Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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Discurso Pronunciado no Túmulo de Allan Kardec por Camille Flammarion

Talvez, senhores, fosse melhor que as coisas tivessem assim começado. É preciso sempre não amesquinhar o valor do sentimento. Quantas consolações tem levado aos corações esta crença religiosa! Quantas lágrimas tem enxugado! Quantas consciências se têm aberto aos raios da beleza espiritual!

Ninguém é feliz na Terra, onde muitas afeições são despedaçadas, onde muitas almas têm sido envenenadas pelo ceticismo. Não é de grande valia ter trazido ao espiritualismo tantos seres, que flutuavam num mar de dúvidas e eram indiferentes à vida física e à intelectual?

Tivesse ALLAN KARDEC sido homem de ciência, sem dúvida não teria podido prestar esses benéficos serviços, nem levar tão longe o estímulo para os corações. Ele foi o que simplesmente chamarei "o bom senso encarnado". Razão firme e judiciosa, aplicava sem omissão, à sua obra permanente, as íntimas indicações do senso comum.

Não era essa uma qualidade somenos na ordem das coisas, que nos ocupam. Era seguramente a primeira de todas e a mais preciosa, sem a qual a obra não se teria popularizado nem distendido pela Terra as suas grandes raízes.

A maior parte dos que se têm dedicado a esses estudos se lembram de haver, na mocidade ou em circunstâncias especiais, sido testemunhas de inexplicáveis manifestações. Bem poucas são as famílias que não as tenham observado. O essencial era aplicar-lhes a razão firmado no bom senso e examiná-las segundo os princípios do método positivo; como previra o fundador desse estudo lento e difícil, deve ele, em sua complexidade, entrar agora no período científico.

Os fenômenos físicos, que a princípio não provocavam exame sério, devem ser objeto da crítica experimental, a que devemos a glória dos modernos progressos e as maravilhas da eletricidade e do vapor. Esse método deve também abranger os fenômenos de ordem ainda maravilhosa, a que temos assistido, para dissecá-los, medi-los, defini-los.

Porque, senhores, o Espiritismo não é uma religião, mas uma ciência, da qual apenas conhecemos o a, b, c. Já passou o tempo dos dogmas.

A natureza abarca o universo, e o próprio Deus, que outrora se considerava feito à imagem do homem, não pode ser agora considerado pela metafísica moderna senão como um Espírito na natureza. Não existe o sobrenatural.

As manifestações obtidas por médiuns, como as do magnetismo e do sonambulismo, são de ordem natural e devem ser rigorosamente submetidas ao cadinho da experiência. Não há milagres. Assistimos ao romper da aurora de uma ciência desconhecida. Quem poderá prever a que conseqüências conduzirá, no mundo do pensamento, o estudo positivo dessa nova psicologia?

A ciência governa o mundo daqui para diante e, senhores, não será descabido neste discurso fúnebre acentuar a sua obra atual e as induções novas, que ela nos descobre, precisamente com referência às nossas pesquisas.

Nunca em época alguma da história a ciência deslumbrou a vista dos homens com tão grandiosos horizontes. Sabemos hoje que a Terra é um astro e que a nossa vida atual se completa no céu. Pela análise da luz, conhecemos os elementos de combustão, no sol e nas estrelas, a milhões e a trilhões de léguas do nosso observatório terrestre. Pelo cálculo, possuímos a história do céu e da Terra, tanto em seu passado mais remoto, como em seu futuro, os quais não existem para as leis imutáveis. Pela observação, determinamos o peso dos globos celestes, que gravitam no espaço. O globo que habitamos é um átomo estelar perdido nas profundezas infinitas do espaço e a nossa própria existência é uma fração infinitesimal da nossa vida eterna.

O que porém mais nos pode impressionar é o admirável resultado dos trabalhos físicos realizados nestes últimos anos: que vivemos no meio de um mundo invisível em constante agitação ao nosso derredor. Sim, meus senhores, isto é para nós uma extraordinária revelação.

Contemplai, por exemplo, a luz neste momento difundida na atmosfera por este brilhante sol; contemplai este azul tão suave da abóbada celeste; apreciai estes eflúvios de ar tépido que nos acariciam as faces; reparai nestes monumentos e nestes campos; e por mais que tenhamos os olhos abertos, nada vemos do que aqui se passa!

De cem raios de sol apenas um terço é acessível à nossa vista, diretamente ou refletidos por estes corpos; os dois terços existem e agem juntos de nós, mas de modo invisível, embora real. São quentes, conquanto não sejam luminosos para nós e são muito mais ativos do que aqueles que nos tocam e produzem as ações químicas.(*) São eles que elevam, sob forma também invisível, o vapor d'água na atmosfera, de que se formam as nuvens, exercendo assim, incessantemente, em torno de nós e de maneira oculta e silenciosa, um movimento colossal, comparável ao esforço de milhares de cavalos.

(*) É insensível a esses raios a nossa retina. São, porém, vistos por outras substâncias, como o iodo e os sais de prata. Fotografa-se o espectro solar químico, que os nossos olhos não vêem. Ao ser retirada da câmara escura, a placa fotográfica nunca oferece uma imagem visível, embora a possua, como prova a operação química que a faz aparecer. (Nota do revisor francês.)

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