Livro selecionado: "O Livro dos Médiuns "

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Capítulo XXVIII

Fraudes Espíritas (continuação)

Todo o médium que fosse surpreendido em manobras fraudulentas, que fosse apanhado, para me servir de uma expressão um pouco trivial, com a mão na botija, mereceria ser posto de lado por todos os espiritualistas ou espíritas do mundo, para os quais constitui um dever rigoroso desmascará-lo e execrá-lo.

Se vos convier, senhor, inserir essas poucas linhas na vossa revista, elas estão à vossa disposição.

Aceitai, etc - MATHIEU.

318. Os fenômenos espíritas não são igualmente fáceis de imitar. Há alguns que desafiam evidentemente toda a habilidade da prestidigitação: tais são particularmente o movimento de objetos sem contatos, a suspensão dos corpos pesados no espaço, os golpes desferidos de diferentes lados, as aparições etc., salvo o emprego de truques e do compadrio. Por isso dizemos que em tal caso é necessário observar atentamente as circunstâncias e sobretudo levar em conta o caráter e a posição das pessoas, bem como o objetivo e o interesse que elas pudessem ter em enganar. Esse o melhor de todos os controles porque é de tais circunstâncias que decorrem todos os motivos de suspeitas. Pensamos pois que é necessário em princípio desconfiar de quem quer que faça desses fenômenos um espetáculo ou objeto de curiosidade e divertimento, ou que pretenda produzi-los à vontade, da maneira exigida, segundo já explicamos. Nunca repetiríamos demais que as inteligências ocultas que se manifestam têm as suas suscetibilidades e querem nos provar que têm o seu livre-arbítrio, não se submetendo aos nossos caprichos (nº 38).

Basta-nos assinalar alguns subterfúgios empregados ou que se podem empregar em certos casos para premunir contra a fraude os observadores de boa fé. Quanto às pessoas que se obstinam em julgar sem aprofundar a observação, seria tempo perdido procurar dissuadi-Ias.

319. Um dos fenômenos comuns é o dos golpes interiores produzidos na própria substância da madeira, acompanhados ou não de movimentos da mesa ou de outros objetos empregados. Esse efeito é um dos mais fáceis de imitar, seja pelo contato dos pés, seja provocando pequenos estalidos no móvel. Mas há uma pequena manobra especial que é útil prevenir. Basta colocar as mãos espalmadas sobre a mesa e aproximá-las para que as unhas dos polegares de apóiem fortemente uma na outra. Então por um movimento muscular inteiramente imperceptível provoca-se um atrito que produz um ruído seco, bastante semelhante aos da tiptologia interior. Esse ruído repercute na madeira e produz um completa ilusão. Nada mais fácil do que fazer ouvir tantos golpes quantos sejam pedidos, um toque de tambor etc., responder a certas perguntas por um sim ou por um não, por números ou mesmo por indicação de letras do alfabeto.

Uma vez prevenida é muito fácil reconhecer a fraude. Ela não é possível se as mãos estiverem distanciadas uma da outra e se se estiver assegurado de que nenhum outro contato pode produzir o ruído. Os golpes reais apresentam, aliás, isto de característico: mudam de lugar e de timbre à vontade, o que não pode acontecer quando produzidos pelas causas que assinalamos ou outras semelhantes. Assim é que saltam da mesa para se produzir em outro móvel que ninguém toca, nas paredes, no forro, etc., respondendo enfim a questões não previstas. (Ver nº 41 )

320. A escrita direta é ainda mais fácil de imitar. Sem falar dos agentes químicos bem conhecidos que fazem aparecer a escrita em dado tempo numa folha em branco, o que se pode evitar com as precauções mais vulgares, poderia acontecer que por uma hábil escamoteação se substituísse um papel por outro. Poderia dar-se também que o interessado na fraude soubesse desviar a atenção dos outros enquanto escrevesse rapidamente algumas palavras. Disseram-nos ainda que viram uma pessoa escrever assim com um pedacinho de ponta de Iápis escondido na unha.

321. O fenômeno do transporte também se presta à prestidigitação. Pode-se facilmente ser enganado por um escamoteador mais ou menos destro, mesmo que não seja profissional. No tópico especial que publicamos no nº 96 os Espíritos determinaram por si mesmos as condições excepcionais em que ele se pode produzir, sendo lícito concluir-se que a obtenção facultativa e fácil pode pelo menos ser considerada suspeita. A escrita direta está no mesmo caso.

322. No capítulo sobre Médiuns especiais mencionamos, de acordo com os Espíritos, as aptidões mediúnicas comuns e as que são raras. É conveniente desconfiar dos médiuns que pretendem possuir estas últimas muito facilmente ou ambicionam dispor de múltiplas faculdades, pretensão muito raramente justificada.

323. As manifestações inteligentes são, segundo as circunstâncias, as que oferecem maior garantia, mas nem por isso estão ao abrigo da imitação, pelo menos no que respeita às comunicações banais e vulgares. Acredita-se haver mais segurança nos médiuns mecânicos, não somente no tocante à independência das idéias mas também aos embustes. É por essa razão que certas pessoas preferem os intermediários materiais. Não obstante, trata-se de um engano. A fraude se infiltra por toda parte. Sabemos que com habilidade se pode dirigir à vontade uma cesta ou uma prancheta para escrever, dando-lhes todas as aparências de movimentos espontâneos. O que afasta todas as dúvidas são pensamentos expressos pelo médium, seja ele mecânico, intuitivo, auditivo, falante ou vidente. Há comunicações que de tal maneira extravasam das idéias, dos conhecimentos e mesmo do alcance intelectual do médium que seria necessário abusar estranhamente das hipóteses para lhes atribuirmos. Reconhecemos ao charlatanismo uma grande habilidade e fecundos recursos, mas não lhe reconhecemos ainda o dom de transmitir saber ao ignorante nem espírito a quem não o possui.

Em resumo, repetimos, a melhor garantia está na moralidade reconhecida dos médiuns e na ausência de todas as causas de interesse material ou de amor-próprio que pudessem estimular-lhes o exercício das faculdades mediúnicas, porque essas mesmas causas podem levá-los a simular aquelas que não possuem.(6)

(6) Essas precauções de Kardec, que revelam a sua isenção de ânimo e a sua atitude científica no trato dos fenômenos, têm sido interpretadas de maneira negativa pelos adversários do Espiritismo. As pessoas sensatas e os cientistas legítimos (livres de prevenções e preconceitos) reconhecem nessas precauções a prova mais evidente da seriedade das suas pesquisas, como o fizeram Richet, Geley, Zöllner e outros no passado, e como o fazem agora os parapsicólogos citados nas notas desta edição. (N. do T.)

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