Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"
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Capítulo III
Espíritos em Condições Medianas (continuação)
6. Poder-se-ia dizer que estivesses morto nessa primeira crise?
R. Sim e não: tendo o Espírito abandonado o corpo, naturalmente a carne extinguia-se; entretanto retomando posse da morada terrena, a vida voltou ao corpo, que passou por uma transição, por um sono.
7. E sentíeis então os laços que vos prendiam ao corpo?
R. Sem dúvida; o Espírito tem um grilhão fortíssimo que o prende e não entra na vida natural antes que dê o último estremecimento da carne.
8. Como pois, na vossa morte aparente e durante alguns minutos, pode o vosso Espírito desprender-se súbita e imperturbavelmente, ao passo que o desprendimento efetivo se fez acompanhar da perturbação por alguns dias? Parece-nos que no primeiro caso, os laços entre corpo e Espírito subsistindo mais que no segundo, o desprendimento deveria ser mais lento, ao contrário justamente do que se deu.
R. Tendes muitas vezes evocado um Espírito encarnado, recebendo respostas exatas; eu estava nas condições desses Espíritos, porque Deus me chamava e os seus servidores me diziam: — "Vem.. ." Obedeci, agradecendo-lhe o favor especial que houve por bem conceder-me para que pudesse entrever, compreendendo-a, a Sua infinita grandeza. Obrigado a vós, que antes da morte real me permitistes doutrinar os meus, para que façam boas e justas encarnações.
9. Donde provinham as belas palavras que após o despertar dirigistes à vossa família?
R. Eram o reflexo do que tinha visto e ouvido; os bons Espíritos inspiravam-me a linguagem e davam fulgor à minha fisionomia.
10. Que impressão julgais ter a vossa revelação produzido nos assistentes, notadamente nos vossos filhos?
R. Surpreendente, profunda; uma morte não é mentirosa; os filhos, por mais ingratos que possam ser, se curvam sempre à encarnação que termina. Se pudéssemos penetrar o coração dos filhos, junto de um túmulo entreaberto, ve-lo-íamos apenas palpitar de sentimentos verdadeiros, sinceros, tocados pela mão secreta dos Espíritos, que dizem em todos os pensamentos: tremei se duvidais; a morte é a reparação, a justiça de Deus, e eu vos asseguro, em que pese aos incrédulos, que a minha família e os amigos creram nas palavras por mim pronunciadas antes da morte. Eu era, ao demais, intérprete de um outro mundo.
11. Dizendo não gozardes da felicidade entrevista, podemos daí concluir que sejais infeliz?
R. Não, uma vez que me tornei crente antes da morte, e isto de coração e consciência. A dor acabrunha nesse mundo, mas fortalece sob o ponto de vista do futuro espiritual. Notai que Deus teve em conta as minhas preces e a crença n'Ele depositada em absoluto; estou firme no caminho da perfeição e chegarei ao fim que me foi permitido lobrigar. Orai, meus amigos, por este mundo invisível que preside aos vossos destinos; esta permuta fraternal é, de caridade; é a alavanca que põe em comunhão os Espíritos de todos os mundos.
12. Acaso quereríeis dirigir algumas palavras à vossa mulher e filhos?
R. Peço a todos os meus que acreditem no Deus poderoso, justo, imutável; na prece que consola e alivia; na caridade que é a mais pura prática da encarnação humana; peço-lhes que se lembrem que do pouco também se pode dar, pois o obolo do pobre é o mais meritório aos olhos de Deus, desse Deus que sabe que muito dá um pobre, mesmo que dê pouco.
O rico precisa dar muito, e repetidamente, para merecer outro tanto. O futuro é a caridade, a benevolência em todos os atos; é considerar que todos os Espíritos são irmãos, nunca preocupar-se com as mil pueris vaidades da Terra.
Tereis rudes provações, querida, amada família; aceitai-as, porém, corajosamente, lembrando-vos de que Deus as vê. Repeti amiúde esta prece: — "Deus de amor e bondade, que tudo e sempre faculta, dá-nos força superior a todas as vicissitudes, torna-nos bons, humildes e caridosos, pequenos pela fortuna e grandes de coração. Permite seja espírita o nosso Espírito na Terra, a fim de melhor Te compreendermos e Te amarmos.
Seja Teu Nome emblema da Liberdade, oh! meu Deus! — O Consolador de todos os oprimidos, de todos os que necessitam amar, perdoar e crer.
Cardon.
Eric Stanislas
(Comunicação espontânea: Sociedade de Paris, agosto de 1863)
"Que ventura nos proporcionam as emoções vivamente sentidas por valorosos corações! Oh! Suaves pensamentos que vindes abrir o caminho da salvação a tudo que vive, que respira material e espiritualmente. Não deixe nunca o bálsamo consolador de derramar-se profusamente sobre vós e sobre nós! De que expressões nos servimos, que traduzam a felicidade dos irmãos, desencarnados, ao perscrutarem o amor que une a todos?
Ah! irmãos, quanto bem por toda parte, quantos elementos suaves, elevados e simples como vós, como a vossa Doutrina, sois chamados a implantar ao longo da estrada a percorrer; mas, também, quanto vos será outorgado antes mesmo de terdes adquirido direitos!
Assisti a tudo quanto se passou esta noite; ouvi, compreendi e vou procurar por minha vez cumprir o meu dever e instruir a classe dos Espíritos imperfeitos. Ouvi, eu estava longe de ser feliz; abismado na imensidade, no infinito, os meus padecimentos eram tanto mais intensos, quanto difícil me era os compreendê-los.
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