Livro selecionado: "O Livro dos Médiuns "

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Capítulo XXVII

Das Contradições (continuação)

— Os Espíritos realmente superiores jamais se contradizem. Sua linguagem é sempre a mesma com as mesmas pessoas. Mas pode variar segundo as pessoas e os lugares. Deve-se, porém, prestar atenção a isto: a contradição é muitas vezes aparente e refletindo-se a respeito vê-se que a idéia fundamental é a mesma. Ademais, o mesmo Espírito pode responder diferentemente sobre a mesma questão, segundo o grau de perfeição dos que o evocam. Nem sempre convém que todos recebam a mesma resposta, por não estarem todos igualmente adiantados. É exatamente como se uma criança e um sábio te fizessem a mesma pergunta: certamente responderias a cada um de maneira a se fazer compreender e a satisfazê-los. As respostas, embora diferentes, teriam sempre o mesmo sentido.

3. Com que fim os Espíritos sérios parecem aceitar junto a certas pessoas idéias e até mesmo preconceitos que combatem junto de outras?

— É necessário que nos façamos compreender. Se alguém tem uma convicção bem estabelecida sobre uma doutrina, mesmo que falsa, devemos afastá-lo dessa convicção, mas a pouco e pouco. É por isso que nos servimos muitas vezes dos seus termos e aparentamos estar integrados nas suas idéias, a fim de que não se assuste de repente e deixe de se instruir conosco.

Aliás, não é conveniente atacar muito bruscamente os preconceitos. Seria esse um bom meio de não sermos ouvidos. Eis porque os Espíritos falam freqüentemente de acordo com a opinião dos que os escutam, procurando levá-los pouco a pouco à verdade. Apropriam a sua linguagem às pessoas, como tu mesmo o farás, se fores um orador um tanto hábil. É por isso que não falarão a um chinês ou a um muçulmano da mesma maneira que a um francês, a um cristão, pois estariam certos de ser repelidos.

Não se deve tomar por uma contradição o que geralmente é apenas uma fase da elaboração da verdade. Todos os Espíritos têm a sua tarefa marcada por Deus. Cumprem-na segundo as condições que consideram convenientes para beneficiar os que recebem suas comunicações.(2)

4. As contradições, mesmo aparentes, podem lançar dúvidas na mente de certas pessoas. De que método podemos servir-nos para conhecer a verdade?

— Para discernir o erro da verdade é necessário aprofundar no entendimento dessas respostas, meditando-as demorada e seriamente. É um verdadeiro estudo que se tem de fazer. Precisa-se de tempo para isso, como para todos os estudos.

Estudai, comparai, aprofundai-vos nas questões. Temos dito incessantemente: o conhecimento da verdade tem esse preço. Como quereis chegar à verdade interpretando tudo segundo as vossas idéias estreitas, que considerais grandes idéias? Mas não vem longe o dia em que o ensino dos Espíritos será um só para todos nos detalhes como nas linhas mestras. Sua missão é a de destruir o erro mas isso só se consegue gradativamente.

5. Há pessoas que não têm o tempo nem a aptidão necessária a um estudo sério e aprofundado. Aceitam sem exame o que lhes ensinam. Mas não há nisso, para elas também, o inconveniente de acreditar em erros?

— Que pratiquem o bem e não façam o mal, isso é o essencial. Para isso não há duas doutrinas. O bem é sempre o bem, quer o façam em nome de Alá ou de Jeová, porque só há um mesmo Deus para o Universo.

6. Como podem os Espíritos, que parecem desenvolvidos em inteligência, ter idéias evidentemente falsas sobre certas coisas?

— Eles têm as suas doutrinas. Os que não são bastante adiantados, mas julgam que o são, tomam as suas idéias pela verdade. É como acontece entre vós.(3)

(2) Estas explicações têm sido interpretadas maliciosamente por certos adversários do Espiritismo, que se fazem de desentendidos para acusar os Espíritos de hipócritas. Não se trata de impingir idéias a ninguém, o que os Espíritos superiores nunca fazem, mas de ajudar os que, iludidos por falsas idéias, necessitam de orientação no seu processo evolutivo. Todos os verdadeiros mestres usam esse sistema. (N. do T.)

(3) As doutrinas humanas são geralmente fechadas e estáticas. Formam sistemas de idéias a que os homens se apegam. Por isso a Doutrina Espírita se apresenta aberta e dinâmica, baseada na pesquisa e formada pelas contribuições de numerosos Espíritos e homens superiores. O Espiritismo não se apresenta como a verdade, mas como a busca incessante da verdade, que se acelera e amplia na proporção em que os homens e o mundo evoluem. (N. do T.)

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