Livro selecionado: "O Livro dos Médiuns "

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Capítulo XXIX

Sociedades Propriamente Ditas (continuação)

338. Além das pessoas notoriamente malévolas que se infiltram nas reuniões há as que, por temperamento, levam a perturbação onde comparecem. Dessa maneira nunca será demasiado o cuidado na admissão de novos elementos. Os mais prejudiciais, nesse caso, não são os ignorantes da matéria, nem mesmo os descrentes. A convicção só se adquire através da experiência, e há pessoas de boa fé que querem se esclarecer. Aqueles contra os quais particularmente se devem acautelar são as pessoas dotadas de idéias preconcebidas, os incrédulos sistemáticos que duvidam de tudo, mesmo da evidência, os orgulhosos que pretendem ter o privilégio da verdade e procuram impor sempre a sua opinião olhando com desdém os que não pensam como eles. Não vos enganeis com o seu pretenso desejo de esclarecimento. Encontrareis vários que se sentiriam aborrecidos se fossem obrigados a concordar que estavam errados. Guardai-vos sobretudo desses oradores insípidos que sempre querem falar por último e dos que só se comprazem na contradição. Uns e outros fazem perder tempo sem proveito, nem mesmo para eles. Os Espíritos não gostam de palavreados inúteis.

339. Diante da necessidade de evitar toda a causa de perturbação e distração, uma sociedade espírita que se organiza deve pôr toda sua atenção nas medidas destinadas a evitar os fatores de desordem e os motivos de prejuízos, facilitando os meios de afastá-los. As pequenas reuniões necessitam de um regulamento disciplinar bem simples para ordem das sessões. As sociedades regularmente constituídas exigem uma organização mais completa. A melhor será a de sistema menos complicado. Umas e outras poderão tirar o que lhes for aplicado, que creiam lhes ser útil, do regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas que damos logo adiante.

340. As sociedades, pequenas ou grandes e todas as reuniões, seja qual for a sua importância, têm ainda de lutar contra outra dificuldade. Os fatores de perturbação não se encontram somente entre os seus membros, mas também no mundo invisível. Assim como há Espíritos protetores para as instituições, as cidades e os povos, os Espíritos malfeitores também se ligam aos grupos e aos indivíduos. Ligam-se primeiro aos mais fracos, aos mais acessíveis, procurando transformá-los em seus instrumentos, e pouco a pouco vão envolvendo a todos, porque sua alegria maligna é tanto maior quanto maior o número dos que tenham subjugado. Todas as vezes, pois, que num grupo uma pessoa tenha caído na armadilha é necessário dizer que se tem um inimigo no campo, um lobo no redil e que se deve ter cautela porque o mais provável é que aumente as suas tentativas. Se não se desencorajar esse elemento por uma resistência enérgica, a obsessão se torna um mal contagioso que se manifestará entre os médiuns pela perturbação da mediunidade e entre os demais pela hostilidade recíproca, a perversão do senso moral e a destruição da harmonia. Como o mais poderoso antídoto desse veneno é a caridade, é ela que eles procuram abafar. Não se deve pois esperar que o mal se torne incurável para lhe aplicar o remédio. Nem mesmo se devem esperar os primeiros sintomas, pois é necessário sobretudo preveni-lo. Para isso há dois meios eficazes, quando bem aplicados: a prece feita de coração e o estudo atento dos menores sintomas que revelem a presença de Espíritos mistificadores. A primeira atrai os Espíritos bons que só assistem zelosamente aos que sabem secundá-Ios pela confiança em Deus; o outro prova aos maus que se puseram em relação com pessoas esclarecidas e bastante sensatas para não se deixarem enganar. Se um dos membros do grupo cair sob a influência da obsessão, todos os esforços devem tender, desde os primeiros sinais, a lhe abrir os olhos, antes que o mal se agrave, a fim de levá-lo à compreensão de que foi enganado e ao desejo de ajudar os que o procuram livrar.

