Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"
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Capítulo VIII
Expiações Terrestres (continuação)
Algoz que fui de todos os bons sentimentos, fiquei por muito, por longo tempo preso pelo perispírito ao corpo em decomposição. Até que esta se realizasse, vi-me corroído pelos vermes, o que muito me torturava! Quando me vi liberto das peias que me prendiam ao instrumento do suplício, mais cruel suplício me esperava!... Depois do sofrimento físico, o sofrimento moral muito mais longo. Fui colocado em presença de todas as minhas vítimas. Periodicamente, constrangido por uma força superior, era levado a rever o quadro vivo dos meus crimes. E via física e moralmente todas as dores que a outrem fizera sofrer!
Ah! Meus amigos, que terrível é a visão constante daqueles a quem fizemos mal! Entre vós, tendes apenas um fraco exemplo no confronto do acusado com a sua vítima. Aí tendes, em resumo, o que sofri durante três séculos e meio, até que Deus, compadecido da minha dor e tocado pelo meu arrependimento, solicitado pelos que me assistiam, permitisse a vida de expiação que conheceis.
P. Algum motivo particular vos induziu a escolher a última existência, subordinada à religião israelita?
R. Não escolhi por mim, mas ouvi o conselho dos meus Guias. A religião de Israel era uma pequena humilhação a mais na minha prova, uma vez que como em certos países a maioria dos encarnados menosprezam os judeus e sobretudo os judeus mendicantes.
P. Na Terra, com que idade começaste a vossa obra de expiação? Como vos ocorreu o pensamento de vos desobrigar das resoluções previamente tomadas?
Ao exercerdes tão abnegadamente a caridade, teríeis a intuição das causas que a isso vos predispunham?
R. Meus pais eram pobres, porém inteligentes e avaros. Moço ainda, fui privado da afeição e carinho de minha genitora. A perda desta me causou tanto maior e fundo pesar, quanto meu genitor dominado pela avidez de lucros, me abandonava completamente. Quanto aos meus irmãos, todos mais velhos do que eu, não pareciam aperceber-se das minhas mágoas.
Foi um outro judeu quem, movido por sentimento mais egoístico do que caritativo, me recolheu em sua casa e me ensinou a trabalhar. O que isso lhe custara era largamente compensado pelo meu trabalho, que aliás excedia muitas vezes às minhas forças. Mais tarde, liberto desse jugo, trabalhei por conta própria; mas em toda parte, no trabalho como no repouso, perseguia-me a saudade de minha mãe e, à medida que avançava em anos a lembrança desse ser mais fundamente se me gravara na memória, lamentando em demasia a perda do seu amor e do seu zelo.
Não tardou fosse eu o único dos meus, pois a morte em breve, dentro de meses, ceifou-me toda a família. Então, principiou a manifestar-se-me o modo pelo qual havia de passar o resto da vida. Dois dos meus irmãos deixaram órfãos, e eu, comovido pela recordação do que como órfão sofrera, quis preservar os pobrezinhos de uma juventude semelhante à minha.
Não produzindo o meu trabalho o suficiente para sustentá-los a todos, comecei a pedir esmolas, não para mim, mas para outros. A Deus não aprazia visse eu o resultado da minha esmolaria, a consolação dos meus esforços, e assim foi que também os pobrezinhos me deixaram para sempre.
Eu bem sabia o que lhes faltava — era a mãe. Resolvi, pois, pedir para as viúvas infelizes que, sem poderem trabalhar para si e os filhinhos, se impunham privações fatais, que acabavam por matá-las, legando ao mundo pobres órfãos abandonados e votados aos tormentos que eu mesmo suportara.
A esse tempo contava 30 anos e naquela idade, saudável e vigoroso, viram-me pedir para a viúva e para o órfão. Penosos me foram os primeiros passos, a suportar mais de um epíteto deprimente; quando, porém, se certificaram de que eu realmente distribuía pelos pobres o que recebia; quando souberam que a essa distribuição ainda ajuntava as sobras do meu trabalho; então, adquiri certo conceito que não deixava de me ser grato.
Durante os 60 e alguns anos dessa peregrinação terrena, nunca deixei de atender à tarefa que me impusera. Também jamais a consciência me fez sentir que causas anteriores à existência fossem o móbil do meu proceder. Um dia somente, e antes de começar a pedir, ouvi estas palavras:
"Não façais a outrem o que não quiserdes que vos façam."
Surpreendido pelos princípios gerais de moralidade contida nessas poucas palavras, muitas vezes parecia-me ouvi-las acrescidas destas outras: "Mas fazei, ao contrário, o que quiserdes que vos façam": Tendo por auxiliares a lembrança de minha mãe e dos meus próprios sofrimentos, continuei a trilhar uma senda que a minha consciência dizia boa.
Vou terminar esta longa comunicação, dizendo: Obrigado!
Imperfeito ainda, sei contudo que o mal só acarreta o mal, e de novo, como já o fiz, me dedicarei ao bem para alcançar a felicidade.
Szymel Slizgol
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