Livro selecionado: "O Livro dos Médiuns "
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Capítulo VIII
Laboratório do Mundo Invisível (continuação)
18. Se a matéria de que o Espírito se serve não tem persistência, como os traços da escrita direta não desaparecem?
— Não tires conclusões das palavras. Para começar, eu não disse: jamais. Tratava-se de objeto material volumoso. Nesse caso, são sinais escritos que é útil conservar e se conservam. O que eu quis dizer é que os objetos assim compostos pelo Espírito não poderiam tornar-se de uso, porque na realidade não possuem a mesma densidade material dos vossos corpos sólidos.
129. A teoria acima pode ser resumida assim: o Espírito age sobre a matéria; tira da matéria cósmica universal os elementos necessários para formar, como quiser, objetos com a aparência dos diversos corpos da Terra. Pode também operar, pela vontade, sobre a matéria elementar, uma transformação íntima que lhe dê certas propriedades. Essa faculdade é inerente à natureza do Espírito, que a exerce muitas vezes de maneira instintiva e, portanto, sem o perceber, quando se faz necessário. Os objetos formados pelo Espírito são de existência passageira, que depende da sua vontade ou da necessidade: ele pode fazê-Ios e desfazê-Ios a seu bel-prazer. Esses objetos podem, em certos casos, parecer para os vivos perfeitamente reais, tornando-se momentaneamente visíveis e mesmo tangíveis. Trata-se de formação e não de criação, pois o Espírito não pode tirar nada do nada.
130. A existência de uma matéria elementar única é hoje quase geralmente admitida pela ciência e os Espíritos a confirmam, como acabamos de ver. Essa matéria dá origem a todos os corpos da Natureza. As suas transformações determinam as diversas propriedades dos corpos. É assim que uma substância salutar pode tornar-se venenosa por uma simples modificação. A Química nos oferece numerosos exemplos nesse sentido.
Todos sabem que duas substâncias inofensivas, combinadas em certas proporções, podem resultar numa deletéria. Uma parte de oxigênio e duas de hidrogênio, ambas inofensivas, formam a água. Basta acrescentar um átomo de oxigênio e teremos um líquido corrosivo. Mesmo sem alterar as proporções, muitas vezes é suficiente uma simples modificação na forma de agregação molecular para mudar as propriedades. É assim que um corpo opaco pode tornar-se transparente e vice-versa.
Desde que o Espírito, através apenas da sua vontade, pode agir tão decisivamente sobre a matéria elementar, compreende-se que possa formar substâncias e até mesmo desnaturar as suas propriedades, usando a própria vontade como reativo.(4)
131. Esta teoria nos dá a solução de um problema do magnetismo, bem conhecido mas até hoje inexplicado, que é o fato da modificação das propriedades da água pela vontade. O Espírito agente é o do magnetizador, na maioria das vezes assistido por um Espírito desencarnado. Ele opera uma transmutação por meio do fluido magnético que, como já dissemos, é a substância que mais se aproxima da matéria cósmica ou elemento universal. E se ele pode produzir uma modificação nas propriedades da água, pode igualmente fazê-lo no tocante aos fluidos orgânicos, do que resulta o efeito curativo da ação magnética convenientemente dirigida.
Sabe-se o papel capital da vontade em todos os fenômenos magnéticos. Mas como explicar a ação material de um agente tão sutil? A vontade não é uma entidade, uma substância e nem mesmo uma propriedade da matéria mais eterizada: é o atributo essencial do Espírito, ou seja, do ser pensante. Com a ajuda dessa alavanca ele age sobre a matéria elementar e em seguida reage sobre os seus componentes, com o que as propriedades íntimas podem ser transformadas.
A vontade é atributo do Espírito encarnado ou errante. Daí o poder do magnetizador, que sabemos estar na razão da força da vontade. O Espírito encarnado pode agir sobre a matéria elementar e portanto modificar as propriedades das coisas dentro de certos limites. Assim se explica a faculdade de curar pelo contacto e a imposição das mãos, que algumas pessoas possuem num elevado grau. (Ver no capítulo sobre os Médiuns o tópico referente a médiuns curadores. Ver ainda na Revista Espírita, nº de julho de 1859, os artigos O zuavo de Magenta e Um Oficial do Exército da Itália.) (5)
(4) Todas estas questões estão sendo hoje sancionadas pelo avanço da Ciência em seus vários ramos. O desenvolvimento da Física nuclear ampliou as possibilidades acima referidas por Kardec. Hoje se sabe que a matéria elementar é uma realidade e sua natureza não é atômica, mas subatômica. O fluido universal dos Espíritos, tão ridicularizado até há pouco, já é admitido pela Ciência com outros nomes: o oceano de elétrons livres da teoria de Dirac, os campos de força, o poder desconhecido que está por trás da energia, segundo Arthur Compton e que parece ser pensamento, etc. Quanto à ação da vontade sobre a matéria a Medicina Psicossomática e a Parapsicologia se incumbiram de prová-la, mesmo nos encarnados. (N. do T.)
(5) Os estudos de Hipnotismo científico definiram a hipnose como simples sugestão, relegando ao passado o problema da ação fluídica, considerada como superstição. Mas o magnetismo é elemento natural, cujas manifestações e aplicações não se limitam ao tipo de hipnose clínica. Nesta, ele se manifesta em função autógena, mas a maioria de suas manifestações são exógenas. A modificação das propriedades da água pode ocorrer como simples sugestão, limitada ao paciente, mas há também fenômenos materiais de alteração dessas propriedades, perceptíveis por todos. No primeiro caso não houve modificação alguma na água, mas apenas na percepção do paciente. No segundo, as modificações são reais. Os casos dessa natureza ocorrem facilmente com médiuns de efeitos físicos. Atualmente os parapsicólogos procuram explicar esses fenômenos como ação da mente sobre a matéria, com a denominação técnica de psicocinesia. Também neste campo a tese espírita permanece e a Ciência vai aos poucos se reaproximando dela. Renê Sudre anti-espírita irredutível, ainda recentemente, no seu "Tratado de Parapsicologia", anota o seguinte: "A descoberta dos elétrons materiais leva-nos mais ou menos à teoria newtoniana da emissão. Eis, pois, que o fluido reaparece no próprio coração da Física contemporânea." (N. do T.)
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