Livro selecionado: "O Céu e o Inferno"

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Capítulo II

Espíritos Felizes (continuação)

12. Que aspecto vos apresenta a nossa sessão? Para a vossa nova visão tem o mesmo aspecto do tempo em que estáveis entre nós? As pessoas mostram-se com a mesma aparência? Tudo é claro e nítido como antes?

— Bem mais claro, pois eu posso ler no pensamento de vós todos e sou muito feliz, graças, com a boa sensação que me causa a boa vontade de todos os Espíritos aqui reunidos. Desejo que essa mesma harmonia possa existir não apenas em Paris, na reunião de todos os grupos, mas em toda a França, onde os grupos são desunidos e se invejam, instigados por Espíritos perturbadores que se divertem com a desordem, quando o Espiritismo deve ser o esquecimento completo e absoluto do eu.

13. Dissestes que podeis ler no nosso pensamento. Podereis nos explicar como se opera essa transmissão de pensamento?

— Isso não é fácil. Para vos explicar esse estranho prodígio da visão dos Espíritos seria necessário lançar mão de todo um arsenal de elementos novos, para o que teríeis de conhecer tudo o que conhecemos, o que não é possível, pois as vossas faculdades estão limitadas pela matéria.

Paciência! Tornai-vos bons e conseguireis isso. Tendes atualmente apenas o que Deus vos concedeu, mas com a possibilidade de progresso contínuo. Mais tarde sereis como nós. Tratai de morrer bem para saberdes muito.

A curiosidade que estimula a atividade pensante do homem vos acompanha certamente até a morte, reservando-vos para então a satisfação de todas as vossas curiosidades passadas, presentes e futuras.

Nessa expectativa eu vos direi, para responder mal ou bem a vossa pergunta: o ar que vos envolve, impalpável como nós, os Espíritos, está marcado pelos vossos pensamentos; o vosso próprio hausto é, por assim dizer, a página escrita dos vossos pensamentos. Essas páginas são lidas e comentadas por Espíritos que constantemente se acercam de vós. São eles os mensageiros de uma telegrafia divina a que nada escapa.(50)

A Morte do Justo

Após a primeira comunicação do Sr. Sanson, dada na Sociedade de Paris, um Espírito transmitiu, sob o título acima, a comunicação seguinte:

A morte do homem de que vos ocupais neste momento foi a do justo, quer dizer, uma morte calma e cheia de esperança. Como o dia sucede naturalmente à aurora, a vida Espírita sucedeu para ele à vida terrena, sem abalo, sem ruptura, e o seu último suspiro foi exalado num verdadeiro hino de reconhecimento e de amor. Como são poucos os que fazem assim essa difícil passagem! Como são poucos os que após as ilusões e os desesperos da vida percebem o ritmo harmonioso das esferas! Assim como o homem saudável, quando mutilado, sofre ainda a sensação dos membros perdidos, a alma do homem que morre sem fé e sem esperança se sente dilacerada e aflita ao escapar do corpo, lançando-se no espaço inconsciente de si mesma.

Orai por essas almas perturbadas, orai por todos os que sofrem. A caridade não se restringe à humanidade visível: socorre e consola também os seres que povoam o espaço. Tivestes a prova disso pela súbita conversão do Espírito tocado pelas preces espíritas que fizestes no túmulo desse homem de bem que deveis interrogar, pois deseja vos fazer progredir no caminho reto.

O amor não tem limites. Expande-se no espaço dando e recebendo ao mesmo tempo as suas divinas consolações. O mar se estende numa perspectiva infinita. Seu limite no horizonte parece confundir-se com o céu e o Espírito se deslumbra com o magnífico espetáculo dessas duas imensidades. Assim o amor, mais profundo do que o mar e infinito como o espaço, deve ligar-vos a todos, homens e Espíritos, na mesma comunhão da caridade, realizando a admirável fusão do efêmero com o eterno.

Georges.

Sr. Jobard

(Diretor do Museu da Indústria de Bruxelas, nascido em Baissey, Alto Marne, e falecido em Bruxelas de um ataque de apoplexia fulminante a 27 de Outubro de 1861, com a idade de 69 anos.)

O Sr. Jobard era presidente honorário da Sociedade Espírita de Paris. Pensávamos em evocá-lo na sessão de 8 de novembro, quando ele nos antecipou dando espontaneamente a seguinte comunicação.

Eis-me aqui, eu que querieis evocar e que desejei manifestar-me antes por este médium, ao qual inutilmente solicitei esse favor até agora.

