Livro selecionado: "Obras Póstumas "

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Biografia de Allan Kardec

As suas principais obras acerca da nova matéria são: O Livro dos Espíritos, para a parte filosófica, cuja primeira edição apareceu a 18 de abril de 1857. O Livro dos Médiuns, para a parte experimental e científica, publicada em janeiro de 1861. O Evangelho segundo o Espiritismo, para a parte moral, publicada em abril de 1864. O Céu e o Inferno, ou A Justiça Divina segundo o Espiritismo, agosto de 1865. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, janeiro de 1868. A Revista Espírita, órgão de estudos psicológicos, publicação mensal começada em 1o de janeiro de 1858.

Fundou em Paris, a 1o de abril de 1858, a primeira sociedade espírita regularmente constituída, com o nome de Societé parisienne des études spirites, cujo fim exclusivo era o estudo de tudo quanto pudesse contribuir para o progresso da nova ciência.

ALLAN KARDEC se defendeu admiravelmente da pecha de haver escrito sob a influência de idéias preconcebidas ou sistemáticas. Homem de caráter frio e severo, observara os fatos e das observações deduziu as leis que os regem; foi o primeiro que, a propósito desses fatos, estabeleceu teoria e constituiu um corpo de doutrina, regular e metódico. Demonstrando que os fatos, falsamente chamados sobrenaturais, são sujeitos a leis, os subordinou à categoria dos fenômenos da natureza, e fez ruir, assim, o último reduto do maravilhoso, que é uma das causas da superstição.

Durante os primeiros anos de preocupação com os fenômenos espíritas, foram estes mais objeto de curiosidade que de meditações sérias.

O Livro dos Espíritos fez com que fossem encarados por outra face: desprezaram-se as mesas falantes, que tinham sido o prelúdio e se ligou o fenômeno a um corpo de doutrina, que compreendia questões concernentes à humanidade.

Da aparição do livro data a verdadeira fundação do Espiritismo, que até então só possuía elementos esparsos, sem coordenação, e cujo alcance não tinha sido comprendido por todos. Também foi desde aquela época que a doutrina prendeu a atenção dos homens sérios e adquiriu rápido desenvolvimento.

Em poucos anos, as idéias espíritas contavam com numerosos aderentes nas classes sociais e em todos os países. O êxito, sem precedentes, é obra da simpatia que essas idéias encontram, mas também é devido, em grande parte, à clareza característica dos escritos de ALLAN KARDEC.

Abastendo-se das fórmulas abstratas da metafísica, o autor soube fazer-se ler sem fadiga, condição essencial para vulgarização de uma idéia. Sobre todos os pontos de controvérsia, a sua argumentação, de uma lógica cerrada, oferece pouco material à contestação e predispõe o antagonista à convicção.

As provas materiais, que o Espiritismo fornece tanto da existência da alma como da vida futura, derrocam as idéias materialistas e panteístas. Um dos princípios mais fecundos da doutrina, o qual decorre do precedente, é o da pluralidade das existências, já entrevista por inúmeros filósofos antigos e modernos e, nestes últimos tempos, por Jean Reynaud, Charles Fourier, Eugène Sue e outros; mas tinha ficado no estado de hipótese, ao passo que o Espiritismo demonstra a sua realidade e prova que é um dos atributos essenciais da humanidade. Desse princípio decorre a solução de todas as anomalias aparentes da vida humana, de todas as desigualdades intelectuais, morais e sociais. O homem sabe assim donde vem, para onde vai, para que fim está na Terra e porque sofre aqui.

As idéias inatas explicam-se pelos conhecimentos adquiridos em vidas anteriores; o caminhar dos povos explica-se pelos homens do tempo passado, que voltam a esta vida, depois de terem progredido; as simpatias e as antipatias, pela natureza das relações anteriores, relações que ligam a grande família humana de todas as épocas aos altos princípios da fraternidade, da igualdade, da liberdade e da solidariedade universal e têm por base as mesmas leis da Natureza e não mais uma teoria.

