Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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IV. Emancipação da Alma

26. O desprendimento pode produzir-se no estado de vigília e em diversos graus, não dispondo o corpo, de maneira completa, da sua atividade normal; há sempre uma absorvência, um desapego mais ou menos completo das coisas terrestres. Ele não dorme; anda, age; mas os olhos fitam sem ver os objetos. Percebe-se bem que a alma não está aí.

Como no sonambulismo, ela vê as coisas distantes, tem percepções e sensações, que nos são desconhecidas e, às vezes, tem a presciência de futuros acontecimentos pelas relações que os prendem às coisas presentes. Penetrando no mundo invisível, vê os Espíritos, entretém-se com eles, e pode transmitir-nos os seus pensamentos. O esquecimento, quando volta ao estado normal, é quase constante; mas às vezes tem uma lembrança mais ou menos vaga, como no sonho.(24)

27. O desprendimento da alma amortece, às vezes, as sensações físicas até produzir uma verdadeira insensibilidade, podendo então suportar, com indiferença, as mais vivas dores. Essa insensibilidade provém do desprendimento do perispírito, agente transmissor das sensações corpóreas. O Espírito ausente não sente os ferimentos do corpo.

28. A faculdade emancipadora da alma, na sua mais simples manifestação, produz o que se chama o sonho acordado. Dá também a certas pessoas a presciência, que constitui os pressentimentos. Em mais elevado grau, produz o fenômeno da chamada segunda vista, dupla vista, ou sonambulismo em estado de vigília.(25)

29. O êxtase é a emancipação da alma no grau máximo. "No sonho e no sonambulismo, a alma erra pelos mundos terrestres; no êxtase, penetra num mundo desconhecido, no mundo dos Espíritos etéreos, com os quais entra em comunicação, sem, todavia, poder ultrapassar certos limites, que ela não poderia transpor sem quebrar totalmente os laços que a prendem ao corpo. Cercam-na um brilho resplandecente e desusado fulgor, enlevam-na harmonias que na Terra se desconhecem, invade-a indefinível bem-estar; dado lhe é gozar antecipadamente da beatitude celeste e bem se pode dizer que põe um pé no limiar da eternidade. No êxtase, é quase completo o aniquilamento do corpo; já não resta, por assim dizer, senão a vida orgânica e percebe-se que a alma lhe está presa apenas por um fio, que mais um pequeno esforço faria partir-se." (O Livro dos Espíritos, n. 455.)

30. Como em nenhum dos outros graus de emancipação da alma, o êxtase não é isento de erros, pelo que as revelações dos extáticos longe estão de exprimir sempre a verdade absoluta. A razão disso reside na imperfeição do espírito humano; somente quando ele tem chegado ao cume da escala pode julgar das coisas lucidamente; antes não lhe é dado ver tudo, nem tudo compreender. Se, após o fenômeno da morte, quando o despreendimento é completo, ele nem sempre vê com justeza; se muitos há que se conservam imbuídos dos prejuízos da vida, que não compreendem as coisas do mundo visível, onde se encontram, com mais forte razão o mesmo há de suceder com o Espírito ainda retido na carne.

Há por vezes, nos extáticos, mais exaltação que verdadeira lucidez, ou melhor, a exaltação lhes prejudica a lucidez, razão por que suas revelações são com freqüência uma mistura de verdades e erros, de coisas sublimes e outras ridículas. Também Espíritos inferiores se aproveitam dessa exaltação, que é sempre uma causa de fraqueza quando não há quem saiba governá-la, para dominar o extático e, para conseguirem seus fins, assumem aos olhos deste aparências que o aferram às suas idéias e preconceitos, de modo que suas visões e revelações não vêm a ser mais do que reflexos de suas crenças. É um escolho a que só escapam os Espíritos de ordem elevada, escolho diante do qual o observador deve manter-se em guarda.(26)

31. Há pessoas de perispírito tão identificado com o corpo, nas quais o desprendimento, até no momento da morte, só se opera com extrema dificuldade. São em geral as que têm levado uma vida muito material. Para elas a morte é a mais penosa possível, a mais cheia de longas e dolorosas angústias. Outras, porém, cuja alma se prende ao corpo por tênues laços, se desprendem sem comoção nem dificuldade, e muitas vezes antes da morte do corpo. Na hora extrema, já divisam o mundo para onde têm de ir, e anseiam pelo momento da completa libertação.

(24) A Psicologia e a Parapsicologia atribuem ao inconsciente as faculdades da alma em seus momentos de libertação. O conceito de inconsciente apareceu primeiramente no Espiritismo (Ver o livro Silva Mello e os Seus Mistérios, de Sérgio Vale - Lake) mas não é uma instância da personalidade e sim um campo de funções que escapa aos limites sensoriais. Kardec oferece aqui a explicação desse problema. E o faz com base nas numerosas experiências realizadas por ele na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e cujos relatos minuciosos podem ser lidos na Revista Espírita. Como se vê, Kardec admite dois tipos de percepção extra-sensorial: 1) o que provém da emancipação da alma, ou seja, dos momentos em que a alma se afasta do corpo; 2) o decorrente dos estados de ausência psíquica no estado de vigília, momentos de distração, de sonolência passageira e assim por diante. Assim, toda a fenomenologia paranormal que a Parapsicologia se empenha em explicar atualmente se reduz, para a Ciência Espírita, na capacidade permanente que a alma possui de se afastar do corpo, de se libertar da prisão sensorial orgânica. É a alma que vê e sente fora do corpo. Ver em O Livro dos Espíritos o capítulo intitulado Ensaio Sobre as Sensações nos Espíritos. (N. do Rev.)

(25) Temos neste tópico a explicação espírita da ação das drogas anestésicas e alucinógenas nos processos de percepção extra-sensorial. Essas drogas não possuem nenhum poder maravilhoso, não dão aos pacientes nenhum aumento de percepção orgânica. Agem apenas como o sono e os estados hipnóticos, bloqueando as vias comuns da percepção sensorial, o que permite ao espírito libertar-se da prisão do sensório. A palavra alma, no Espiritismo corresponde a espírito encarnado. Enquanto estamos vivos na Terra somos almas, espíritos revestidos de perispíritos animando um corpo animal. Depois da morte não somos mais almas, somos espíritos. (N. do Rev.)

(26) O Espiritismo prefere a comunicação mediúnica aos processos de desprendimento espiritual, no trato com o mundo invisível, porque a comunicação oferece maior segurança no exame dos fatos. O problema do condicionamento à crença, levantado por Richet e tratado por Ricardo Musso em seu livro En los limites de la Psicologia já havia sido colocado por Kardec de maneira precisa e esclarecedora, como se vê nesse tópico. (N. do Rev.)

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