Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo VI

Criminosos Arrependidos (continuação)

15. Qual a vossa punição?

R. Sou punido porque tenho consciência da minha falta e para ela peço perdão a Deus; sou punido porque reconheço a minha descrença nesse Deus, sabendo agora que não devemos abreviar os dias de vida de nossos irmãos; sou punido pelo remorso de haver protelado o meu progresso, enveredando por caminho errado, sem ouvir o grito da própria consciência que me dizia não ser pelo assassínio que alcançaria o meu desiderato.

Deixei-me dominar pela inveja e pelo orgulho; enganei-me e arrependi-me, pois o homem deve esforçar-se sempre por dominar as más paixões — o que aliás não fiz.

16. Qual a vossa sensação quando vos evocamos?

R. De prazer e de temor, uma vez que não sou mau.

17. Em que consiste esse prazer e esse temor?

R. No prazer de conversar com os homens e poder em parte reparar as minhas faltas, confessando-as; e no temor, que não posso definir, um quê de vergonha por ter sido um assassino.

18. Desejais reencarnar na Terra?

R. Até o peço e desejo achar-me constantemente exposto ao assassínio e sentir o medo disso.

Monsenhor Sibour, evocado, disse que perdoava o assassino e orava para que ele se arrependesse. Disse mais que, se bem estivesse presente à evocação, não se lhe tinha mostrado para lhe não aumentar os sofrimentos, porquanto o receio de o ver já era um sintoma de remorso, já era um castigo.

P. O homem que mata sabe que, ao escolher nova existência, nela se tornará assassino?

R. Não; ele sabe que, escolhendo uma vida de luta, tem probabilidades de matar um semelhante, ignorando porém se o fará, uma vez que tem de lutar consigo.

A situação de Verger, ao morrer, é a de quase todos aqueles que sucumbem violentamente. Não se verificando abruptamente a separação, eles ficam como aturdidos, sem saber se estão mortos ou vivos. A visão do arcebispo foi-lhe poupada por desnecessária ao seu remorso; mas outros Espíritos, em circunstâncias idênticas, são constantemente acossados pelo olhar das suas vítimas.

À enormidade do delito, Verger acrescentara a agravante de se não ter arrependido ainda em vida, estando, pois, nas condições requeridas para a perene condenação. Mas, logo que deixou a Terra, o arrependimento lhe invadiu a alma e, repudiando o passado, deseja sinceramente repará-lo. A isso não o impele à demasia do sofrimento, visto como nem mesmo teve tempo para sofrer, mas é o alarme dessa consciência, desprezada durante a vida, e que ora se lhe faz ouvir.

Por que não considerar valioso esse arrependimento? Por que admiti-lo dias antes como capaz de salvar-se do inferno e depois não? E por que, finalmente, o Deus misericordioso para o penitente, em vida, deixaria de o ser, por questão de horas, mais tarde? Fora para causar admiração a rápida mudança algumas vezes operada nas idéias de um criminoso endurecido e impenitente até a morte, se o trespasse lhe não fosse também bastante, às vezes, para reconhecer toda a iniquidade da sua conduta. Contudo, esse resultado está longe de ser geral o que daria em conseqüência o não haver Espíritos maus. O arrependimento é muitas vezes tardio e daí a protelação do castigo.

A obstinação no mal, em vida, provém às vezes do orgulho de quem recusa submeter-se e confessar os próprios erros, visto estar o homem sujeito à influência da matéria a qual, lançando-lhe um véu nas percepções espirituais, o fascina e desvaria. Roto esse véu, súbita luz o aclara e ele se encontra senhor da sua razão. A manifestação imediata de melhores sentimentos é sempre indício de um progresso moral realizado, que apenas aguarda uma circunstância favorável para se revelar, ao passo que a persistência mais ou menos longa no mal, depois da morte, é incontestavelmente a prova de atraso do Espírito, no qual os instintos materiais atrofiam o germe do bem, de modo que lhe são necessárias novas provações para se corrigir.

Leamire

Condenado à pena última pelo júri de Aisne e executado a 31 de dezembro de 1857. Evocado em 29 de janeiro de 1858.

1 . Evocação

— R. Aqui estou.

2. Vendo-nos, que sensação experimentais?

R. A sensação da vergonha.

3. Conservastes a vossa consciência até o último momento?

R. Sim.

4. Após a execução tivestes imediata noção dessa nova existência?

R. Eu estava imerso em grande perturbação, da qual, aliás, ainda não me libertei. Senti uma dor imensa e me parecia ser o coração que a sofria. Vi rolar não sei o que aos pés do cadafalso; vi o sangue que escorria e mais pungente se me tornou a minha dor.

P. Era uma dor puramente física, análoga àquela que proviria de um grande ferimento, pela amputação de um membro, por exemplo?

R. Não; figurai-vos antes um remorso, uma grande dor moral.

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