Livro selecionado: "O Livro dos Médiuns "

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Capítulo XXXI

Comunicações Apócrifas

Há muitas vezes comunicações de tal maneira absurdas, embora assinadas por nomes os mais respeitáveis, que o mais vulgar bom senso demonstra a sua falsidade. Mas há aquelas em que o erro é disfarçado pela mistura com princípios certos, iludindo e impedindo às vezes que se faça a distinção a primeira vista. Mas elas não resistem a um exame sério. Daremos algumas a seguir, como exemplo.

XXIX - A criação perpétua e incessante dos mundos é para Deus como uma espécie de gozo perpétuo, porque ele vê continuamente seus raios se tornarem cada dia mais luminosos em felicidade. Não há número para Deus, como não há tempo. Eis porque centenas ou milhões não são nem mais nem menos para ele. É um pai, cuja felicidade se forma da felicidade coletiva de seus filhos. A cada segundo da criação ele vê uma nova felicidade vir se fundir na felicidade geral. Não há parada nem suspensão nesse movimento perpétuo, nessa grande felicidade incessante que fecunda a terra e o céu. Não conhecemos do mundo mais do que uma pequena fração, e tendes irmãos que vivem em latitudes que o homem ainda não conseguiu atingir.

Que significam esses calores terríveis e esses frios mortais que paralisam os esforços dos mais audaciosos? Acreditais simplesmente haver chegado aos limites do vosso mundo, quando não mais podeis avançar com os vossos precários recursos? Podeis então medir com precisão o vosso planeta? Não acrediteis nisso. Há no vosso planeta mais regiões desconhecidas do que as conhecidas. Mas como é inútil propagar ainda mais as vossas más instituições, todas as vossas leis imperfeitas, ações e modos de vida, há um limite que vos detém aqui ou ali e que vos deterá até que possais transportar as boas sementes que o vosso livre-arbítrio produzir. Oh, não, vós não conheceis o mundo que chamais Terra. Vereis na vossa existência um grande começo de provas desta comunicação. Eis que a hora vai soar, em que haverá uma outra descoberta além da última que foi feita; vereis que vai se alargar o círculo da vossa Terra conhecida, e quando toda a imprensa cantar essa hosana em todas as línguas, vós pobres crianças que amais a Deus e procurais o seu caminho, o sabereis antes mesmo que aqueles que darão o seu nome à nova terra.

Vicente de Paulo

Observação - Do ponto de vista do estilo esta comunicação não suporta a crítica. As incorreções, os pleonasmos, os torneios viciosos saltam aos olhos de quem quer que seja um pouco letrado. Mas isso não provaria nada contra o nome com que está assinada, atendendo-se que essas imperfeições poderiam provir da insuficiência do médium, como já demonstramos. O que pertenceria ao Espírito seria a idéia. Ora, quando ele diz que há no nosso planeta mais regiões desconhecidas do que conhecidas, que um novo continente vai ser descoberto, isso, é, para um Espírito que se diz superior, dar prova da mais profunda ignorância. Não há dúvida que se podem descobrir, além das regiões geladas, alguns recantos de terra ainda desconhecidos, mas dizer que essas terras são povoadas e que Deus as ocultou aos homens a fim de que eles não levassem para elas as suas más instituições, é ter demasiada confiança na cegueira daqueles que recebem semelhantes absurdos.

XXX - Meus filhos, nosso mundo material e o mundo espiritual, que tão pouco ainda se conhece, são como dois pratos de uma balança perpétua. Até aqui as nossas religiões, as nossas leis, os nossos costumes e as nossas paixões fizeram de tal maneira pender o prato do mal, para elevar o do bem, que temos visto o mal reinar soberano sobre a Terra. Através dos séculos é sempre a mesma lamentação que sai da boca do homem, e a conclusão fatal é a injustiça de Deus. Há mesmo os que vão até a negação da existência de Deus. Vedes tudo aqui e nada lá; vedes o supérfluo que fere a necessidade, o ouro que brilha junto à lama, todos os contrastes, os mais chocantes, que deveriam provar a vossa dupla natureza. De onde vem isso? De quem a falta? Eis o que é necessário procurar com tranqüilidade e com imparcialidade. Quando se deseja sinceramente encontrar um bom remédio, a gente o encontra. Pois bem! Malgrado essa dominação do mal sobre o bem, pela vossas próprias faltas, por que não vedes o resto seguir direito a linha traçada por Deus? Vedes as estações se desarranjarem? O calor e o frio se chocarem inconsideradamente? A luz do sol esquecer-se de clarear a Terra? A Terra esquecer no seu seio a semente que o homem ali depositou? Vedes cessarem os mil milagres perpétuos que se produzem aos nossos olhos, desde a germinação da erva até o nascimento da criança, homem futuro?

Mas se tudo vai bem do lado de Deus, tudo vai mal do lado do homem. Qual o remédio para isso? É bem simples: aproximar-se de Deus. Amarem-se, unirem-se, entenderem-se e seguirem tranqüilamente a estrada, cujas marcas se percebem com os olhos da fé e da consciência.

Vicente de Paulo

Observação - Esta comunicação foi recebida no mesmo círculo da anterior. Mas que diferença! Não só pelas idéias, mas também quanto ao estilo. Tudo nela é justo, profundo, sensato, e certamente São Vicente de Paulo não a renegaria. Eis porque, sem temor, lhe podemos atribuir.

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