Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"
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Capítulo VII
Espíritos Endurecidos (continuação)
II
Precipitar um homem nas trevas ou em ondas de luz não dará o mesmo resultado? Num como noutro caso, esse homem nada vê daquilo que o cerca e se habituará mesmo mais facilmente à sombra do que à monótona claridade elétrica, na qual pode estar submerso. O Espírito manifestado na última sessão exprime bem a verdade quando diz: "Oh! Eu saberei libertar-me dessa odiosa luz". Realmente essa luz é tanto mais terrível, horrorosa, quanto ela o penetra completamente e lhe devassa os pensamentos mais recônditos.
Aí está uma das circunstâncias mais rudes desse castigo espiritual. O Espírito encontra-se, por assim dizer, na casa de vidro pedida por Sócrates. Disso decorre ainda um ensinamento, uma vez que séria alegria e consolo para o sábio se transforma em punição infamante e contínua para o perverso, para o criminoso, para o parricida, sobressaltado na própria personalidade.
Meus filhos, calculai o sofrimento, o terror dos hipócritas que se compraziam em toda uma existência sinistra a planejar, a combinar os mais hediondos crimes no seu foro íntimo, quais feras refugiadas no seu antro, e que hoje, expulsas desse covil íntimo, não se podem furtar à investigação dos seus pares...
Arrancada que lhe seja a máscara da impassibilidade, todos os pensamentos se lhe estampam na fronte! Sim e além de tudo nenhum repouso, nada de asilo para esse grande criminoso. Todo pensamento mau — e Deus sabe se a sua alma o exprime — se lhe trai por fora e por dentro, como impelido por choque elétrico irresistível. Procura esquivar-se à multidão e a luz odiosa o devassa continuamente; quer fugir e desanda numa carreira desenfreada, desesperada, através dos espaços incomensuráveis, e por toda a parte há luz, olhares que o observam. Corre, voa novamente em busca da sombra, em busca da noite; sombra e noite não mais existem para ele! Chama pela morte... Mas a morte não é mais que palavra sem sentido. E o infeliz a fugir sempre, a caminho da loucura espiritual. Castigo tremendo, dor horrível, a debater-se consigo para se desvencilhar de si mesmo, porque essa é a lei suprema para além da Terra, isto é: o culpado busca por si mesmo o seu mais inexorável castigo.
Quando tempo durará esse estado? Até o momento em que a vontade, por fim vencida, se curve constrangida pelo remorso, humilhada a fronte altiva ante os Espíritos da justiça e ante as suas vítimas apaziguadas.
Observai a lógica profunda das leis imutáveis; com isso, o Espírito realizará o que escrevia naquela importante comunicação tão clara, tão lúcida, tão desconsoladoramente egoística, comunicação que vos deu na sexta-feira passada por um ato da própria vontade.
Erasto.
III
A justiça humana, quando castiga, não faz distinção de individualidades; medindo o crime pelo próprio crime, fere indistintamente os infratores e a mesma pena atinge o paciente sem distinção de sexo, qualquer que seja a sua educação. De maneira diversa procede a justiça divina, cujas punições correspondem ao progresso dos seres aos quais elas são infligidas. Igualdade de crimes não quer dizer, de fato, igualdade individual, uma vez que dois homens culpados, sob o mesmo ponto de vista, podem separar-se pela dessemelhança de provações, imergindo um deles na opacidade intelectiva dos primeiros círculos iniciadores, enquanto o outro dispõe, por haver ultrapassado esses círculos, da lucidez que isenta o Espírito da perturbação. Nesse caso não são mais as trevas a puni-lo, mas a agudeza da luz espiritual que penetra a inteligência terrena e lhe faz sentir as dores de uma chaga viva.
Os seres desencarnados que presenciam a representação material dos seus crimes, sofrem o choque da eletricidade física e padecem pelos sentidos. Aqueles que pelo espírito estejam desmaterializados sofrem uma dor muito superior que lhes aniquila, por assim dizer, nas suas agruras a lembrança dos fatos, deixando subsistir a noção das suas respectivas causas.
Assim pode o homem possuir um progresso interior a despeito da sua criminalidade e elevar-se acima da espessa atmosfera das camadas inferiores, isto através das faculdades intelectuais despertadas, embora tivesse, sob o jugo das paixões, procedido como um bruto. A ausência de ponderação, o desequilíbrio entre o progresso moral e o intelectual, produzem essas tão freqüente anomalias nas épocas de materialismo e transição.
A luz que tortura o Espírito é, portanto e precisamente, o raio espiritual que inunda de claridade os secretos recessos do seu orgulho e lhe descobre a inanidade do seu fragmentário ser. Aí estão os primeiros sintomas, as primeiras angústias da agonia espiritual, os quais, prenunciando a separação ou a dissolução dos elementos intelectuais e materiais da primitiva dualidade humana, devem desaparecer na grandiosa unidade do ser realizado.
João Reynaud.
Além de se completarem mutuamente, estas três comunicações, obtidas a um só tempo, apresentam o castigo debaixo de um novo prisma, aliás eminentemente filosófico e racional. É provável que os Espíritos, querendo tratar do assunto de acordo com um rito, querendo tratar do assunto de acordo com um exemplo, tivessem provocado a manifestação do culpado.
Além desse quadro, baseado no fato, convém reproduzir, para um paralelo, este outro apresentado por um empregador de Montreuil sur-Mer, em 1864, por ocasião da quaresma:
"O fogo do inferno é milhões de vezes mais intenso que o da Terra, e se acaso um dos corpos que lá se queimam, sem se consumirem, fosse lançado ao planeta, o empestá-lo-ia de um a outro extremo! O inferno é vasta e sombria caverna, eriçada de agudas pontas de lâminas de espadas aceradas, de lâminas de navalhas afiadíssimas, nas quais são precipitadas as almas dos condenados."
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