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IX. Filho de Deus e Filho do Homem

"Porque Deus não ameaça como os homens, nem ele se inflama em ira como os filhos dos homens". (JUDITE, VIII, 15).

É evidente que a qualificação de Filho do homem quer dizer aqui: nascido do homem, por oposição ao que está fora da humanidade. A última citação, tirada do livro de Judite, não deixa dúvida acerca da significação daquela expressão, empregada em sentido estritamente literal.

Deus não designa Ezequiel senão com aquela expressão, certamente para lembrar-lhe que, apesar do dom da profecia, que lhe foi concedido, não pertencia menos à humanidade, a fim de que se não julgasse de natureza excepcional. Jesus dava-se aquela qualificação com singular persistência porque só em raríssimas circunstâncias se disse Filho de Deus. Em sua boca não pode ela ter outra significação que não seja lembrar que também ele pertence à humanidade, assemelhando-se assim aos profetas, que o precederam, aos quais se comparou, aludindo à sua morte, quando disse: Jerusalém que mata os profetas!

A insistência, com que se designa filho do homem, parece um protesto antecipado contra a qualificação que, previra, se lhe daria mais tarde, a fim de que ficasse bem provado que da sua boca não saíra.

É para notar que, durante esta interminável polêmica, que apaixonou os homens por muitos séculos, e até hoje dura, — que acendeu fogueiras e derramou sangue em catadupas, versasse a controvérsia sobre uma abstração: a natureza de Jesus, de que se fez a pedra angular do edifício, apesar de nada haver dito a semelhante respeito — e se tenha esquecido aquilo que o Cristo ensinou ser toda a lei e os profetas: o amor de Deus e do próximo e a caridade, de que fêz a condição de salvamento.

Aplicaram-se, fervorosamente, à questão da afinidade de Jesus com Deus e deixaram em olvido as virtudes, que ele recomendou e de que deu o exemplo.

O próprio Deus ficou na penumbra perante a exaltação da personalidade de Cristo. No concílio de Nicéia foi dito simplesmente: Cremos em um só Deus, etc.; mas como é esse Deus? nenhuma palavra sobre os atributos essenciais dele: a soberana bondade e a soberana justiça. Tais palavras serão condenação dos dogmas, que consagram a sua parcialidade por determinadas criaturas, a sua inexorabilidade, o crime, a cólera, o espírito vingativo de que se servem para justificar crueldades, praticadas em nome dele.

Se o concílio de Nicéia, que se constituiu em fundamento da fé católica, fosse conforme ao espírito de Cristo, para quê o anátema final? Não é isto a prova de que ele é a obra das paixões dos homens? A que foi devida a sua adoção? À pressão do imperador Constantino, que fez dele uma questão mais política que religiosa. Sem ordem sua não se teria realizado o concílio de Nicéia e sem a sua intimidação seria mais que provável o triunfo do arianismo.

Dependeu pois da autoridade soberana de um homem, que não pertencia à Igreja, que reconheceu mais tarde a falsa política seguida, e que em vão procurou emendá-la, conciliando os partidos, não sermos hoje arianos, em lugar de católicos, e não ser hoje o arianismo a ortodoxia e o catolicismo a heresia.

Depois de dezoito séculos de lutas e discussões sem proveito, durante as quais se deixou de parte o essencial do ensino de Cristo, único meio de assegurar a paz da humanidade, veio o cansaço dessas discussões estéreis, que só produziram perturbações, geraram a incredulidade e cujo objeto já não satisfazia à razão.

Há hoje uma tendência manifesta da opinião geral para voltar às idéias fundamentais da primitiva Igreja e à parte moral do ensino de Cristo, por ser esta a única que pode tornar os homens melhores, visto ser clara, positiva, e não dar ensejo a controvérsias.

Se a Igreja tivesse seguido, desde o princípio, aquela via, seria hoje onipotente, em vez de ter sido despedaçada pelas facções.

Quando os homens caminharem com esta bandeira, se darão fraternalmente as mãos, em vez de se lançarem anátema e maldição, por questões que a maior parte das vezes não compreendem. Essa tendência da opinião é o sinal de que chegou o momento de pôr a questão no seu legítimo terreno.(46)

(46) Estas palavras finais de Kardec não são apenas uma advertência, pois foram também proféticas. Basta vermos as transformações atuais da Igreja, empenhada em superar uma crise determinada pela evolução cultural do mundo, para compreendermos o sinal dos tempos a que ele se refere. A tendência para voltar aos princípios verdadeiros do Cristianismo e aos seus fundamentos morais acentua-se rapidamente nestes últimos anos. A tese do esvaziamento da Igreja, sustentada por alguns teólogos, corresponde aos anseios da Reforma e às diretrizes do Espiritismo. Esvaziar a Igreja é tirar-lhe os elementos acessórios com que a enfeitaram indevidamente. Os excessos litúrgicos que devem desaparecer abrangem também o mistério grego da Paixão em forma de mito, com a morte de um Deus e não de um homem. A divindade de Jesus está implícita na frase que ele mesmo citou: Vós sois deuses, referindo-se a todas as criaturas humanas. É a divindade do espírito evoluído, que superou a condição humana em espírito e não em forma ou condição corporal. — Para uma informação geral sobre a revolução teológica de hoje leia-se O Movimento da Morte de Deus, de Charles Bent, Moraes Editores, Lisboa, 1968, e A Morte de Deus, de Thomas Altizer e William Hamilton, Editora Paz e Terra, S. Paulo, 1967. (N. do Rev.)

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