Livro selecionado: "O Livro dos Médiuns "
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Capítulo XIV
5. Médiuns Videntes (continuação)
170. Eis outro fato que prova a influência dos Espíritos sobre os homens, sem que estes o percebam. Assistimos a uma representação teatral com outro médium vidente. Conversando com um Espírito espectador, disse-nos ele: Estás vendo aquelas duas senhoras sozinhas num camarote de primeira? Pois bem, vou me esforçar para tirá-las do salão. Dito isso, foi colocar-se no camarote das senhoras e começou a falar-lhes. Súbito as duas, que estavam muito atentas ao espetáculo, se entreolharam, parecendo consultar-se e a seguir se foram, não voltando mais. O Espírito nos fez então um gesto gaiato, significando que cumprira a palavra. Mas não o pudemos rever para pedir-Ihe maiores explicações.
Na moderna Parapsicologia esses fatos foram também considerados em vários livros. Veja-se o trabalho recente da profa. Louise Rhine Os Canais Ocultos da Mente, no capítulo Efeitos físicos enigmáticos, que também relata curiosas ocorrências. Há uma tradução brasileira de Jacy Monteiro, lançada pela Editora Bestseller, São Paulo, 1966 (N. do T.)
Muitas vezes fomos assim testemunhas do papel que os Espíritos exercem entre os vivos. Observamo-los em diversos lugares de reunião: em bailes, concertos, sermões, funerais, núpcias, etc., e em toda parte os encontramos atiçando as más paixões, insuflando a discórdia, excitando as rixas e regozijando-se com suas proezas. Outros, pelo contrário, combatem essa influência perniciosa, mas só raramente são ouvidos.
171. A faculdade de ver os Espíritos pode sem dúvida se desenvolver, mas é uma dessas faculdades cujo desenvolvimento deve processar-se naturalmente, sem que o provoque, se não se quiser expor-se às ilusões da imaginação. Quando temos o germe de uma faculdade, ela se manifesta por si mesma. Devemos, por princípio, contentar-nos com aquelas que Deus nos concedeu, sem procurar o impossível. Porque então, querendo ter demais, arrisca-se a perder o que se tem.(13)
Quando dissemos que os casos de aparições espontâneas são freqüentes (nº 107), não quisemos dizer que sejam comuns. Quanto aos médiuns videntes, propriamente ditos, são ainda mais raros e temos muitas razões para desconfiar dos que pretendem ter essa faculdade. É prudente não lhes dar fé senão mediante provas positivas. Não nos referimos aos que alimentam a ridícula ilusão dos Espíritos-glóbulos, de que tratamos no nº 108, mas aos que pretendem ver os Espíritos de maneira racional.
Algumas pessoas podem sem dúvida enganar-se de boa fé, mas outras podem simular essa faculdade por amor-próprio ou por interesse. Nesse caso, deve-se particularmente levar em conta o caráter, a moralidade e a sinceridade habituais da pessoa. Mas é sobretudo nas questões circunstanciais que se pode encontrar o mais seguro meio de controle. Porque há circunstâncias que não podem deixar dúvidas, como nos casos de exata descrição de Espíritos que o médium jamais teve ocasião de conhecer quando encarnados.(14)
O caso seguinte pertence a essa categoria.
Uma senhora viúva, cujo marido se comunica freqüentemente com ela, encontrou-se um dia com um médium vidente que não a conhecia, nem à sua família, e o médium lhe disse: "Vejo um Espírito ao vosso lado." — "Ah, disse a senhora, é sem dúvida o meu marido, que quase nunca me deixa." — "Não, respondeu o médium, é uma senhora de certa idade, que está penteada de maneira estranha, com uma fita branca na testa."
Por esta particularidade e outros detalhes descritos, a viúva reconheceu sua avó, sem perigo de erro, e na qual nem sequer pensava nesse momento. Se o médium quisesse simular a faculdade, seria mais fácil aproveitar o pensamento da senhora. Mas ao invés do marido que a preocupava ele viu uma mulher, com um penteado especial de que nada lhe poderia dar idéia. Este caso prova ainda que a visão do médium não era o reflexo de qualquer pensamento alheio. (Ver nº 102)
(13) Esta é uma característica do Espiritismo, para a qual devemos sempre chamar a atenção de adeptos e adversários. A Doutrina é contrária a todos os meios artificiais de desenvolvimento psíquico, mantendo o mais rigoroso respeito às leis naturais que presidem a esses processos, como a todos os demais na condição humana. Os que acusam o Espiritismo de excessos psíquicos ou místicos simplesmente ignoram os seus princípios, não sabem o que dizem. (N. do T.)
(14) O rigor da observação espírita não está nos meios materiais de controle, sempre ingênuos e até mesmo infantis, quando se trata de questões espirituais. Este é um dos muitos casos que fogem a todas as explicações telepáticas, a menos que aceitemos o absurdo, jamais experimentalmente provado, das interferências mais fantásticas, como a das lembranças inconscientes da viúva remontando aos tempos da avó. Isso é o que Kardec considerava, muito justamente, querer substituir o suposto fantástico da presença do Espírito por uma explicação engenhosa e ainda muito mais fantástica. O estudo e a pesquisa espírita mostram, por mil detalhes valiosos, o ridículo dessas hipóteses apressadas e sempre geradas pela prevenção e a ignorância do assunto. (N. do T.)
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