Desejo contar-vos primeiramente as minhas impressões do momento da libertação de minha alma. Senti uma comoção inexprimível. Revi subitamente o meu nascimento, a minha juventude, o meu envelhecimento: toda a minha vida se apresentou nitidamente na minha memória. Eu sentia, entretanto, o desejo de me encontrar nas regiões reveladas pela nossa querida doutrina. Depois, toda essa agitação se apaziguou. Sentia-me livre enquanto o meu corpo permanecia inerte.

Ah! Meus caros amigos, que alegria livrar-se do peso do corpo! Que embriaguez na amplidão do espaço. Mas não acrediteis que eu me tornasse de súbito um eleito do Senhor. Não, estou entre os Espíritos que, tendo assimilado pouco, têm ainda muito que aprender. Não me demorei a lembrar-me de vós, meus irmãos no exílio, e vos asseguro toda a minha simpatia, vos envolvo nos meus melhores votos.

Quereis saber quais os Espíritos que me receberam? Quais foram as minhas impressões? Meus amigos eram todos aqueles que nós evocamos, todos os irmãos que participaram dos nossos trabalhos. Vi o esplendor mas não o posso descrever. Dediquei-me ao trabalho de discernir o que havia de verdadeiro nas comunicações, pronto a rejeitar todas as asserções errôneas, pronto a ser no outro mundo o mesmo cavaleiro da verdade que havia sido no vosso.

Jobard.

1. Quando vivo, nos recomendastes para vos evocar quando houvesseis deixado a Terra. Fazemo-lo, não só para atender ao vosso desejo, mas sobretudo para vos renovar o testemunho de nossa viva e sincera simpatia e também interessados na nossa instrução, porque vós, melhor do que ninguém, estais em condições de nos dar informações precisas sobre o mundo em que agora vos encontrais. Seríamos felizes se quisésseis responder às nossas perguntas.

— Neste momento o que mais importa é a vossa instrução. Quanto à vossa simpatia, eu a vejo e já não a percebo somente pela impressão dos ouvidos, o que representa para mim um grande progresso.

2. Para firmar os nossos propósitos e não falar vagamente, perguntaremos primeiro em que lugar estais aqui e como vos veríamos caso o pudéssemos fazer.

— Estou perto do médium. Vós me veríeis com a aparência do Jobard que sentava à vossa mesa, pois os vossos olhos mortais, ainda vendados, só podem ver os Espíritos sob a aparência mortal.(51)

(50) Todo este item 13 é uma verdadeira aula sobre telepatia, que os atuais parapsicólogos deviam ler. Toda a dificuldade encontrada pela Parapsicologia, na tentativa de controlar o processo telepático de maneira a poder utilizá-Io na vida prática, se resume nisso que o Sr. Sanson revelou, ou seja: a telepatia depende da capacidade de libertação do espírito, da maior ou menor facilidade com que ele se desprende do corpo. A frase: Tratai de morrer bem para saberdes muito encerra uma filosofia de vida e uma explicação científica da chamada visão paranormal. A faculdade da visão é do espírito o não do corpo. Uma vida espiritualizada liberta o espírito das limitações da matéria e conseqüentemente amplia a visão espiritual do homem, que cientificamente se conhece hoje como visão mental. Quando a morte chega, o espírito, já semi-liberto em vida, não encontra dificuldade no uso natural de suas faculdades normais. Por outro lado, os pensamentos são formas energéticas, segundo a própria Parapsicologia hoje admite, explicando-se portanto que se apresentem "escritos" ou "impressos" no elemento fluídico ou mais sutil da atmosfera e conseqüentemente do próprio hausto humano, que fisicamente serve para a articulação das palavras, traduzindo e transmitindo pensamentos no plano material. (N. do T.)

(51) O grifo é nosso. — Essa explicação de Jobard, tão simples, é de grande importância, implicando problemas relacionados com o nosso condicionamento aos sentidos orgânicos e às aparências do mundo físico, bem como referentes às questões de "padronização de memória", hoje pesquisados pela Parapsicologia. Também o problema de "condicionamento à crença", levantado por Richet e atualmente em foco no meio parapsicológico, relaciona-se com essa referência de Jobard. A questão de natureza do Espírito e da sua constituição energética é levantada por Jobard de maneira clara. O perispírito é semelhante ao corpo físico, mas não é idêntico a ele em tudo. A forma mortal é uma e a imortal é outra. (N. do T.)

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