Livro selecionado: "O Livro dos Espíritos"

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Capítulo XI

Os Três Reinos

II - Os Animais e o Homem (continuação)

Espírito do animal é classificado, após a morte, pelos Espíritos incumbidos disso e utilizado quase imediatamente: não dispõe de tempo para se pôr em relação com outras criaturas.

601. Os animais seguem uma lei progressiva como os homens?

— Sim, e é por isso que nos mundos superiores onde os homens são mais adiantados, os animais também o são, dispondo de meios de comunicação mais desenvolvidos. São, porém, sempre inferiores e submetidos aos homens, sendo, para estes, servidores inteligentes.

Nada há nisso de extraordinário. Suponhamos os nossos animais de maior inteligência, como o cão, o elefante, o cavalo dotados de uma conformação apropriada aos trabalhos manuais. O que não poderiam fazer, sob a direção do homem?

602. Os animais progridem, como o homem por sua própria vontade, ou pela força das coisas?

— Pela força das coisas; e é por isso que, para eles, não existe expiação.

603. Nos mundos superiores os animais conhecem a Deus?

— Não. O homem é um deus para eles, como antigamente os Espíritos foram deuses para os homens.

604. Os animais, mesmo aperfeiçoados nos mundos superiores, sendo sempre inferiores aos homens, disso resultaria que Deus tivesse criado seres intelectuais perpetuamente votados à inferioridade, o que parece em desacordo com a unidade de vistas e de progresso que se assinalam em todas as suas obras?

— Tudo se encadeia na Natureza por liames que não podeis ainda perceber, e as coisas aparentemente mais disparatadas têm pontos de contato que o homem jamais chegará a compreender no seu estado atual. Pode entrevê-los por um esforço de sua inteligência, mas somente quando essa inteligência tiver atingido todo o seu desenvolvimento e se libertado dos prejuízos do orgulho e da ignorância poderá ver claramente na obra de Deus. Até lá suas idéias limitadas lhe farão ver as coisas de um ponto de vista mesquinho. Sabei que Deus não pode contradizer-se e que tudo, na Natureza, se harmoniza através de leis gerais que jamais se afastam da sublime sabedoria do Criador.

604-a. A inteligência é assim uma propriedade comum, um ponto de encontro entre a alma dos animais e a do homem?

— Sim, mas os animais não têm senão a inteligência da vida material; nos homens, a inteligência produz a vida moral.

605. Se considerarmos todos os pontos de contato existentes entre o homem e os animais não poderíamos pensar que o homem possui duas almas: a alma animal e a alma espírita e que, se ele não tivesse esta última poderia viver só como os animais? Dizendo de outra maneira: o animal é um ser semelhante ao homem, menos a alma espírita? Disso resultaria que os bons e os maus instintos do homem seriam o efeito da predominância de uma ou outra dessas duas almas?

— Não, o homem não tem duas almas, mas o corpo tem os seus instintos, que resultam da sensação dos órgãos. Não há no homem senão uma dupla natureza: a natureza animal e a espiritual. Pelo seu corpo ele participa da natureza dos animais e dos seus instintos; pela sua alma participa da natureza dos Espíritos.

605-a. Assim, além das suas próprias imperfeições, de que o Espírito deve despojar-se, deve ele lutar contra a influência da matéria?

— Sim, quanto mais inferior é ele, mais apertados são os laços entre o Espírito e a matéria. Não o vedes? Não, o homem não tem duas almas; a alma é sempre única, um ser único. A alma do animal e a do homem são distintas entre si, de tal maneira que a de um não pode animar o corpo criado para o outro. Mas se o homem não possui uma alma animal, que por suas paixões o coloque no nível dos animais, tem o seu corpo que o rebaixa freqüentemente a esse nível, porque o seu corpo é um ser dotado de vitalidade, que tem instintos, mas ininteligentes e limitados ao interesse de sua conservação.(2)

O Espírito, encarnando-se no corpo do homem, transmite-lhe o princípio intelectual e moral que o torna superior aos animais. As duas naturezas existentes no homem oferecem às suas paixões duas fontes diversas: umas provêm dos instintos da natureza, outras das impurezas do Espírito encarnado, que simpatiza em maior ou menor proporção com a grosseria dos apetites animais. O Espírito, ao se purificar, liberta-se pouco a pouco da influência da matéria. Sob essa influência ele se aproxima dos brutos; liberto dessa influência eleva-se ao seu verdadeiro destino.

606. De onde tiram os animais o princípio inteligente que constitui a espécie particular de alma de que são dotados?

— Do elemento inteligente universal.

606-a. A inteligência do homem e a dos animais emanam, portanto, de um princípio único?

— Sem nenhuma dúvida; mas no homem ela passou por uma elaboração que a eleva sobre a dos brutos.

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