Livro selecionado: "Obras Póstumas "

ÍNDICE

Página Anterior

Próxima Página

A Teoria do Belo

"O homem antediluviano, que vivia em companhia dos mastodontes, do urso das cavernas e de outros grandes mamíferos hoje desaparecidos, — o homem fóssil, em uma palavra, por tanto tempo negado, foi afinal descoberto e a sua existência posta fora de dúvida.

Os trabalhos recentes dos geólogos, e particularmente os de Boucher de Perthes, de Filippi e de Lyell, permitem-nos agora apreciar os caracteres físicos daquele venerando avô do gênero humano. Ora, apesar dos contos imaginados pelos poetas acerca da sua beleza original, apesar do respeito devido ao antigo chefe da nossa raça, a ciência é forçada a provar que ele era de prodigiosa fealdade. O ângulo facial não excedia de 70°, as mandíbulas, de considerável volume, eram armadas de dentes longos e salientes, a fronte imperceptível, as têmporas achatadas, o nariz chato, largas as narinas; em suma, esse venerável pai devia assemelhar-se muito mais a um orangotango do que aos seus atuais filhos. E tanto que, senão se tivesse encontrado ao seu lado os instrumentos de pedra, por ele fabricados, e, em alguns casos, os animais que ainda exibiam os sinais das feridas por aqueles instrumentos produzidas, ter-se-ia toda a razão de pôr em dúvida o distinto papel, que representou na gênese terrestre.

Não só sabia fabricar instrumentos de pedra, mas também clavas e pontas de dardos da mesma matéria. A galanteria antediluviana chegava ao ponto de se fazerem pulseiras e colares de pequenas pedras redondas, com que adornavam, naqueles remotos tempos, os braços e o pescoço do sexo encantador, que era e é tão exigente, como todos o sabem e melhor o sentem.

"Não sei o que pensarão a respeito disso as elegantes dos nossos dias, cujo colo é tabuleta de diamantes; quanto a mim, confesso-o, não me posso furtar a uma profunda comoção, pensando neste primeiro esforço do homem, mal diferenciado ainda do bruto, por agradar à sua companheira, pobre e nua como ele, no seio de uma natureza inóspita, sobre a qual um dia a sua raça devia reinar.

"Oh remotíssimos avós! Se, com essas faces rudimentares, já sentíeis o fogo do amor, como duvidarmos da vossa paternidade em frente do sinal divino da espécie?

"Não resta portanto dúvida de que esses disformes seres humanos foram nossos pais, pois deixaram-nos traços da sua inteligência e do seu amor, atributos essenciais que nos distinguem da besta. Podemos, examinando-os atentamente, lavados do pó dos séculos, medir, como um compasso, o progresso físico realizado pela nossa espécie desde a sua aparição na Terra.

Ora, esse progresso, que ainda há pouco podia ser contestado pelo espírito de sistema e pelos preconceitos de educação, adquire agora tal evidência que forçoso é reconhecê-lo e proclamá-lo. Alguns milhares de anos podiam ainda deixar dúvidas, que centenas de séculos dissipam irrevogavelmente . . .

"...Como ainda podemos ser infantis em todas as coisas? Ignoramos o nosso posto e o caminho na imensidade do universo e ousamos negar progressos que, por falta de tempo, não puderam ainda ser suficientemente demonstrados. Crianças que somos, tenhamos um pouco de paciência, e os séculos, aproximando-nos do nosso fim, nos descobrirão esplendores, que escapam, por distanciados, a nossos olhos apenas descerrados.

Proclamemos, porém, desde hoje, que a ciência nô-lo permite já, o fato capital e consolador do progresso, lento mas seguro, de nosso tipo físico para este ideal entrevisto pelos grandes artistas através das inspirações, que o céu lhes envia para nos revelar os segredos. Esse ideal não é um produto enganador da imaginação, um sonho fugitivo destinado a dar, de tempos em tempos, descanso às nossas misérias; é um objetivo assinado por Deus ao nosso aperfeiçoamento, objetivo sem limites, sem fim, porque, em todos os casos, só o infinito pode satisfazer-nos o Espírito e oferecer-lhe uma carreira digna de si".

Resulta dessas judiciosas observações que a forma dos corpos tem-se modificado, em determinado sentido e segundo uma lei, à medida que o ser moral se tem desenvolvido; que a forma exterior está em constante relação com o instinto e os apetites do ser moral; que quanto mais os seus instintos se aproximam da animalidade, tanto mais aquela forma se lhe aproxima igualmente; enfim, que à medida que os instintos materiais se estiolam e dão lugar aos sentimentos morais, o invólucro exterior, que não tem mais de satisfazer a necessidades grosseiras, reveste formas cada vez mais leves, delicadas, em harmonia com a elevação e delicadeza dos pensamentos.

Página Anterior - Próxima Página

Copyright 2004 - LAKE - Livraria Allan Kardec Editora
(Instituição Filantrópica) Todos os Direitos Reservados