Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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VII. Da Obsessão e da Possessão

58. Se há Espíritos maus, que obsedam, a despeito dos bons, que protegem, pergunta-se: são aqueles mais poderosos que estes? Não é o bom Espírito que é fraco; mas o médium, que não é bem forte para repelir o manto, com que o envolvem, desprender-se dos braços que o enlaçam, e nos quais, cumpre dizê-lo, muitas vezes se compraz em ver-se estreitado. Nessa circunstância, compreende-se que o bom Espírito não pode ter vantagens; porque tem preferência o mau.

Suponha-se, porém, que a vítima deseja livrar-se do invólucro fluídico, que a penetra, como a umidade penetra os vestidos; nem sempre a sua vontade basta para a satisfação do desejo. Trata-se, no caso, de lutar com um adversário. Ora, quando dois homens lutam corpo a corpo, cabe naturalmente a vitória ao que tem maior força muscular; com um Espírito é preciso lutar, não corporalmente, mas espiritualmente e, nesse caso, é sempre ao mais forte que cabe a vitória; sendo que aqui a força está na autoridade sobre o Espírito, e esta na superioridade moral.

A supremacia moral é como o sol, que desfaz as névoas pela força dos raios. Esforça-se por ser bom; por tornar-se melhor, se já o é; por purificar-se das imperfeições; por elevar-se, enfim, moralmente o mais que for possível; esse é o meio de adquirir o poder de impôr-se aos Espíritos inferiores para os afastar, porque de outro modo eles zombarão das vossas injunções (O Livro dos Médiuns, nos. 252 e 279).

Dir-se-á entretanto: por que os Espíritos protetores não os fazem retirar? Sem dúvida que podem fazê-lo e muitas vezes o fazem; mas onde está o mérito da vitória? Se eles deixam debater-se quem tem tais ou quais merecimentos, é para que dêem provas de perseverança e adquiram maior força no bem, o que lhes vale como uma espécie de ginástica moral.

Muitos prefeririam, com certeza, uma receita mais fácil para afastar os maus Espíritos: algumas palavras, alguns sinais, por exemplo, o que seria mais cômodo do que corrigir os defeitos. Pesa-nos bem, mas não conhecemos outro meio de vencer um inimigo, senão o de nos tornarmos mais fortes do que ele.

Quando estamos doentes, força é sujeitarmo-nos a tomar o remédio, por mais amargo que seja; mas, em compensação, que melhora e que força quando tivermos a coragem de o tomar! Cumpre-nos, portanto, convencermo-nos de que não podemos alcançar o afastamento dos maus Espíritos nem por palavras mentais, nem por fórmulas, nem por talismãs ou por quaisquer sinais materiais. Os maus Espíritos zombam destes meios, que muitas vezes são os primeiros a indicar, como infalíveis, para melhor captarem a confiança daqueles que desejam enganar; porque assim eles se lhes entregam confiantes e sem receio.

Antes de procurarmos dominar os maus Espíritos é preciso dominarmo-nos a nós mesmos. De todos os meios de conseguir a força para alcançar aquele desiderato, o mais eficaz é a vontade auxiliada pela prece, nascida do coração e não aquela que consiste em palavras, em que a boca toma mais parte do que o pensamento. É preciso evocar o anjo da guarda e os bons Espíritos para que prestem auxílio na luta; mas não é bastante pedir-lhes que afastem os maus Espíritos, é principalmente necessário que não tiremos do pensamento a máxima: ajuda-te, que o céu te ajudará.

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