com esta confiança. Finalmente, já possui a precisa orientação para achá-lo. O caminho termina no cume de alta montanha, de onde ele distingue toda a caminhada que fez, desde o ponto de partida, assim como vê as florestas que atravessou e recorda as vicissitudes porque passou. Essa recordação, porém, não lhe é penosa, visto como já chegou ao fim da viagem; é como o velho soldado que, na calma do lar doméstico, recorda as batalhas a que assistiu.

As florestas esparramadas pelo caminho são para ele pontos negros numa fita branca; diz: — "Quando estava ali, principalmente na primeira, como me pareciam longas! Parecia-me que não chegava ao fim; tudo era gigantesco e inextricável em torno de mim. E quando penso que, sem aquele bom lenhador que me ensinou o caminho, ainda andaria hoje por lá! Mas agora, que as contemplo daqui, como me parecem pequenas aquelas florestas, tão pequenas, que me bastariam alguns passos para as poder atravessar! E quanto mais as contemplo e lhes reparo nas minúcias, mais falso me parece o juízo que fiz delas".

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