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Discurso Pronunciado no Túmulo de Allan Kardec por Camille Flammarion

Se os raios caloríficos e químicos, que agem constantemente na natureza, nos são imperceptíveis, é porque os primeiros ferem lentamente, e os segundos rapidamente a nossa retina. Os nossos olhos só percebem os objetos entre dois limites, aquém e além dos quais nada vêem.

O nosso organismo terrestre pode ser comparado a uma harpa de duas cordas, que são o nervo ótico e o auditivo. Uma certa espécie de movimento põe em vibração o primeiro, e outra espécie diferente, o segundo. Vai nisso toda a sensação humana, mais fraca que a de certos seres vivos, de certos insetos, por exemplo, nos quais as cordas da vista e da audição são mais delicadas.

Ora, na natureza existem, na realidade, não duas, mas dez, cem, mil espécies de movimentos. A física ensina, pois, que vivemos no meio de um mundo invisível e que não é impossível que seres, igualmente invisíveis, vivam na Terra, com sensações absolutamente diferentes das nossas, sem que lhes possamos apreciar a presença, salvo quando se nos manifestam por fatos pertencentes à ordem das sensações.

Diante de tais verdades, que começam a bruxulear, quanto é absurda e sem valor a negação a priori!

Quando se compara o pouco que sabemos e a exigüidade da nossa esfera de percepção, à quantidade do que existe, não se pode deixar de concluir que nada sabemos, que tudo nos falta conhecer.

Com que direito, pois, pronunciaremos a palavra "impossível" diante dos fatos, que testemunhamos, sem podermos descobrir a causa única?

A ciência fornece-nos dados tão autorizados como os precedentes sobre os fenômenos da vida e da morte e sobre a força que nos anima. Basta-nos considerar a circulação das existências.

Tudo é metamorfose. Em seu eterno curso, os átomos constitutivos da matéria passam incessantemente de um a outro corpo, do animal ao vegetal, da planta à atmosfera, da atmosfera ao homem, e o nosso corpo, durante a vida, muda constantemente de substância constitutiva, como a chama, que não brilha senão pela constante renovação de elementos; e, quando a alma o dispa, esse corpo, tantas vezes transformado, entrega definitivamente à natureza todas as suas moléculas para não mais retornar.

O absurdo dogma da ressurreição da carne é substituído hoje pela alta doutrina da transmigração das almas.

Vede este sol de abril, que brilha nos céus e que nos inunda com os seus raios vivificadores. Acordam as campinas, desabrocham os primeiros rebentos das árvores, floresce a primavera, sorri o azul celeste e a ressurreição opera-se por toda a parte. Entretanto é da morte que surge toda esta vida; é das ruínas que lhe provém a animação!

De onde vem a seiva destas árvores, que reverdecem em campo de mortos? De onde vem a umidade que lhes alenta as raízes?

De onde todos os elementos que lhes fazem aparecer, nas carícias de maio, as flores silenciosas e os passarinhos cantadores?

Vêm da morte!... Meus senhores; vêm desses cadáveres sepultados na noite sinistra dos túmulos!

Por lei suprema da natureza, o corpo material é um agregado transitório de partículas, que lhe não pertencem e que a alma agrupa, segundo um determinado tipo, para formarem órgãos, que a ponham em relação com o mundo físico. Enquanto o nosso corpo se renova, peça por peça, pela perpétua substituição das partículas, enquanto tomba um dia, massa inerte, para o túmulo, de que não mais se ergue, o nosso Espírito, ser pessoal, guarda sempre a identidade indestrutível e reina como soberano sobre a matéria de que se revestiu, estabelecendo por esse fato, constante e universal, a sua personalidade independente, a sua essência espiritual não sujeita ao império do tempo e do espaço, a sua grandeza individual, a sua imortalidade.

Em que consiste o mistério da vida? Por que laços se prende a alma ao organismo? Que os desfaz para que ela se escape? Sob que forma e em que condições existe ela depois da morte? Que recordações, que afetos guarda?

São estes, meus senhores, outros tantos problemas que ainda estão longe de ser resolvidos e cujo conhecimento constituirá a ciência psicológica do futuro.

Podem alguns negar a existência da alma e de Deus, afirmar que não existe a verdade moral, que não há, na natureza, leis inteligentes e que nós, os espiritualistas, somos vítimas de pura ilusão.

Podem outros, ao contrário, declarar que conhecem, por particular privilégio, a essência da alma humana, a forma do Ser Supremo, o estado da vida futura, e qualificar-nos de ateus, porque a nossa razão não admite a sua fé. Uns e outros não poderão impedir que estejamos em face dos maiores problemas, que nos interessamos por estas coisas, que não nos são indiferentes e estranhas, e que tenhamos o direito de aplicar o método experimental da ciência contemporânea à pesquisa da verdade.

É pelo estudo positivo dos efeitos que se remonta ao conhecimento das causas. Na ordem dos estudos, genericamente denominados como de "Espiritismo", os fatos existem, embora não se conheça o modo da produção. Existem tão realmente como os fenômenos elétricos, luminosos, caloríficos, mas senhores não lhes conhecemos nem a biologia, nem a fisiologia.

Que é o corpo humano? Que é o cérebro? Qual a ação absoluta da alma? Ignoramo-lo. Também ignoramos a essência da eletricidade, a essência da luz. É pois de suma sabedoria observar todos esses fatos sem idéia preconcebida, e procurar descobrir as causas, que são porventura de espécies diversas e mais numerosas do que o temos suposto.

Que importa que joguem sobre este gênero de estudos o sarcasmo ou o anátema aqueles cuja vista é turvada pelo orgulho ou por preconceitos, que os impedem de compreender os ansiosos desejos do nosso pensamento ávido de conhecer; mais alto elevaremos as nossas contemplações!

Tu foste o primeiro, mestre e amigo! Foste o primeiro que, desde os meus primeiros passos na carreira astronômica, testemunhaste a mais viva simpatia por minhas deduções relativas à existência das humanidades celestes; pois que, do meu livro Pluralidade dos Mundos Habitados, fizeste a pedra angular do edifício doutrinário, que tinhas arquitetado em tua mente. Muitas vezes conversamos sobre essa vida celeste tão misteriosa, e agora, oh! alma, já sabes, por uma visão direta, em que consiste ela, a vida espiritual, para a qual voltaremos, embora dela nos esqueçamos enquanto aqui estamos.

Agora já pertences a esse outro mundo de onde viemos, e colhes o fruto dos teus estudos terrestres. O teu invólucro dorme a nossos pés, o teu cérebro está paralisado, os teus olhos fechados para nunca mais se abrirem, a tua palavra está extinta para não mais poder ser ouvida...

Bem sabemos que todos cairemos neste derradeiro sono, nesta inércia, neste pó. Não é pois neste invólucro que pomos a nossa glória e esperança. O corpo cai, mas a alma ergue-se e volta para o espaço.

Um dia estaremos em melhor mundo, lá no céu imenso, onde se exercerão as nossas poderosas faculdades; continuaremos os estudos que, aliás, tinham na Terra um teatro muito pequeno para que se desenvolvessem satisfatoriamente. Preferimos crer nesta verdade a julgar que estás todo inteiro neste cadáver, e que a tua alma tenha sido destruída pela cessação do movimento de um órgão.

A imortalidade é a luz da vida, como este brilhante sol é a luz da natureza.

Até logo, meu caro Allan Kardec, até logo.

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