Livro selecionado: "O Livro dos Médiuns "

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Capítulo XX

Influência Moral do Médium (continuação)

7. Por que os Espíritos superiores permitem que pessoas dotadas de grande mediunidade, e que poderiam fazer muito bem, se tornem instrumentos do erro?

— Eles procuram influenciá-las, mas quando elas se deixam arrastar por um mau caminho, não as impedem. É por isso que delas se servem com repugnância, porque a verdade não pode ser interpretada pela mentira.(1)

8. É absolutamente impossível receber boas comunicações por um médium imperfeito?

— Um médium imperfeito pode às vezes obter boas coisas, porque, se tem uma boa faculdade, os bons Espíritos podem servir-se dele na falta de outro, em determinada circunstância. Mas não o fazem sempre, pois quando encontram outro que melhor lhes convém, lhe dão preferência.

OBSERVAÇÃO - Deve-se notar que os Espíritos, ao considerarem que um médium deixa de ser bem assistido, tornando-se, por suas imperfeições, presa de Espíritos enganadores, quase sempre provocam circunstâncias que revelam os seus defeitos e o afastam das pessoas sérias, bem intencionadas, de cuja boa fé poderiam abusar. Nesse caso, sejam quais forem as suas faculdades, nada se tem a lamentar.

9. Qual seria o médium que poderíamos considerar perfeito?

— Perfeito? É pena, mas bem sabes que não há perfeição sobre a Terra. Se não fosse assim, não estarias nela. Digamos antes bom médium, e já é muito, pois são raros. O médium perfeito seria aquele que os maus Espíritos jamais ousassem fazer uma tentativa de enganar. O melhor é o que, simpatizando somente com os bons Espíritos, tem sido enganado menos vezes.

10. Se ele simpatiza apenas com os bons Espíritos, como estes permitem que seja enganado?(2)

— Os Espíritos bons permitem que os melhores médiuns sejam às vezes enganados, para que exercitem o seu julgamento e aprendam a discernir o verdadeiro do falso. Além disso, por melhor que seja um médium, jamais é tão perfeito que não tenha um lado fraco, pelo qual possa ser atacado. Isso deve servir-lhe de lição. As comunicações falsas que recebe de quando em quando são advertências para evitar que se julgue infalível e se torne orgulhoso. Porque o médium que recebe as mais notáveis comunicações não pode se vangloriar mais do que o tocador de realejo, que basta virar a manivela do seu instrumento para obter belas árias.

11. Quais as condições necessárias para que a palavra dos Espíritos superiores nos chegue sem qualquer alteração?

— Desejar o bem e repelir o egoísmo e o orgulho: ambos são necessários.

12. Se a palavra dos Espíritos superiores só nos chega pura em condições tão difíceis, isso não é um obstáculo à propagação da verdade?

— Não, porque a luz chega sempre ao que a deseja receber. Aquele que deseja esclarecer-se deve fugir das trevas, e as trevas estão na impureza do coração. Os Espíritos que consideras como personificações do bem não atendem de boa vontade aos que têm o coração manchado de orgulho, de cupidez e falta de caridade. Que se livrem, pois, de toda a vaidade humana, os que desejam esclarecer-se, e humilhem a sua razão ante o poder infinito do Criador. Será essa a melhor prova de sua sinceridade. E todos podem cumprir essa condição.(3)

(1) Esta resposta coincide com a que foi dada a Kardec pelo espírito de Hahnemann, a 10 de junho de 1856, quando ele pretendia apressar a elaboração de O Livro dos Espíritos, servindo-se de outro médium além das meninas Boudin. O Espírito, respondeu que não convinha, porque: a verdade não pode ser interpretada pela mentira. Ver o episódio em Obras Póstumas, segunda parte. (N. do T.)

(2) O verbo simpatizar é aplicado neste caso com o sentido de ter afinidade, ou como diríamos hoje, de sintonizar. (N. do T.)

(3) Humilhar a razão, que é sempre orgulhosa, submetendo-a à realidade dos fatos e reconhecendo a existência de um poder superior. Isto não quer dizer abdicar da razão, mas exercitá-la no bom sentido. O exercício da razão, que dá ao homem o poder de discernir e escolher, o torna orgulhoso, como o desenvolvimento das faculdades intelectuais no adolescente o faz atrevido e rebelde. Está nisso a dificuldade de unir a fé e a razão, que o Espiritismo, entretanto, vem resolver, dando à razão a sua justa aplicação. (N. do T.)

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