Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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A Música Espírita

O compositor, que concebe a harmonia, a traduz na linguagem grosseira que se chama música, condensa a idéia e a escreve. O artista aprende a forma e toma o instrumento, que lhe permite representar a idéia. O ar, posto em movimento pelo instrumento, leva-a aos ouvidos que a transmitem à alma. Mas o compositor é impotente para exprimir completamente a harmonia que concebe, pela insuficiência da linguagem de que dispõe o executor, e igualmente não pode compreender toda a idéia escrita, assim como o instrumento indócil, de que se serve, lhe não permite traduzir tudo o que compreendeu. O ouvido é impressionado pelo ar grosseiro do ambiente e a alma recebe, por um órgão rebelde, a péssima tradução da idéia, que borbulhou na do maestro. Esta era o seu sentido íntimo e, embora descorada pelos agentes da instrumentação e da percepção, ainda produz sensações nos que a ouvem traduzir. Estas sensações são a harmonia. A música é que as produz e elas são o seu efeito.

A música põe-se ao serviço do sentimento para produzir a sensação. O sentimento, no compositor, é a harmonia; a sensação do ouvinte, é também a harmonia, com a diferença de ser concebida por um e recebida por outro.(57)

(57) Este trecho é uma das mais precisas colocações do problema da imperfeição da matéria e consequentemente do nosso mundo. Essa imperfeição é relativa, sempre em confronto com a perfeição do espírito. Mas seria difícil explicá-la mais claramente do que o faz o Espírito através das comparações estabelecidas no plano da música. Podemos assim compreender, de maneira mais profunda, porque a música espiritual tem de ser naturalmente muito mais perfeita que a terrena. As pessoas que criticam a banalidade das comunicações espíritas, considerando apenas as mensagens de Espíritos pouco evoluídos, certamente desconhecem as grandes mensagens que, como estas de Rossini, abrem novas perspectivas ao conhecimento. (N. do Rev.)

A música é o médium da harmonia; ela recebe e transmite, como o refletor é o médium da luz, como tu és o médium dos Espíritos. Ela transmite mais ou menos descorada, conforme é bem ou mal executada, como o refletor transmite a luz mais ou menos viva, conforme o seu brilho e como o médium transmite, mais ou menos fielmente, os pensamentos nos Espíritos, segundo a sua passividade.

E agora, que já deve ter sido bem compreendida a harmonia; que já se sabe ser ela concebida pela alma e transmitida à alma, é fácil conhecer a diferença, que vai da vossa para a do espaço. Aí, na Terra, tudo é grosseiro; o instrumento de tradução e o de percepção; aqui, no espaço, tudo é sutil; vós tendes o ar, nós o éter; vós o órgão que obstrui e encobre, nós a percepção direta, que a colhe pura. Aí o autor precisa de tradutor; aqui dispensa intermediário e fala numa língua, que exprime todas as concepções. E, no entanto, ambas procedem da mesma origem, como a luz da Lua tem a mesma que a do Sol.

A harmonia da Terra é o reflexo da do espaço e é tão indefinível como a felicidade, o medo, a cólera; é um sentimento. Para compreendê-lo, é preciso possuí-lo e para possuí-lo cumpre tê-lo adquirido.

O homem alegre não sabe explicar a alegria, o medroso não sabe explicar o temor. Podem dizer o que lhes causou estes sentimentos, mas não sabem explicá-los. O fato que causa a alegria de um, não a produz em outro; o objeto que provoca medo a um, pode despertar noutro a coragem. As mesmas causas produzem efeitos desiguais, ao contrário do que se dá em física, mas de conformidade com o que se dá em metafísica. Assim acontece porque o sentimento pertence à alma e as almas diferem em sensibilidade, impressionabilidade e liberdade.

A música, causa secundária da harmonia percebida, impressiona e provoca o transporte em determinadas almas, mas encontra outras frias e indiferentes. É que as primeiras estão em estado de receber a impressão que produz a harmonia e as outras, não; ouvem os sons do ar vibrado, mas não compreendem a idéia neles encerrada. Estes sentem tédio e dormem enquanto aquelas se entusiasmam e choram.

Evidentemente, o homem que aprecia as maravilhas da harmonia é mais elevado e apurado do que aquele que não pode concebê-la. A sua alma, mais apta para sentir, desprende-se mais facilmente, e a própria harmonia ajuda-a a desprender-se. Ela transporta-a em suas asas e permite-lhe ver melhor o mundo moral. De tudo isso se deve concluir que a música é essencialmente moralizadora por levar a harmonia ao seio das almas, que por ela se elevam e engrandecem.

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