Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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A Música Espírita

Hoje ainda é cedo. O assunto é vasto: já o estudei, mas ainda excede a minha compreensão. Quando for mestre, se chegar a sê-lo, ou antes, quando já tenha compreendido, tanto quanto o permitir o estado do meu Espírito, satisfazer-vos-ei; esperai, portanto, um pouco mais.(55)

(55) O Espiritismo veio abrir na Terra uma nova era. Todas as atividades humanas serão influenciadas pelos seus princípios, pela visão nova do mundo e da vida que ele nos oferece. Assim como o Cristianismo reformou o mundo em todos os sentidos e criou uma nova arte, uma nova estética, assim também fará o Espiritismo, continuando a revolução cristã segundo a promessa de Jesus sobre a vinda do Espírito da Verdade. Sob a influência do Cristianismo nascente surgiu no mundo uma nova Música. Ao Espiritismo cabe a segunda fase da renovação cristã da Música. Rossini assinala bem a importância e a complexidade desse fenômeno cultural e adverte que ainda era "cedo demais", no tempo de Kardec, para tratar-se do problema com a devida eficiência. Podemos acentuar que ainda hoje é cedo, pois a era espírita se encontra apenas no início do seu segundo século. Mas já vemos por toda parte os sinais de uma renovação artística que só poderá completar-se nos próximos séculos. (N. do Rev.)

Se só o músico pode falar da música do futuro, cumpre-lhe fazê-lo magistralmente, e Rossini não quer fazê-lo como estudante.

Rossini (Médium, Sr. Desliens)

O silêncio que guardei acerca da questão proposta pelo Mestre da doutrina espírita, já o expliquei. Era preciso, antes de aflorar o difícil assunto, que me recolhesse, procurasse recordar-me e condensasse os elementos que estavam à mão.

Eu não tinha de estudar música, mas somente classificar os argumentos com método, a fim de apresentar um resumo capaz de dar exata idéia do modo como compreendo a harmonia. Este trabalho, que me foi bem difícil, está feito e hoje venho submetê-lo à apreciação dos espíritas.

É difícil definir o que seja a harmonia; muitas vezes a confundem com a música, com os sons resultantes de um arranjo de notas e das vibrações de instrumentos que reproduzem aquele arranjo. A harmonia, porém, não é isto, assim como a chama não é a luz. A chama provém da combinação de dois gases e é tangível. A luz que projeta é um efeito daquela combinação e não a chama; não é tangível. Aqui o efeito é superior à causa.

É o mesmo com relação à harmonia, que resulta de um arranjo musical; é um efeito igualmente superior à causa. A causa é material e tangível, o efeito é sutil e intangível. Pode conceber-se a luz sem chama, bem como harmonia sem música.

A alma é apta para perceber a harmonia, independentemente do concurso de instrumentos, como o é para ver a luz, independentemente de combinações materiais. A luz é um sentido íntimo da alma; quanto mais desenvolvido está, mais ele percebe a luz. A harmonia é igualmente um sentido íntimo da alma, por ela percebida na razão do desenvolvimento desse sentido.

Fora das coisas tangíveis, a luz e a harmonia são de essência divina; têm-se tanto mais, quanto mais esforços se empregam para que sejam adquiridas. Se as comparo, é para melhor fazer-me compreender e também porque estes dois sublimes gozos da alma são filhos de Deus, e, conseguintemente, irmãos.

A harmonia do espaço é muitíssimo complexa: muitos graus eu já conheço, mas quantos ainda me escapam no éter infinito! Aquele que estiver colocado em certo plano de percepções fica extasiado ao ouvir estas diversas harmonias, que, se estivessem reunidas, constituiriam a mais insuportável cacofonia; ao passo que, percebidas separadamente, constituem a harmonia particular a cada grau.

Essas harmonias são elementares e grosseiras, nos graus inferiores; mas levam ao êxtase, nos graus superiores. A que não agrada a um Espírito, cujas percepções são sutis, agrada a outros, que as têm, grosseiras. E quando é dado a um Espírito inferior apreciar as maravilhas das harmonias superiores, toma-o o êxtase e entra-lhe na alma a prece. O entusiasmo arrebata-o às esferas elevadas do mundo moral e ele vive uma vida superior à sua, desejando continuar a viver sempre assim. Quando, porém, deixa de afagá-lo aquela harmonia, ele desperta, ou, antes, dorme; em todo o caso desce à realidade da sua situação e, sentindo-se pesaroso, eleva ao Senhor uma prece, pedindo forças para tornar a subir, o que serve para estimulá-lo.

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