Livro selecionado: "Obras Póstumas "

ÍNDICE

Página Anterior

Próxima Página

Dos Homens Duplos e das Aparições de Pessoas Vivas

9. "Uma preceptora francesa, Émilie Sagée, perdeu 19 vezes o lugar, porque onde estivesse aparecia duplamente. As meninas de um internato, em Newelk, na Livônia, viam-na, freqüentemente, no salão ou no jardim, ao tempo em que se achava em outro lugar. Outras vezes, viam diante da pedra, durante a lição, duas Sagée, uma ao lado da outra, perfeitamente iguais, fazendo os mesmos movimentos, com a única diferença de que só a verdadeira tinha na mão o giz".

A obra do Sr. Perty contém maior número de fatos desta ordem e é notável que em todos os exemplos citados o princípio inteligente é igualmente ativo em ambos os indivíduos e até mais ativo no material, quando deveria ser o contrário. O que parece absolutamente impossível é que possa existir antagonismo, divergência de idéias, de pensamentos entre os dois. Esta divergência manifesta-se evidentemente no caso n.° 4, onde um adverte o outro da sua morte próxima, e no de n.° 7, em que a imperatriz manda atirar sobre a própria imagem.

Admitindo a divisão do perispírito em uma força fluídica capaz de manter a atividade normal do corpo; supondo igualmente a divisão do princípio inteligente, ou uma irradiação dele capaz de animar os dois seres e de lhes dar uma espécie de ubiqüidade, este princípio é único e deve ser idêntico; e portanto nunca poderia ter uma vontade oposta nos dois, salvo se se admitir a existência de Espíritos gêmeos, como há corpos gêmeos; isto é, que dois Espíritos se identifiquem para encarnar no mesmo corpo, o que não é crível. Em todas estas histórias fantásticas, se há que colher, há muito que desprezar e levar à conta de lenda.

O Espiritismo, em lugar de aceitá-las cegamente, ensina a distinguir o verdadeiro do falso, o possível do impossível, mediante as leis que ele nos revela com relação à constituição e à função do elemento espiritual.

Não sejamos, entretanto, muito apressados em rejeitar a priori tudo o que não podemos compreender, porque longe estamos de conhecer todas as leis e nem a natureza nos revelou ainda todos os segredos. O mundo invisível é um campo de observação ainda novo, cujas profundezas seria presunção supor exploradas, quando incessantemente se estão patenteando a nossos olhos novas maravilhas.

Todavia, fatos há de que a lógica e as leis conhecidas demonstram a impossibilidade material. Assim é, por exemplo o citado na Revue Spirite de fevereiro de 1859, pág 41, sob o título: o meu amigo Hermann.

Trata-se de um moço alemão da alta sociedade, afável, benevolente, de caráter respeitável, que todas as tardes, ao pôr do sol, caía num estado de morte aparente. Durante aquele tempo, o seu Espírito revelava-se numa região antípoda, Austrália, no corpo de um bandido, que acabava na forca.

O simples bom-senso nos demonstra que, admitindo a possibilidade dessa dualidade corpórea, o mesmo Espírito não pode ser alternativamente, durante o dia um homem de bem num corpo, e durante a noite um bandido em outro corpo.

Dizer que o Espiritismo acredita nessas teorias é provar que não o conhecem, pois que ele oferece os meios de se lhes reconhecer o absurdo. Entretanto, ao passo que demonstra a falsidade de uma crença, prova por outro lado que ela se assenta algumas vezes em princípios verdadeiros, posto que desnaturados ou exagerados pelas superstições. Dá-se a isso a denominação de despolpar o fruto.

Quantos contos ridículos não se inventaram sobre o raio, antes de ser conhecida a lei da eletricidade? As relações do mundo visível e do invisível são as mesmas, e o Espiritismo, tornando conhecidas as leis dessas relações, as reduz à sua realidade, que ainda é grande coisa para aqueles que não reconhecem nem almas, nem mundo invisível e para quem tudo o que não é do mundo visível e tangível é superstição. Estes tem razão de denegrir o Espiritismo.

Observação. A importantíssima questão de bicorporeidade e a dos agêneres tem sido até hoje deixada no segundo plano pela ciência espírita, na falta de provas suficientes para a sua elucidação. Estas manifestações, por mais singulares e incríveis que pareçam à primeira vista, sancionadas pelas narrações dos historiadores mais sérios da antigüidade e da idade média, e confirmadas por fatos recentes, anteriores do Espiritismo ou contemporâneos dele, não podem ser postas em dúvida. O Livro dos Médiuns, no artigo intitulado: Visitas espirituais entre os vivos, e a Revue Spirite, em numerosas passagens, confirmam-lhes a existência de maneira irrecusável.

Página Anterior - Próxima Página

Copyright 2004 - LAKE - Livraria Allan Kardec Editora
(Instituição Filantrópica) Todos os Direitos Reservados