Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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A Música Espírita

Não tentarei explicar os efeitos musicais que o Espírito provoca quando atua no éter. É certo, porém, que o Espírito provoca os sons que quer, mas não pode querer o que não sabe.

Portanto aquele que muito já compreende, que possui a harmonia e dela está saturado, que se regozija com o seu íntimo sentido; — este nada impalpável, esta abstração, que é a concepção da harmonia, — atua, quando quer, no fluido universal, que facilmente reproduz o que ele concebe e quer. Sob a ação da vontade, o éter vibra a harmonia, que o Espírito traz em si, concretiza-se por assim dizer, e exala-se doce e suave, como o perfume da violeta, ou ruge como a tempestade, produz o estampido do raio, ou sussurra como a brisa.

A harmonia é rápida como o relâmpago, ou lenta como a nuvem; entrecortada, como um suspiro, ou compacta como um prado de relva; precipitada como a catadupa, ou plácida como um lago; murmurante como o ribeiro, ou marulhosa como a torrente.

As vezes tem a aspereza agreste das montanhas, outras a frescura amena de um oásis; é sucessivamente triste e melancólica, como a noite, alegre e prazenteira qual o dia; é caprichosa como a criança e protetora como um pai; desordenada qual a paixão, límpida qual o amor e grandiosa como a natureza. Quando toca a este ponto, confunde-se com a súplica, glorifica a Deus e arrebata a quem a produz ou concebe.

Comparação! Comparação! Por que somos obrigados a empregar-te? Pela simples razão de precisarmos recorrer à natureza tangível, para pedir-lhe as grosseiras imagens, único meio de conceber-se a sublime harmonia, em que se deleita o espírito. E, apesar das comparações, mal se pode fazer compreender essa abstração, que é um sentimento, quando é causa, e sensação, quando é efeito.

O Espírito, que tem o sentimento da harmonia, é como o que tem o maior grau de saber; goza incessantemente da riqueza, que amontoou. O homem inteligente, que ensina a ciência aos que a ignoram, sente a felicidade de ensinar, porque sabe que faz felizes os que instrui. O que faz ressoar o éter, produzindo os acordes harmoniosos, que tem em si, sente a felicidade de ver satisfeitos os que o escutam.

A harmonia, a ciência e a virtude são as três grandes concepções do Espírito: a primeira enleva-o, a segunda esclarece-o, a terceira eleva-o. Quem as possui em sua plenitude tem a pureza que resulta da união das três.

Espíritos puros, que tendes a excelsa felicidade, descei às nossas trevas e esclarecei-nos o caminho: mostrai-nos a via que trilhastes para que possamos também segui-la.(56) Quando penso que esses Espíritos, cuja existência já posso compreender, são seres infinitos, átomos em face do Senhor universal e eterno, a razão se me ofusca, pensando na grandeza de Deus e na felicidade infinita que Ele tem em si mesmo, pelo fato da sua pureza infinita; pois que tudo o que a criatura adquire são parcelas que emanam do Criador. Ora se esse átomo pode fascinar pela vontade, pode arrebatar pela suavidade e deslumbrar pela virtude, quanto deverá produzir a eterna e infinita fonte de onde emana? Se o Espírito, ser criado, pode haurir em sua pureza tanta felicidade, que idéia deve fazer-se de que haure o Criador em sua pureza absoluta? Eterno problema!

(56) Às três virtudes teologais — Fé, Esperança e Caridade — Rossini acrescenta a tríade cultural: Harmonia, Ciência, Virtude. Mas o curioso é que essa tríade druídica se resolve dialeticamente numa síntese superior: a Pureza. Não há dúvida que essa proposição corresponde à linha conceptual da Doutrina Espírita. Se no Paganismo a pureza era de natureza física e no Cristianismo se tornou espiritual, no Espiritismo aparece como evolutiva, ou seja, o resultado do processo de desenvolvimento do Espírito, abrangendo todo o campo da consciência, onde se refletem as experiências da mente, da afetividade e da volição. Grifamos esse trecho pela sua inegável importância teórica e para ele chamamos especialmente a atenção dos leitores. (N. do Rev.)

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