341. A influência do meio decorre da natureza dos Espíritos e da maneira por que agem sobre os seres vivos. Dessa influência cada qual pode deduzir por si mesmo as condições mais favoráveis para uma sociedade que aspire a atrair a simpatia dos Espíritos bons, obtendo boas comunicações e afastando as más. Essas condições dependem inteiramente das disposições morais dos assistentes. Podemos resumi-Ias nos seguintes pontos:

• Perfeita comunhão de idéias e sentimentos;

• Benevolência recíproca entre todos os membros;

• Renúncia de todo sentimento contrário à verdadeira caridade cristã;

• Desejo uníssono de se instruir e de melhorar pelo ensinamento dos Espíritos bons e aproveitamento de seus conselhos. Quem estiver convencido de que os Espíritos superiores se manisfestam com o fim de nos fazer progredir e não para nos agradar, compreenderá que eles devem se afastar dos que se limitam a admirar o seu estilo sem tirar nenhum fruto das suas palavras e só são atraídos às sessões pelo maior ou menor interesse que elas oferecem, de acordo com seus gostos particulares;

• Exclusão de tudo o que nas comunicações solicitadas aos Espíritos só tenha por objetivo a curiosidade;

• Concentração e silêncio respeitoso durante as conversações com os Espíritos;

• Associação de todos os assistentes pelo pensamento no apelo aos Espíritos evocados;

• Concurso de todos os médiuns, com renúncia de qualquer sentimento de orgulho, de amor-próprio e de supremacia, com o desejo único de se tornarem úteis.

Essas condições serão tão difíceis de preencher que não se encontrem quem possa satisfazê-las? Não pensamos assim. Esperamos, pelo contrário, que as reuniões verdadeiramente sérias, como as já existentes em diferentes lugares, se multiplicarão e não hesitamos em dizer que a elas o Espiritismo deverá a sua mais ampla divulgação. Unindo os homens honestos e conscienciosos elas imporão silêncio à crítica, e quanto mais pura forem as suas intenções mais serão respeitadas, até mesmo pelos seus adversários. Quando a zombaria ataca o bem deixa de provocar o riso e torna-se desprezível. Entre as reuniões dessa espécie é que se estabelecerão laços de real simpatia, uma solidariedade mútua, pela própria força das circunstâncias, contribuindo para o progresso geral.

342. Seria um erro supor que as reuniões especialmente dedicadas às manifestações físicas estejam excluídas desse concerto fraterno e da exigência de qualquer seriedade. Se elas não requerem condições tão rigorosas, nem por isso poderiam ser realizadas e assistidas impunemente com leviandade. Seria engano pensar que o concurso dos assistentes seja nulo nessas sessões. A prova do contrário está no fato de que freqüentemente as manifestações desse gênero, mesmo quando produzidas por médiuns bem dotados, não se realizam em determinados ambientes. As influências contrárias agem também sobre elas e é claro que decorrem das divergências ou hostilidade dos sentimentos dos assistentes, que neutralizam os esforços dos Espíritos.

As manifestações físicas têm grande utilidade. Abrem um vasto campo ao observador, pois é uma ordem inteiramente nova de fenômenos estranhos que se desenrola aos seus olhos e cujas conseqüências são incalculáveis. Uma reunião pode portanto ocupar-se dessas manifestações com finalidades bastante sérias, mas não poderia atingir o seu objetivo, seja como estudo ou como prova para formar convicção, se não se colocasse em condições favoráveis. A primeira delas é, não a crença dos assistentes, mas o seu desejo de esclarecer-se, sem segundas intenções, sem a idéia preconcebida de rejeitar a própria evidência. A segunda é a redução do número de assistentes para evitar a heterogeneidade. Se as manifestações físicas são em geral produzidas por Espíritos pouco adiantados, nem por isso a sua finalidade é menos providencial. Os Espíritos bons as favorecem, todas as vezes que elas possam atingir resultados proveitosos.

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