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A Teoria do Belo

Não transcrevemos senão as duas seguintes, que foram as mais desenvolvidas:

Paris, 4 de fevereiro de 1869 (Médium Sra. Malet).

Pensastes bem; a origem primordial de toda a bondade e de toda a inteligência é também a de toda a beleza. O amor gera a perfeição de todas as coisas, sendo ele mesmo a perfeição. O Espírito é votado à conquista desta perfeição: a sua essência e o seu destino. Deve pelo trabalho aproximar-se da inteligência soberana e da infinita bondade; deve revestir, progressivamente, a forma mais perfeita, que caracteriza os seres perfeitos. Se, em vossas pobres sociedades, em vossos globos ainda mal equilibrados, a espécie humana está muito longe da beleza física, isto procede de ser aí ainda rudimentar a beleza moral.

A conexidade entre as duas é um fato certo, lógico, e de que a alma tem, desde aí, a intuição.

Realmente, sabeis quanto é penoso o aspecto de uma bela fisionomia desmentida pelo caráter. Se ouvirdes falar de uma pessoa de grande mérito, dar-lhe-eis, pela imaginação, traços simpáticos, e sofreis decepção à vista de uma cara, que vos contradiz as previsões. Que concluir daí? Que, como de tudo quanto o futuro oculta, a alma tem a presciência da beleza, a medida que a humanidade progrida e se aproxima do tipo divino.

Não tireis argumentos contrários a esta afirmação da aparente decadência da vossa mais adiantada raça. Sim, é verdade, a espécie parece degenerar, abastardar-se; as enfermidades vos afligem antes da velhice, a infância mesma sofre moléstias, que não pertencem, habitualmente, senão a outra idade da vida; mas isto é uma transição. A vossa época é má — ela fecha e abre; fecha um período doloroso, e abre uma era de regeneração física, de progresso moral e intelectual.

A raça nova, de que já falei, terá mais faculdades, mais instrumentos ao serviço do Espírito; será maior, mais forte, mais bela. Desde o princípio pôr-se-á em harmonia com as riquezas da criação, que a vossa raça descuidosa e fatigada desdenha ou ignora. As grandes coisas, que tiverdes feito, ela aproveitará, e marchará nas vias das invenções e do aperfeiçoamento, com febril ardor e um poder ora desconhecido. Mais adiantados, também, em bondade, os vossos descendentes farão o que não soubestes fazer: farão desta terra desgraçada um mundo de felicidade, onde o pobre não será mais repelido e desprezado, mas protegido por instituições largas e liberais. Já desponta a aurora dessa mudança; a luz não tardará a vir.

Amigos, aproxima-se, enfim, o dia em que a luz brilhará nessa terra escura e miserável, em que a raça humana será boa e bela, segundo o progresso conquistado, em que o sinal posto na fronte do homem não será mais o da reprovação, mas um sinal de alegria e esperança. Então uma multidão de Espíritos adiantados virá tomar lugar entre os colonos dessa terra, onde eles se acharão em maioria, e tudo cederá diante deles. Este renovamento far-se-á e a face do globo se transformará, porque a nova raça será grande e poderosa, e a hora da sua vinda será o começo da era de felicidade.

Panfílio.

Paris, 4 de fevereiro de 1869.

O belo, sob o ponto de vista puramente humano, é uma questão bem discutível e assaz discutida.

Para bem a conhecermos, é preciso que a estudemos como amador desinteressado; o entusiasta não pode ter voto no capítulo. Também entra em linha de conta, nesta apreciação, o gosto de cada um. Não é belo, realmente belo, senão o que o é sempre e para todos; e esta beleza eterna, infinita, é a manifestação divina sob os seus aspectos incessantemente variados; é Deus em suas obras, em suas leis! Eis a única beleza absoluta. Essa é a harmonia das harmonias — e faz jus ao título de absoluta, porque não pode conceber-se maior beleza.

Quanto ao que, por convenção, se chama belo, e que é realmente digno de ser assim qualificado, cumpre não o considerar senão como relativo, porque pode sempre conceber-se coisa mais bela e mais perfeita.

Só há uma beleza e uma perfeição: é Deus. Fora dele, tudo o que decoramos com aquele título, não passa de pálido reflexo do belo único: uma forma harmoniosa das mil e uma harmonias da criação.

Há tantas harmonias quanto os objetos criados, outros tantos tipos de beleza, determinando o ponto culminante da perfeição, que pode alcançar uma das subdivisões do elemento animado.

A pedra é bela e diversamente bela; cada espécie mineral tem as suas harmonias, e o elemento que reúne todas as harmonias da espécie possui a maior soma de beleza, que a espécie pode alcançar.

A flor tem as suas harmonias; também ela pode possuí-las todas, ou em separado e ser bela de diferentes formas; mas não o será senão quando as harmonias, que concorrem para a sua criação, forem harmonicamente ligadas.

Dois tipos de beleza podem produzir, pela sua fusão, um ser híbrido informe, de aspecto repulsivo. Há, então, cacofonia. Todas as vibra ções eram harmônicas isoladamente, mas a diferença de tons produz um desconcerto ao encontro das ondas vibrantes; daí o monstro!

Descendo na escala criada, cada tipo animal dá lugar às mesmas observações; e a ferocidade, a astúcia, a inveja poderão dar nascimento a belezas especiais, se o princípio, que determina a forma, for sem mescla.

A harmonia, mesmo no mal, produz o belo. Há o belo satânico e o belo angélico, a beleza enérgica e a beleza resignada. Cada sentimento, cada feixe de sentimentos, desde que sejam harmônicos, produz um tipo particular de beleza, de que todos os aspectos humanos são, não degenerescências, mas esboços.

É pois lícito dizer não que é mais belo, porém que se aproxima mais do belo real aquele que mais se eleva em perfeição.(53)

Todos os tipos se fundem harmonicamente no perfeito; e é por isso que este é o belo absoluto.

Nós, que progredimos, não possuímos senão uma beleza relativa, enfraquecida e combatida pelos elementos desarmônicos da nossa natureza.

Lavater.

(53) As duas comunicações mediúnicas que completam o trabalho de Kardec esclarecem outros problemas estéticos à luz do Espiritismo. Neste trecho temos o problema dialético do belo-feio colocado em termos de harmonia orgânica: a harmonia, mesmo no mal, produz o belo. Assim, nas formas grosseiras (humanas ou não) também encontramos beleza. Encarado o problema na perspectiva da evolução é fácil compreendê-lo. Cada etapa do desenvolvimento do ser tem os seus graus típicos de harmonia, nos limites daquela perfectibilidade possível referida por Kant. Um negro típico da sua raça, da sua tribo, é um exemplar de beleza humana, por mais grosseiros que sejam os seus traços. A harmonia é então o elemento estético básico e serve de fio de Ariadne no imenso labirinto das formas em evolução. Mas harmonia não quer dizer esquematismo e sim combinação inteligente de efeitos, revelando causa inteligente. (N. do Rev.)

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