Livro selecionado: "O Livro dos Médiuns "

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Capítulo V

O Fenômeno de Transporte (continuação)

É portanto evidente, e não tenho dúvida que o aceitais, que os fenômenos sensíveis de golpes, movimentos e levitação são de natureza simples, realizando-se pela concentração e a dilatação de certos fluidos, e podem ser provocados e obtidos pela vontade e o trabalho de médiuns aptos, quando secundados por Espíritos amigos e benevolentes, enquanto os fenômenos de transporte são complexos, de natureza múltipla, exigindo a existência de condições especiais. Esses fenômenos só podem ser realizados por um só Espírito e um único médium e necessitam, além dos recursos para a produção da tangibilidade, uma combinação muito especial para isolar e tornar invisíveis o objeto ou os objetos a serem transportados.(10)

Todos vós, espíritas, compreendeis as minhas explicações e percebeis perfeitamente o que seja essa concentração de fluidos especiais para produzir a mobilidade e a tactilidade da matéria inerte. Aceitais isso, como aceitais os fenômenos da eletricidade e do magnetismo, tão análogos aos mediúnicos, que são por assim dizer, a confirmação e o desenvolvimento daqueles. Quanto aos incrédulos e aos sábios, estes piores que aqueles, nada tenho para convencê-los e nem me interessam. Serão convencidos um dia pela evidência dos fatos, porque terão de se curvar ante o testemunho unânime dos fenômenos espíritas, como já tiveram de fazer em relação a outros fenômenos que a princípio rejeitaram.

Para resumir: se os fenômenos de tangibilidade são freqüentes, os de transporte são muito raros, porque as condições para a sua produção são bastante difíceis. Em conseqüência, nenhum médium pode dizer: em tal hora ou em tal momento obterei um transporte, porque muitas vezes o próprio Espírito se encontra impedido de fazê-Io. Devo acrescentar que esses fenômenos se tornam duplamente difíceis em público, onde quase sempre se encontram os elementos energeticamente refratários que paralisam os esforços dos Espíritos e com mais forte razão a ação do médium.

Sabei que, pelo contrário, esses fenômenos quase sempre se produzem espontaneamente nas reuniões particulares, no mais das vezes à revelia dos médiuns e sem que se espere, dando-se muito raramente quando aqueles estão prevenidos. Disso deveis concluir que há motivo legítimo de suspeita todas as vezes que um médium se vangloria de obtê-los à vontade ou de dar ordens aos Espíritos como se fossem seus empregados, o que é simplesmente absurdo. Tende ainda por regra que os fenômenos espíritas não servem para espetáculos e para divertir os curiosos. Se alguns Espíritos se prestam a isso, só pode ser através de fenômenos simples e não dos que, como o transporte, exigem condições excepcionais.

Lembrai-vos, espíritas, que se é absurdo repelir sistematicamente todos os fenômenos de além-túmulo, também não é prudente aceitá-Ios a todos de olhos fechados. Quando um fenômeno de tangibilidade, de aparição, de transporte se verifica espontaneamente e de improviso, aceitai-o. Mas nunca será demasiado repetir: não aceiteis nada cegamente. Que cada fato seja submetido a um exame minucioso, aprofundado e severo. Porque, acreditai-me, o Espiritismo, tão rico de fenômenos sublimes e grandiosos, nada tem a ganhar com essas insignificantes manifestações que hábeis prestidigitadores podem imitar.(11)

Bem sei o que ireis me dizer: que esses fenômenos são úteis para convencer os incrédulos. Mas sabei que, se não tivésseis outros meios de convicção, não teríeis hoje a centésima parte de espíritas com que podeis contar. Falai aos corações: é esse o caminho da maioria das conversões sérias. Se achais conveniente, para certas pessoas, utilizar-vos dos fenômenos materiais, pelo menos apresentai-os de tal maneira que não possam dar motivo a falsas interpretações. E, sobretudo, observai as condições normais desses fenômenos, porque apresentados de maneira imprópria eles servem de argumentos para os incrédulos, em vez de convencê-los. - ERASTO.

99. Esse fenômeno apresenta uma particularidade bem característica: a de que alguns médiuns só o obtêm em estado sonambúlico, o que facilmente se explica. O sonâmbulo apresenta um desprendimento natural, uma espécie de isolamento do Espírito e seu perispírito em relação ao corpo, que deve facilitar a combinação dos fluidos necessários. É o caso dos transportes que presenciamos.

As questões seguintes foram apresentadas ao Espírito que os produzia, mas suas respostas às vezes se ressentem da sua falta de conhecimentos. Submetemo-las ao Espírito Erasto, muito mais esclarecido do ponto de vista teórico, que as completou com anotações bastante judiciosas. Um é o artesão, outro é o sábio. A própria comparação dessas duas inteligências é um estudo instrutivo, pois demonstra que não basta ser Espírito para tudo compreender.

(10) O problema da tangibilidade refere-se ao Espírito, que através da combinação de seus fluidos com os do médium consegue o grau de materialização necessária para tocar e sentir os objetos. Estes são naturalmente tangíveis, mas o Espírito não tem o sensório físico para senti-Ios. Por isso necessita, como diz Erasto, impregnar-se do fluido vital do médium, que lhe dá a tangibilidade ou a possibilidade de agir sobre os objetos materiais e movimentá-los. (N. do T.)

(11) Nada aceitar cegamente nem fazer alarde de fenômenos corriqueiros ou de natureza duvidosa, suscetíveis de ser imitados por trapaceiros, é uma condição de boa divulgação da Doutrina. Erasto adverte contra as infrações dessa regra, que até hoje se verificam por toda parte. O Espiritismo, que se funda na verdade, não precisa de recursos fúteis. (N. do T.)

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