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Caráter e Conseqüências Religiosas de Manifestações de Espíritos

4. Havendo o homem tido em todos os tempos a intuição de um poder superior, foi induzido a atribuir à ação direta dessa potência os fenômenos cuja causa lhe era desconhecida, considerando-os prodígios e efeitos supernaturais. Essa tendência é pelos incrédulos considerada obra do amor do homem pelo maravilhoso, mas não lhe procuram os motivos. Se se dessem a esse trabalho, reconheceriam que o amor do maravilhoso procede da intuição mal definida de uma ordem de coisas extracorporais.

Com o progresso da ciência e o conhecimento das leis da natureza, aqueles fenômenos têm, pouco a pouco, passado do domínio do maravilhoso ao dos efeitos naturais; e por isso o que se supunha outrora sobrenatural não o é mais atualmente, nem mais o será de ora em diante.

Os fenômenos dependentes da manifestação dos Espíritos forneceram, pela sua própria natureza, um contingente aos fatos considerados maravilhosos; devia porém chegar o tempo em que fosse conhecida a lei que os rege, e eles entrassem como quaisquer outros na ordem dos fatos naturais. Esse tempo chegou e o Espiritismo, fazendo conhecer aquela lei, trouxe a chave da maior parte das passagens das Escrituras sagradas, que aludiam a ela e os fatos reputados miraculosos.

5. O caráter de um fato miraculoso é ser insólito e excepcional; é ser uma derrogação das leis da natureza.

Desde que um fenômeno se reproduza em identidade de condições, é porque obedece a uma lei e portanto não é miraculoso. Essa lei pode ser ignorada, mas nem por isso deixa de existir, competindo ao tempo torná-la conhecida.(14)

O movimento do Sol, ou antes da Terra, parado por ordem de Josué, seria um verídico milagre, por ser uma manifesta derrogação da lei, que rege o movimento dos astros; se porém o mesmo fato se reproduzisse, em dadas condições, é porque obedeceria a uma lei e deixaria de ser um milagre.

6. A Igreja não tem razão de perturbar-se por se ir estreitando o círculo dos fatos miraculosos. Deus afirma muito mais a sua grandeza e poder, com o admirável conjunto das suas leis, do que com a infração delas; tanto mais atribuindo ela ao demônio o poder de fazer prodígios, o que implica ser o demônio tão poderoso quanto Deus, uma vez que tem a faculdade de interromper o curso das leis divinas.

É blasfêmia e sacrilégio dizer que o Espírito do mal pode suspender a ação das leis de Deus!

A religião ganha, em vez de perder, autoridade com a classificação na ordem natural dos fatos reputados miraculosos e isto porque, se um deles é falsamente considerado milagre, nasce dali um erro e a religião, obstinando-se em mantê-lo, só tem que perder. Além disso, ainda é prejudicado porque muitas pessoas não admitem a possibilidade dos milagres; donde resulta negarem os fatos tidos como tais e a religião, que os sustenta. Pelo contrário, admitidos os fatos como efeitos de leis naturais, nenhuma razão há para se lhes recusar fé, tanto como à religião, que os proclama.

7. Os fatos, que a ciência demonstra peremptoriamente, não podem ser negados por nenhuma crença religiosa. A religião ganha autoridade, acompanhando a ciência em seus progressos; tanto quanto a perdeu, caprichando em ficar atrás, ou repelindo as verdades científicas em nome de dogmas, que jamais poderão prevalecer contra as leis naturais, nem principalmente anulá-las.

Um dogma fundado na negação de uma daquelas leis é necessariamente falso.(15)

O Espiritismo, firmado no conhecimento de leis ainda não compreendidas, não vem destruir os fatos religiosos, mas torná-los mais aceitáveis, dando-lhes explicação racional. O que ele vem destruir são as falsas deduções tiradas daquelas leis, por erro ou ignorância.

8. A ignorância das leis da natureza, induzindo o homem a procurar causas fantásticas para os fenômenos, que não compreende, é a origem das idéias supersticiosas, entre as quais algumas são devidas aos fenômenos espíritas mal compreendidos. O conhecimento das leis, que regem fenômenos, destrói essas idéias supersticiosas, dando às coisas o seu caráter real e demarcando os limites do possível e do impossível.

(14) Os milagres dos Evangelhos são estudados por Kardec na segunda parte do livro "A Gênese". A Bíblia, desde o Gênesis até suas últimas páginas, é um grande repositório de fatos espíritas. Isso não diminui o seu valor. Os milagres ali apresentados não são violações da lei de Deus, mas intervenções dos Espíritos (chamados anjos, arcanjos, ou santos) realizadas dentro da própria lei divina. (N. do Rev.)

(15) Kardec se refere ao dogma religioso que é um princípio de fé, de crença cega, sobre o qual o crente não pode discutir, pois não tem o direito de pô-lo em dúvida. No Espiritismo, como na Ciência e na Filosofia, só existem dogmas de razão, princípios resultantes de pesquisas e análises, susceptíveis de discussão. (N. do Rev.)

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