Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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Influência Perniciosa das Idéias Materialistas

Sobre as Artes em Geral. Sua Regeneração pelo Espiritismo

Em todas as épocas de transformação, periclitam as artes, porque a crença em que se apóiam não é suficiente às crescentes aspirações da humanidade e porque os princípios novos, ainda não adotados definitivamente pela maioria dos homens, não animam os artistas a explicar, senão de modo vacilante, a mina desconhecida, que se lhes abre.(47)

Durante as épocas primitivas, em que os homens não conheciam senão a vida material e em que a filosofia divinizava a natureza, a arte procurou, antes de tudo, a perfeição da forma. A beleza corporal era então a primeira das qualidades; a arte aplicou-se a reproduzi-la, a idealizá-la. Mais tarde a filosofia entrou em nova senda; os homens, progredindo, reconheceram acima da matéria um poder criador e organizador, recompensando os bons, punindo os maus, fazendo uma lei da caridade; um mundo novo, o mundo moral, levantou-se sobre as ruínas do velho mundo.

Dessa transformação nasceu uma arte nova, que fez palpitar a alma sob a forma e aliou à perfeição plástica a expressão de sentimentos desconhecidos dos antigos. O pensamento, a princípio sujeito à matéria, revestiu as formas severas da filosofia, em que a arte se inspirava. Às tragédias de Ésquilo, aos mármores de Milo, sucederam as descrições e pinturas das torturas físicas e morais dos condenados. A arte elevou-se, revestiu um caráter grandioso e sublime, ainda que sombrio.(48)

Ainda hoje, não há como contestá-lo, o mundo se acha num período de transição, entre os hábitos vetustos, as crenças insuficientes do passado e as verdades novas, que lhe são progressivamente reveladas.

Assim como a arte cristã sucedeu à pagã, transformando-a, assim a arte espírita será o complemento e a transformação da arte cristã.

O Espiritismo, com efeito, oferece-nos a perspectiva do futuro, sob uma face nova e mais ao nosso alcance; por ele, a felicidade está mais perto de nós, ao nosso lado, nos Espíritos que nos cercam e que não cessam de entreter relações conosco.

A habitação dos eleitos e a dos condenados não são mais separadas: antes há constante solidariedade entre o céu e a terra, entre todos os mundos do universo. A felicidade consiste no amor recíproco de todas as criaturas elevadas à perfeição e numa constante atividade, cujo fim é instruir e guiar para aquela perfeição os que ainda estão atrasados. O inferno está no próprio coração do culpado, que encontra o castigo em seus remorsos; não é, porém, eterno, e o mau, entrando nas vias do arrependimento, sente na alma a esperança, a sublime consolação dos desgraçados.

Que inesgotáveis fontes de inspiração para a arte! Obras-primas de todo o gênero poderão produzir as novas idéias, pela reprodução das múltiplas e tão variadas cenas da vida espírita. Em lugar de representar frias e inanimadas relíquias, ver-se-á a mãe, tendo ao lado o filho adorado em sua forma radiante e etérea, ver-se-á a vítima per doando ao seu algoz, o criminoso procurando em vão fugir ao quadro, sem cessar presente aos olhos, de ações culpadas, o isolamento egoísta e do orgulhoso em meio da multidão, a perturbação que sente o Espírito quando volta à vida espiritual, etc., etc.

E, se o artista quiser elevar-se acima da esfera terrestre, aos mundos superiores, verdadeiros Édens, onde os Espíritos adiantados gozam da felicidade, que conquistaram, ou reproduzir algumas cenas dos mundos inferiores, verdadeiros infernos, onde as paixões campeiam soberanas, que cenas comoventes, que quadros palpitantes de interesse poderá reproduzir!(49)

Sim. O Espiritismo abre à arte um campo novo, imenso, e ainda inexplorado; e quando o artista reproduzir o mundo espírita com perfeita convicção, encontrará nessa fonte as mais sublimes inspirações e o seu nome viverá nos séculos futuros, porque, às preocupações materiais e efêmeras da vida presente, anteporá o estudo da vida futura e eterna da alma.

(47) Kardec assinala com precisão as características das fases de transição no campo das artes. A substituíção de princípios filosóficos e conceitos estéticos é tanto mais lenta quanto mais longa for a fase. Muda-se a concepção do mundo e consequentemente mudam-se as formas de expressão. De meados do século passado aos nossos dias esse processo vem crescendo. Veja-se a confusão reinante nos meios artísticos dos nossos dias. Dessa confusão, entretanto, vai nascendo uma nova Arte, em sentido geral, que se equilibrará no futuro. (N. do Rev.)

(48) Veja-se o famoso Prefácio de Cromwell, de Victor Hugo, considerado como o manifesto do Romantismo. O caráter grandioso e sublime da arte medieval foi determinado pela concepção cristã. O Renascimento determinou uma volta ao Paganismo, mas numa assimilação renovada dos valores antigos sob a influência cristã. O mundo moderno não ofereceu elementos para uma renovação profunda das artes porque não trazia ainda uma cosmovisão nova. As artes modernas são o prelúdio de uma nova fase que só o Espiritismo, a concepção espírita do mundo irá definir. É o que Kardec viu com clareza neste trabalho. (N. do Rev.)

(49) A Arte Espírita já é uma realidade nascente. A Pintura Espírita começou no tempo de Kardec e ainda há pouco surgiu em São Paulo o Grupo Nova Visão, liderado pelo pintor Nelson Alquezare e orientado pelo espírito de Portinari. (Veja-se Anuário Espírita de 1969). A Poesia Espírita é uma realidade que já mereceu antologia (Antologia de Poetas Espíritas, Clovis Ramos, Pongetti Editores, Rio, 1959). A ficção literária espírita impõe-se no mundo e a influência espírita no Cinema, na Música, no Rádio, na Televisão, no Teatro é visivelmente crescente. (N. do Rev.)

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