Livro selecionado: "A Gênese"

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Teoria da Presciência

7. Freqüentemente, as pessoas dotadas da faculdade de prever, no estado extático ou sonambúlico, vêem os acontecimentos se desenharem como num quadro. Isso poderia também se explicar pela fotografia do pensamento. Um acontecimento que está no pensamento dos Espíritos que trabalham para sua concretização, ou no pensamento dos homens cujos atos o devem provocar, tal pensamento, atravessando o espaço como os sons atravessam o ar, pode tornar a imagem visível pelo vidente; porém, como a realização pode ser apressada ou retardada por um concurso de circunstâncias, ele vê a coisa sem poder precisar o momento de sua realização. Talvez mesmo esse pensamento possa ser apenas um projeto, um desejo, que pode não ter seguimento; daí os freqüentes erros de fato e de data nas previsões. (Cap. XIV, ns. 13 e seguintes).

8. Para compreender as coisas espirituais, isto é, para se fazer delas uma idéia tão nítida quanto aquela que comparávamos com a de uma paisagem que estivesse sob nossos olhos, falta-nos verdadeiramente um sentido, exatamente como ao cego falta o sentido necessário para compreender os efeitos de luz, das cores, e da vista sem o contato. Também, não é senão mediante um esforço da imaginação que nós chegamos a tal resultado, auxiliados por comparações extraídas das coisas que nos são familiares. Porém as coisas materiais não podem dar senão idéia muito imperfeita das coisas espirituais; é por isso que não deveríamos tomar tais comparações ao pé da letra, e crer, por exemplo, que a extensão das faculdades perceptivas dos Espíritos se relaciona com sua efetiva elevação, e que eles têm necessidade de estar sobre uma montanha, ou acima das nuvens, para abarcar o tempo ou o espaço.

Tal faculdade é inerente ao estado de espiritualização, ou se o preferirmos, de desmaterialização; isto é, a espiritualização produz um efeito que se pode comparar, embora muito imperfeito, àquele da vista de conjunto do homem no alto da montanha. Esta comparação tinha simplesmente a finalidade de mostrar que os acontecimentos que estão no futuro para uns, estão no presente para outros, e podem assim ser preditos, o que não implica na produção do efeito pela mesma maneira.

Para gozar dessa percepção, o Espírito não tem pois necessidade de se transportar a algum ponto do espaço; aquele que está na Terra, a nosso lado pode possuí-la em sua plenitude, tão bem como se estivesse a mil léguas, enquanto que nada vemos além do horizonte visual. A vista, nos Espíritos, não se produz da mesma maneira que no homem, nem com os mesmos elementos; seu horizonte visual é inteiramente outro; ora, é precisamente este o sentido que nos falta para o conceber; o Espírito, ao lado do encarnado, é como aquele que vê ao lado de um cego.

9. Além disso, será preciso saber que essa percepção de todas as coisas, repetimos, é uma faculdade inerente e proporcionada ao estado de desmaterialização. Esta faculdade é amortecida pela encarnação, mas não é completamente anulada, pois a alma não é encerrada no corpo como numa caixa. O encarnado a possui, embora sempre num grau menor que quando a alma se encontra completamente libertada; é isso que dá a certos homens um poder de penetração que falta totalmente a outros, uma justeza maior no golpe de vista moral, uma compreensão mais fácil das coisas extra-materiais.

Não só o Espírito encarnado percebe, mas lembra-se do que viu no estado de Espírito, e essa lembrança é como um quadro que se recompõe no seu pensamento. Na encarnação, ele vê, porém vagamente e como através de um véu; no estado de liberdade ele vê e concebe claramente. O princípio da vista não está fora dele, mas nele; é por isso que não tem necessidade de nossa luz exterior. Por efeito do desenvolvimento moral, o círculo das idéias e a concepção, se alargam; pela desmaterialização gradual do perispírito, este se purifica dos elementos grosseiros que alterariam a delicadeza das percepções; do que se conclui que a extensão de todas as faculdades acompanha o progresso do Espírito.

10. É o grau de extensão das faculdades do Espírito, que, na encarnação, o torna mais ou menos apto a conceber as coisas espirituais. Todavia, esta aptidão não é a conseqüência necessária do desenvolvimento da inteligência; a ciência vulgar não a confere: é por isso que se encontram homens de grande saber, tão cegos para as coisas espirituais como outros o são para as coisas materiais; são refratários, porque não as compreendem; isto significa que seu progresso ainda não se realizou em tal sentido, enquanto que se encontram pessoas de instrução e inteligência vulgares, dominando tais assuntos com a maior facilidade, prova de que antecipadamente tinham a intuição delas. É para estes uma recordação retrospectiva daquilo que já viram e já souberam, seja na erraticidade, seja em suas existências anteriores, assim como outros têm a intuição das línguas e das ciências, que antes já conheceram e possuíram.

11. Quanto ao futuro do Espiritismo, os Espíritos, como se sabe, são unânimes em afirmar o triunfo próximo, apesar dos entraves que se lhe opõem; esta previsão lhes é fácil, primeiro porque sua propagação é sua obra pessoal: auxiliando o movimento, ou dirigindo-o, sabem, por conseqüência, o que devem fazer com o mesmo; em segundo lugar, basta-lhes considerar um período de curta duração, e em tal período, eles vêem os poderosos auxiliares que Deus lhes suscita, e que não tardarão a se manifestar.

Sem ser Espíritos desencarnados, que os espíritas se transportem apenas a um período de trinta anos atrás, até a geração que surge; que dali, considerem o que se passa hoje, que sigam a marcha progressiva, e verão consumir-se em vãos esforços aqueles que acreditam ser chamados a anulá-lo; eles os verão desaparecer pouco a pouco da cena, ao lado da árvore que cresce e cujas raízes se estendem cada dia mais.

12. Os acontecimentos vulgares da vida privada são, freqüentemente, a conseqüência da maneira de agir de cada um: aquele será bem sucedido segundo suas capacidades, sua habilidade, sua perseverança, sua prudência, e sua energia, em assuntos nos quais outro malogrará por sua insuficiência; de modo que se pode dizer que cada um é o arquiteto de seu próprio futuro, o qual não está jamais submetido a uma cega fatalidade independente da pessoa. Conhecendo o caráter de um indivíduo, facilmente se lhe pode predizer a sorte que o espera no caminho a que se aplica.

15. Os sucessos que dizem respeito aos interesses gerais da humanidade são regulados pela Providência. Quando uma coisa está nos desígnios de Deus, ele deve realizar-se de qualquer modo, seja por um meio, seja por outro. Os homens concorrem para sua realização, porém ninguém é indispensável; de outro modo, o próprio Deus estaria à mercê de suas criaturas. Se aquele a quem incumbe a missão de executar a tarefa se omitir, um outro será encarregado de sua realização. Não há missão fatal; o homem é sempre livre de preencher aquela que lhe é confiada, e que ele voluntariamente aceitou; se ele não o faz, perde o respectivo benefício, e assume a responsabilidade das demoras que possam ser o resultado de sua negligência ou de sua má vontade; se ele se tornar um obstáculo à sua realização, Deus pode quebrá-lo com um sopro.

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