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Explicação do Fenômeno de Lucidez

Volvamos à teoria da lucidez.

Sendo a alma a sede das faculdades do sonâmbulo, nela é que está a clarividência e não em qualquer parte do corpo. É esta a razão porque o sonâmbulo não pode designar o órgão dessa faculdade, como designa o olho para a vista exterior. Ele vê por meio de todo o seu ser moral; isto é, por meio da alma, de que a clarividência é um atributo geral. Onde quer que a alma possa penetrar, haverá clarividência, e daí a causa da lucidez dos sonâmbulos através dos corpos e a grandes distâncias.

Opor-se-á naturalmente a esse sistema uma objeção, que nos apressamos em rebater.

"Se as faculdades sonambúlicas são as da alma desprendida da matéria, por que razão não são elas constantes? Por que razão a lucidez é variável no mesmo indivíduo?

"Admite-se a imperfeição física de um órgão, mas a da alma, não".

A alma prende-se ao corpo por laços misteriosos, que não podíamos definir, antes de nos ensinar o Espiritismo o papel que representa, no caso, o perispírito. Esta questão, por ter sido tratada especialmente na Revue e nas obras fundamentais da doutrina, dispensa qualquer desenvolvimento. Limitar-nos-emos pois a dizer que é pelos órgãos materiais que a alma se manifesta no exterior. Em nosso estado normal, tais manifestações são naturalmente subordinadas às imperfeições do instrumento, do mesmo modo como o operário não pode fazer obra perfeita com instrumentos inadequados. Por mais admissível que seja a estrutura do nosso corpo, qualquer que tenha sido a previdência da natureza, com relação ao nosso organismo, a fim de poder satisfazer a funções vitais, muito superior a estes órgãos, sujeitos a todas as perturbações da matéria, está a sutileza da alma. Enquanto pois a alma estiver ligada ao corpo, sofrerá as complicações e vicissitudes, que este lhe impõe.

O fluido magnético não é a alma, é um laço, um intermediário entre a alma e o corpo; e é por sua maior ou menor ação sobre a matéria, que dá ele mais ou menos liberdade à alma. Daí a diversidade das faculdades sonambúlicas.

O sonâmbulo é um homem que não está desvencilhado senão de uma parte de seu invólucro e cujos movimentos ainda são tolhidos pela parte, de que não se desvencilhou. A alma só obterá independência e completa liberdade das faculdades, quando houver roto os últimos liames da matéria, como a borboleta saída da crisálida. Se um magnetizador tivesse bastante poder para dar à alma a liberdade absoluta, romper-se-iam os laços que a prendiam à terra e a morte seria a conseqüência imediata.

O sonambulismo leva-nos a pôr um pé na vida futura e levanta uma ponta do véu, que cobre as verdades, que hoje podemos entrever graças ao Espiritismo. Não lhe conheceremos porém a essência, senão quando estivermos completamente desvencilhados do véu material, que no-la obscurece.

OBSERVAÇÃO: Esta explicação do fenômeno da lucidez antecedeu de um século as teorias hipnóticas e parapsicológicas em controvérsia no nosso tempo. Os mais argutos e ilustres negadores da existência da alma não conseguiram elucidar a questão. A lógica de Kardec, como se vê, é impecável e as pesquisas atuais se encaminham nitidamente no sentido de aprová-la. Já na fase metapsíquica, por exemplo, o Prof. Ernesto Bozzano sustentava que a percepção extra-sensorial prova, por si mesma, a existência da alma. Confirmava assim, no campo das teorias científicas, a afirmação de Kardec neste trabalho, de que a lucidez sonambúlica prova até a evidência que a alma existe. Agora, na Parapsicologia, Rhine, Soal, Carington, Broad e outros concluem que os fenômenos psigama (dos quais a clarividência foi o primeiro a ser provado cientificamente) não são de natureza material e provam a existência no homem de um conteúdo extrafísico.

Devemos ainda lembrar que a conclusão de Kardec resultou de suas experimentações com numerosos médiuns. Dessas experimentações encontramos os relatos minuciosos na Revista Espírita. Já em O Livro dos Espíritos, Kardec havia publicado o Ensaio Sobre as Sensações nos Espíritos, de que o trabalho acima é uma espécie de prolongamento. Inegável o pioneirismo da Ciência Espírita na investigação dos fenômenos paranormais e também o seu pioneirismo nas conclusões de tipo rigorosamente científico. Esse pioneirismo, por sinal, foi reconhecido por Richet no Tratado de Metapsíquica. Notemos ainda a felicidade da comparação da alma com o fósforo. Esse elemento químico deriva o seu nome do grego: phos, luz e phoros, que tem ou que porta. (N. do Rev.)

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