Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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I. Origem das Provas da Natureza de Cristo

Se se pusesse na balança tudo quanto tem sido escrito pró e contra, quem sabe para que lado penderia ela? Isto não afeta os méritos pessoais dos sustentadores da ortodoxia, nem o seu valor, como escritores e homens conscienciosos; são advogados de uma mesma causa, que defendem com grande talento e que forçosamente devem levar às mesmas conseqüências. Não queremos, pois, feri-los, mesmo de leve, mas simplesmente demonstrar que a sua concordância não prova a verdade das suas opiniões.(39)

No exame, que vamos fazer da questão da divindade de Cristo, pondo à margem as sutilezas da escolástica, que não tem servido senão para obscurecer, em lugar de esclarecer, apoiar-nos-emos exclusivamente em fatos tirados dos textos do Evangelho, os quais, examinados fria e conscientemente e sem preconceitos, fornecem amplamente os meios de convicção, que se podem desejar. Ora, entre aqueles fatos, nenhum mais preponderante, nem mais concludente, do que as palavras de Cristo, que não podem ser recusadas sem lesão da verdade apostólica.

Pode interpretar-se por diversos modos uma parábola, uma alegoria; nunca porém afirmações positivas, sem ambigüidade, cem vezes repetidas, poderiam apresentar-nos sentidos ambíguos. Ninguém pode ter a pretensão de saber melhor do que Jesus o que ele quis dizer, como ninguém pode pretender conhecer, melhor que ele, a sua própria natureza.

Quando comenta as próprias palavras e as explica, a fim de evitar qualquer engano, é forçoso pensar pelo que ele diz, a não se lhe querer negar a superioridade que se lhe atribui substituindo-se à sua inteligência. Se é obscuro a determinados respeitos, quando usa de uma linguagem figurada, tratando da sua pessoa não dá lugar a equívocos possíveis.

Antes de lhe examinarmos as palavras, vejamos as suas obras.(40)

(39) O critério histórico de Kardec nesta tomada de posição é legítimo, verdadeiro e constitui mais uma prova da sua objetividade no exame dos problemas espíritas, seja no campo científico, filosófico ou religioso. O acordo dos Santos Padres em matéria dogmática era necessária e inevitavelmente forçado. O caso de Orígenes, muito bem lembrado, que poderíamos acrescer com o de Tertuliano, é prova inegável disso. Quem discordava dos dogmas aceitos pela maioria era considerado herege. A própria Igreja reconhece hoje os seus erros nesse sentido e inicia, como todos sabem, uma fase nova de sua história, renovando profundamente sua posição e suas atitudes para ajustar-se à atualidade. (N. do Rev.)

(40) As palavras do Cristo poderiam ser postas em dúvida pelos que consideram os Evangelhos como documentos duvidosos. Entretanto, as investigações realizadas sobre as fontes evangélicas por pesquisadores altamente qualificados, no campo cultural, sem ligações eclesiásticas, chegaram a conclusões incontestáveis a respeito da sua validade. As afirmações de Renan, de que os Evangelhos nasceram no próprio círculo dos familiares de Jesus, é hoje confirmada por Charles Guignebert, professor de História do Cristianismo na Sorbonne, como podemos ver em seus monumentais estudos Jésus e Le Christ editados por Albin Michel, Paris, 1947 e 1948, respectivamente. Assim, a confiança de Kardec nos textos se confirma pelos estudos e as pesquisas não comprometidas com setores religiosos. A descoberta dos chamados Manuscritos do Mar Morto, a partir de 1947, embora representando importante contribuição para o esclarecimento histórico dos inícios do Cristianismo, não chegou a afetar a situação do problema específico dos textos evangélicos. Por tudo isso, a posição de Kardec é válida. (N. do Rev.)

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