Em vez do princípio: Fora da Igreja não há salvação, que mantém a divisão e a animosidade entre as diferentes seitas e que tanto sangue tem feito correr — o Espiritismo tem por máxima: Fora da caridade não há salvação, isto é, a igualdade dos homens perante Deus, a liberdade da consciência, a tolerância e a benevolência mútuas. Em vez da fé cega, que aniquila a liberdade de pensar, ensina: a fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade; para a fé é preciso uma base e esta é a inteligência perfeita do que se deve crer; para crer não basta ver, é preciso sobretudo compreender; a fé cega não é mais deste século; ora, é precisamente o dogma da fé cega que produz hoje o maior número de incrédulos, por querer impor-se, exigindo a alimentação das mais preciosas faculdades do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio. (O Evangelho segundo o Espiritismo).

Trabalhador infatigável, sempre o primeiro a iniciar o trabalho e o último a deixá-lo, ALLAN KARDEC sucumbiu a 31 de março de 1869, em meio dos preparativos para mudar de domicílio, como lhe exigia a extensão considerável das múltiplas ocupações.

Numerosas obras, que tinha em mão, ou que só esperavam oportunidade para vir a lume, provar-lhe-ão um dia a magnitude das concepções.

Morreu como viveu: trabalhando. Desde longos anos sofria do coração, que reclamava, como meio de cura, o repouso intelectual, com pequena atividade material. Ele, porém, inteiramente entregue às obras, negava-se a tudo o que lhe roubasse um instante das suas ocupações de predileção.

Nele, como em todas as almas de boa têmpera, a lima do trabalho gastou o aço do invólucro. O corpo, entorpecido, recusava-lhe os serviços; mas o espírito, cada vez mais vivaz, mais enérgico, mais fecundo, alargava-lhe o círculo da atividade. Na luta desigual a matéria nem sempre podia resistir. Um dia foi vencida: o aneurisma rompeu-se e ALLAN KARDEC caiu fulminado.

Um homem desapareceu da Terra, mas o seu grande nome tomou lugar entre as ilustrações do século e um culto espírito foi retemperar-se no infinito, onde aqueles, que ele próprio havia consolado e esclarecido, lhe esperavam a volta com impaciência.

"A morte — dizia mui recentemente —, a morte amiúda os golpes na falange dos homens ilustres!... A quem virá ela agora libertar?"

Foi ele, depois de tantos outros, retemperar-se no espaço e buscar outros elementos para renovar o organismo gasto por uma vida de labores incessantes. Partiu com aqueles que virão a ser os luminares da nova geração, a fim de voltar com eles para continuar e concluir a obra que deixou confiada a mãos dedicadas.

O homem deixou-nos, mas a sua alma será sempre conosco. É um protetor seguro, uma luz a mais, um labutador infatigável, que foi aumentar as forças das falanges do espaço.

Como na Terra, saberá moderar o zelo dos impetuosos, secundar as intenções dos sinceros e dos desinteressados, estimular os vagarosos — saberá enfim, sem ferir a ninguém, fazer com que todos lhe ouçam os mais convenientes conselhos.

Ele vê e reconhece agora o que ainda ontem apenas previa. Não mais está sujeito às incertezas e aos desfalecimentos e contribuirá para participarmos das suas convicções, fazendo-nos alcançar a meta, dirigindo-nos pelo bom caminho, tudo nessa linguagem clara, precisa, que constitui um característico nos anais literários.

O homem, nós o repetimos, deixou-nos, mas ALLAN KARDEC é imortal, e a sua memória, os trabalhos, o Espírito, estarão sempre com aqueles que sustentarem com firmeza e elevação a bandeira, que ele sempre soube fazer respeitar.

Uma individualidade pujante construiu o monumento. Esse monumento será, para nós na Terra a personificação daquela individualidade. Não se congregarão em torno de ALLAN KARDEC: congregar-se-ão em torno do Espiritismo, que é o monumento por ele erigido. Através dos conselhos dele, sob a sua influência, caminharemos com passo firme para essas fases venturosas prometidas à humanidade regenerada.

(Revue Spirit. Maio de 1869)

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