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II. A Divindade de Cristo fica Provada pelos Milagres?

Todos os efeitos do magnetismo, do sonambulismo, do êxtase, da dupla vista, do hipnotismo, da catalepsia, da letargia, da transmissão do pensamento, da presciência, das curas instantâneas, das possessões, das obsessões, das aparições e transfigurações, etc., que constituem a quase totalidade dos milagres do Evangelho, pertencem a esta categoria de fenômenos. Sabe-se que estes efeitos são resultantes de aptidões e disposições fisiológicas especiais, que esses efeitos se têm produzido em todos os tempos, em todos os povos, e têm tido o cunho de milagres tanto como os que procediam de causas impenetráveis. Isto dá a razão porque todas as religiões têm os seus milagres, que não passam de fatos naturais, ampliados até ao absurdo pela credulidade, a ignorância e a superstição, estando hoje reduzidos ao seu justo valor pelo progresso dos conhecimentos humanos.

A possibilidade da maior parte dos fatos, que o Evangelho cita como praticados por Jesus, está completamente demonstrada, pelo magnetismo e pelo Espiritismo, que são puros fenômenos naturais. Pois que eles se produzem aos nossos olhos, espontaneamente ou provocados, porque não podia Jesus possuir faculdades idênticas às dos nossos magnetizadores, curadores, sonâmbulos, videntes, médiuns, etc.?

Desde que essas faculdades se manifestam, em graus diferentes, numa multidão de indivíduos, que nada têm de divinos, pois se manifestam até em hereges e idólatras —é claro que não reclamam uma natureza sobre-humana. Se Jesus qualificava os seus atos de milagres, é porque nisto, como em muitas outras relações, devia apropriar a linguagem aos conhecimentos dos seus contemporâneos. Como poderiam eles apanhar a acepção de uma palavra, que ainda hoje nem todos compreendem? Para o vulgo, as coisas extraordinárias, que ele fazia, e que pareciam sobrenaturais naquele tempo e até muito depois, eram milagres e não podia dar-lhes outro nome. Um fato digno de nota é que ele se serviu desses milagres para afirmar a missão que recebera de Deus, mas nunca para se atribuir o poder divino.(*) É preciso, pois, riscar os milagres da lista das provas da divindade de Cristo. Vejamos se as encontramos em suas palavras.(41)

(*) Para o desenvolvimento completo da questão dos milagres, vide A Gênese _ Os Milagres e as Previsões segundo o Espiritismo, capítulo XIII e seguintes, onde são explicados todos os milagres do Evangelho, de acordo com as leis naturais. (N. de Kardec)

(41) A colocação deste problema está perfeitamente atualizada. Até mesmo a lista de milagres referidos por Kardec corresponde aos fenômenos atualmente comprovados pela pesquisa parapsicológica. Os milagres do Evangelho, como os de todas as escrituras religiosas do mundo, não são invalidados pelo Espiritismo, que apenas lhes tira o caráter de ocorrências sobrenaturais, enquadrando-os na concepção natural do Universo e do homem que as ciências vêm elaborando. Se, de um lado, a prova da divindade do Cristo pelos milagres é negada, de outro lado a prova da sua humanidade é confirmada. O Filho de Deus toma o seu lugar de Filho do Homem, por ele mesmo afirmado, integrando-se na Humanidade. Mas nem assim desaparece a sua divindade, como veremos adiante, pois ela se reafirma num sentido mais amplo, sem o particularismo exclusivista que lhe quiseram dar. Este pequeno estudo de Kardec é de uma profundidade ainda não percebida pela maioria dos próprios espíritas. (N. do Rev.)

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